Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Macau, 1936 (XXV)

 

Ilustração de Câmara Leme (1930-1983).

 

   A porta fechada representava um enigma que o fascinava. Deixou que o velho comerciante desempenhasse as suas funções de alfaiate e lhe tirasse as medidas, mesmo antes de ver se havia alguma fazenda que lhe agradasse. Ansiava por uma oportunidade de o questionar sobre o que estaria para além daquela porta e esperava que  ele lhe dissesse "São as nossas oficinas de alfaiataria", convidando-o a entrar e a transpôr aquele obstáculo que ele acreditava ser o acesso secreto a um mundo mágico.

   Esperava descobrir um mundo industrial, secreto, para além daquela porta, onde muitas centenas de trabalhadores manufacturariam, como que mecanicamente, sigilosamente, peças de vestuário para todo o mundo. Operários costurando e cosendo em silêncio, sustendo quaisquer diálogos, ouvindo o repetitivo e ensurdecedor barulho das máquinas, que abafaria todas as conversas. Conversas retidas nas gargantas. Conversas que nunca poderiam ser iniciadas, apesar de cuidadosamente imaginadas e completamente elaboradas.

   Descobriu um tecido riscado, de finas e discretas listas verticais, que quebrava a monotonia de todos aqueles tecidos monocromáticos. Sendo embora escuro, ganhava alguma leveza com as riscas claras. Um fato que serviria para dias de chuva. Dias que, ali, poderiam vir a ser muito mais escuros que aquela fazenda. Mas seria aquela uma escuridão passageira, caso fosse semelhante às tempestades tropicais que recordava de África.

   Depois de lhe indicar o tecido, aguardou pacientemente que o alfaiate tirasse de novo as medidas, muito devagar, e as anotasse meticulosamente, como que desenhando cada caracter. Não sabendo porquê, esperava ver sair do pequeno lápis letras e números familiares, ocidentais. Talvez porque o giz deslizara também familiarmente pelo tecido, como se conhecesse já cada curva do seu corpo e cada rebordo destinado a uma baínha ou a um recorte. No entanto, não ficou surpreendido quando viu todos aqueles caracteres estranhos gerados pelo lápis. De todos eles, só reconheceu o caracter referente a "homem". Um triângulo quase isósceles, de linhas curvas, desiguais no seu comprimento, viradas para o interior, côncavas. Um triângulo aberto, sem base. 

   Olhou para o azul e vermelho do lápis e voltou a recordar a porta. Procurou-a, novamente. A porta. Havia também um caracter que ele reconhecia, naquela porta. Um caracter inscrito a vermelho. Um rectângulo cortado a meio por um longo segmento de recta. Meio. Era isso mesmo. Meio. "Meio, porquê? Meio, de quê?" Esqueceu toda a discrição, deixando que a curiosidade tomasse conta de si. Instintivamente, deu voz às suas dúvidas. "Para onde dará aquela porta? Para que servirá?". Reparou que o velho comerciante recebera aquelas perguntas com surpresa, pensando que lhe eram dirigidas. Receou tê-lo ofendido, mas não se conseguira conter. Falara em voz alta como se estivesse sozinho.

    Notou um sorriso que lhe pareceu um sorriso de quem aguardava há muito aquela pergunta. Ouviu então dizer, suavemente, num tom de voz que parecia um convite – "Aquela porta dá para as nossas oficinas de alfaiataria..."

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXIV)

 

   Entrou, não sabendo por que entrava. O seu olhar continuava fascinado pelos múltiplos brilhos daqueles inúmeros botões. Botões de madrepérola, de osso, de marfim. Botões de metal, de vidro, de madeira. Botões de plástico e baquelite. Botões de massa e de pedra. Jade e malaquite. Ónix e olho de tigre. Azeviche. Um mundo caótico e heterogéneo, alternando brilhos ofuscantes com pequenas sombras, que sugeriam discretos segredos.

   Uns dedos de unhas largas e achatadas, de mãos lembrando a lisura do pergaminho, afastaram da sua vista, lentamente, o brilho hipnótico daquelas minúsculas preciosidades. Parecendo despertar de longo encantamento, tentou compreender o que fazia ali, naquela pequena loja, que cada vez parecia mais sombria. Olhou à sua volta. Fazendas e fitilhos. Tudo harmoniosamente empilhado em prateleiras, exibindo cores gritantes, decorações exuberantes. Tecidos alegremente femininos e orientais na sua opulência colorida. Aproximou-se de algumas peças, deslizando lentamente os dedos por aquelas cores inacreditáveis. Sentiu a espessura lenta dos veludos, a velocidade deslizante das sedas.   O que é que fazia ali, afinal?

   "Talvez lhe interesse um fato por medida?", ouviu, numa voz que, tendo pronunciado apenas um único "r", lhe pareceu trocar os "rr" pelos "ll"... O velho comerciante falava Português. Com um sotaque muito próprio, é claro. "Desculpe todos estes botões espalhados. São peças preciosas, sabe... O luxo das cabaias também depende destes detalhes..." (Ahá! Desta vez iria jurar que o "r" tinha saído enrolado, mesmo, tornando "pleciosas" as peças...) Esquecendo a fantasia daquele preconceito disparatado, pensou no ridículo da oferta. "Um fato por medida, com aqueles padrões?"

   O comerciante pareceu adivinhar a sua perplexidade. "Se tiver a bondade de descer por além, poderá ver tecidos mais discretos, para homem." Desceram para a cave. Escura. Parecia estar ali o depósito de toda a sóbria discrição dos fatos ocidentais. Um armazém da moda masculina europeia e do seu conservadorismo, em tons de castanho, cinzento e preto. Mas ao fundo, como que brilhando entre toda aquela monotonia, surgia o resplendor claro do linho e do algodão.

   Havia também uma pequena porta. Fechada. Para além dela, o que parecia ser o ruído da cidade. E o ruído da multidão nas ruas da cidade. E o ruído de milhares de motores e  milhares de máquinas. O ruído das fábricas que pareciam não existir naquela cidade. 

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXIII)

 

   Caminhando em direcção à Praia Grande, viu dezenas de juncos e algumas sampanas com as velas desfraldadas. As velas, imóveis, de um branco sujo de pano crú, pareciam desenhar um extenso biombo. Um biombo constituído por inúmeras asas de morcegos albinos. Asas de uma palidez esquálida, de uma lividez repelente. Asas estranhamente silenciosas, anquilosadas, paralisadas. À esquerda, depois da colina, estendia-se o vasto aterro do Porto Exterior. A azáfama nas embarcações contrastava com a acalmia das velas e das águas. Águas escuras, esverdeadas, quase sem ondulação. Lembrou-se das águas cor de azeite de António Nobre. Lembrou-se do inevitável lugar-comum da literatura. Sozinho na multidão. E aquela que lhe parecera sempre uma ridícula imagem, exagerada pelos escritores, fez sentido. Só. Sentia-se só entre toda aquela gente, entre todo aquele movimento, entre todo aquele barulho.

   Virou subitamente costas ao mar, àquele triste mar cor de azeite. Não estava no Canal da Mancha, nem queria que o deixassem chorar. Dirigiu-se para os bairros que já conhecia. Preferia sentir-se só em lugares que lhe eram familiares. Sem qualquer pensamento irónico, deu por si novamente na Rua de S. Domingos. Descobriu letreiros que não tinha visto, frases que nunca pensara existirem. Coisas estranhas. Caracteres de dimensões avassaladoras inscritos em pequeníssimas tabuletas. Combinações linguísticas que pareciam saídas de manifestos e poemas modernistas. Caracteres orientais que se entreteciam com letras ocidentais, criando frases surpreendentes, realidades inesperadas. "Há mobílias de madeira sun-chi e quan-tin para vender e alugar", lia-se num pilar da carpintaria Iu-Seng e C.ª. Mergulhou de repente nos versos de Sá-Carneiro. Manucure. Sentia-se confuso com as reverberações, com os sons, com o ressoar das memórias. Vívidas imagens da rua cruzavam-se com nítidas palavras do passado, intersectando-se, rejeitando-se, amalgamando-se. Criando uma claridade ofuscante e ensurdecedora.

  "Xue! Xue!", ouviu. Era uma voz nervosa, masculina mas alquebrada, que vinha da cave de uma loja. A princípio pensou que se dirigia a si, que o estavam a enxotar por se ter encostado momentaneamente  a um pilar da loja. Depois percebeu que a voz, embora viesse de dentro, também se dirigia para dentro, para o fundo da loja. Espreitou. Parecia-se com as retrosarias ocidentais. Tecidos, acessórios de costura, linhas, botões. Ao cimo de umas escadas, na indefinida fronteira entre a claridade da rua e a penumbra da loja, um velho segurava nas mãos mostruários de fitas para debruar, enquanto chamava alguém. Ao lado, sobre uma mesinha, dezenas e dezenas de botões avulso, espalhados numa harmonia caótica, brilhavam como pequenas preciosidades.

   Por momentos, o olhar do comerciante cruzou-se com o seu. Um sorriso sucedeu ao chamamento. Foi convidado a entrar. Deixando-se envolver pela penumbra, entrou.

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXII)

Mapa de Macau publicado em 1955.

 

   "Ni hao!" Gostava de ouvir esta saudação pela manhã, mesmo sabendo que não era a mais respeitosa de todas e que muitas vezes estariam a pensar nele como intruso, um san-kuai, e o amaldiçoariam mentalmente como a um diabo estrangeiro.

   Era estranho, mas à medida que ia ouvindo novas palavras e começando a perceber parte do seu significado, sentia que ia deixando fugir um pouco do cativante mistério da China. Gostava de ouvir palavras desconhecidas e de se deixar levar para um mundo de fantasia pela diferente sonoridade das vozes. Um mundo de sons com significados aleatórios, ou sem outro significado que a sua própria sonoridade, uma sonoridade mágica e desconhecida. Um mundo que agora ia desaparecendo. As palavras começavam a ter significados concretos e deixavam de ser apenas sons encantatórios, passando a traduzir muitas vezes a desilusão e a monotonia de um quotidiano repetitivo.

   Acontecera-lhe, entretanto, ser surpreendido pela subtileza das sonoridades. Descobrira que os macaístas preferiam o termo jirinchá a riquexó. Menos anglicizante, diziam. Consideração que não deixava de ser curiosa numa terra onde os comerciantes aceitavam de bom grado a moeda corrente de Hong-Kong, preferindo-a muitas vezes às patacas do Ultramarino... Também não deixara de ser curioso o encontro que acabara de ter com algumas autoridades do território e alguns desses macaístas patriotas, ciosos da nacionalidade portuguesa. Achou particularmente intrigante a insistência com que lhe sugeriram uma visita às ilhas vizinhas. Lapa, D. João e Montanha. Compreendeu que teria de aceitar a sugestão. No Oriente, as insistências veementes podiam corresponder a uma ordem irrecusável, e as aquiescências sorridentes a uma negativa silenciosa, continuamente adiada. Mesmo quando o discurso vinha de portugueses. Portugueses residentes em Macau. Macaístas.

   Procurou Tai-Vong-Cam num mapa. A Ilha da Montanha. Das três, aquela que ficava mais a sul. Ocorreu-lhe a conversa que tivera momentos antes sobre Cantão. Sobre as redondezas, sobre a província, sobre aquela região da China. Lembrou-se de uma expressão. Heang-Chan. As Montanhas Perfumadas. E percebeu o seu enlevo. Ao contrário do que pensara até ali, conseguira ainda encontrar palavras misteriosas. Palavras que, mesmo depois de traduzidas, continuavam a encerrar magia. Palavras que, depois de traduzidas, acentuavam ainda mais essa magia.

   A norte, junto de Cantão, Pac-San, a Montanha Branca. A sul, Tai-Vong-Cam, a Ilha da Montanha. Heang-Chan. Estava nas terras de Heang-Chan... Estava na terra das Montanhas Perfumadas. 

 

Rede de pesca conhecida como sarambau. Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XXI)

Vinheta de Raymond Hull (1934).

 

   Macau não lhe pareceu uma cidade muito grande. "Mas a dimensão das cidades, à noite, é sempre outra. Como se existissem sempre duas cidades em cada cidade. E habitantes diferentes para cada uma delas...", pensou. Durante a tarde, entontecido pelos sons e pelos aromas estranhos, quase não reparara na cidade, na sua arquitectura. Agora, à noite, as ruas pareciam-lhe tão  labirínticas e enoveladas como aquele lacassá que lhe haviam servido ao jantar.

   Não estando habituado a cidades com lojas abertas até tão tarde, pareceram-lhe os sons e rumores daquelas horas ruídos estranhos. Mas não ruídos exóticos. Apenas ruídos inesperados. Ruídos que contrastavam com a memória que tinha dos silêncios nocturnos nas cidades europeias. Ruídos que contrastavam com o ligeiro aspecto ocidental de alguns prédios.

   Naquelas ruas por onde andara predominavam prédios de três e quatro pisos. Apresentando quase todos lojas no rés-do-chão, tinham estreitas varandas correndo ao longo da fachada, nos andares superiores. Ténues luzes escorriam dos seus interiores, contrastando com o vozear que se escapava de algumas casas e nada tinha de ténue. Macau não lhe pareceu uma cidade de murmúrios. "Talvez as pessoas murmurem noutras ocasiões, contrariando o ruído das manhãs ou a agitação das tardes..." Sempre pensara na discrição como característica dos povos chineses. Descobria agora que essa discrição, afinal, poderia transformar-se em vigorosa gesticulação e alta vozearia. "Questão de classes sociais, talvez..." Enquanto assim pensava, notou as gelosias de algumas casas sem varanda. A temperatura da noite e as cores daquelas ripas de madeira lembraram-lhe algumas casas do Funchal. Eram contudo diferentes, estas gelosias. A abertura na fachada era a de uma alta porta de varanda europeia, encimada por uma armação de madeira com duas ou três vidraças. As gelosias surgiam então, subdivididas horizontalmente em duas secções que chegavam até ao nível do soalho. As duas secções do meio estavam abertas de par em par na maioria dos prédios. Destas casas não pareciam sair tantas vozes...

   Parou junto de quatro colunas rematadas com capitéis. As colunas centrais prolongavam-se em dois pisos superiores. Três pesadas portas de madeira, almofadadas, surgiam quase embutidas numa fachada de nítida influência europeia. Encontrava-se numa esquina. Descobriu que estava na rua de S. Domingos.

   Não conseguiu conter uma gargalhada, lentamente diluída num sorriso irónico. Macau... E logo tinha que ir dar a um templo cristão! Virou costas e mandou parar um riquexó que passava. "Central!", disse.

   O sorriso ainda lhe marcava a face quando o riquexó arrancou, trazendo-lhe a brisa de Macau...

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XX)

 

   Antes de desembarcar em Macau estava apreensivo. Solicitara que ninguém o fosse esperar. Não tinha a certeza que respeitariam o seu desejo. Sempre gostara de discrição e temia que algum funcionário da administração, mais subserviente e menos discreto, surgisse no porto, cumprindo ordens. Mas não. Tinham respeitado o seu pedido. Os colegas mais  cínicos diriam antes que tinham obedecido às suas imposições...

   Agradava-lhe aquele liberdade de poder ser marginal à hierarquia, de poder dispensar o fato e a gravata, de poder dispensar  recepções e protocolos.

   Instalou-se no hotel, afinal familiarmente referido como Central e não como Grand, ao contrário do que pensara. Era esperado como qualquer outro hóspede que tivesse efectuado uma simples reserva telegráfica. Agradou-lhe aquela simpatia anónima e profissional. Aceitara assim não resmungar, desta vez, contra o contínuo e superficial sorriso oriental.

   Decidiu sair ao fim da tarde. O fascínio dos aromas tinha-o deixado entusiasmado com a descoberta de novas sensações. Uma refeição nas ruas parecia-lhe mais atraente do que um jantar convencional e formal no hotel. Deambulou durante algum tempo por aquele mundo surpreendente. Nunca imaginara Macau assim. Mas não se surpreendeu com aquela conclusão. Isso já ele esperava, de antemão. Os novos lugares nunca correspondem àquilo que, à distância,  fazemos deles.

   Encontrou um restaurante numa rua estreita e mal iluminada. Na viela, uma multidão barulhenta movia-se entre vapores e aromas  indescritíveis. Divertiu-se a observar inúmeros caracteres que descreviam inúmeros pratos. Fascinava-o também o facto de ignorar o significado daquele universo de pinceladas, vigorosas e ordenadas, anunciando mundos e sabores desconhecidos. Decidiu-se. Escolheu algo que desconhecia, claro. Divertiu-se quando acabou por perceber que tinha pedido lacassá. Divertiu-se ainda mais quando a massa chegou e tentou comer com fai-chis.

   Era obra! Um ocidental tentando comer com pauzinhos pela primeira vez, sem instruções nem qualquer outra ajuda. E não podia ter escolhido nada mais a não ser massa... Divertidíssimo!

   Nem queria acreditar. Sentia-se ridículo mas estava a divertir-se com a sua própria figura...

 

A colina da Penha. Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Macau, 1936 (XIX)

Ilustração de Câmara Leme (1930-1983).

 

   Era estranho. Aproximavam-se do delta do Rio das Pérolas. De Macau e de Hong-Kong. Mas parecia que para os passageiros só existia Macau. Algo de misterioso, quase proibido, parecia envolver o imaginário daquela pequena península e daquelas pequenas ilhas. Macau. O jogo, as pérolas, o ópio, as sedas, não bastavam só por si para explicar a aura e as brumas deste nome. Macau...

   Despediu-se cerimoniosamente do casal Yoshitaki, reafirmando-lhes a sua gratidão pelas ofertas e pela amizade. Eles lembraram-lhe que Hong-Kong ficava mesmo ao lado, deixando o convite para uma visita. Acedeu, com um sorriso e um aceno silencioso.

   Espraiou então a vista pela linha do horizonte. Identificou ao longe pequenos pontos que conhecia de fotografias. Imaginou, mais do que viu, pormenores da Guia, da Penha, das muralhas do Monte. Em baixo alongar-se-ia, como referiam várias descrições da região, a curva graciosa da Praia Grande.

   A chegada a terra surpreendeu-o. Tinha-se preparado para todas as diferenças. Mas não para aquelas. Aquelas eram demasiado diferentes. Sentiu-se abalado no mais íntimo de si. Teve que fechar os olhos.  Uma coisa de cada vez. Começaria pelos sons, passando lentamente ao olfacto. Mas os cheiros tomaram conta das suas narinas e das suas entranhas. De uma forma avassaladora.

   A maresia das semanas anteriores desvaneceu-se com a inesperada explosão de todos aqueles cheiros inacreditáveis. Eram os aromas, mas também o bulício e o burburinho. Um enjôo jamais experimentado em alto mar. A tontura do movimento constante, dos sons continuados. O aparente caos dos riquexós, os gritos dos condutores, a multidão caminhando apressada e parecendo traçar caminhos alternativos, construindo as suas próprias ruas. Tudo aquilo contrastando com a inabalável placidez dos passageiros dos riquexós e a ondulada calma azul do fumo do tabaco. Um tabaco que se confundia com as longas barbas de alguns velhos comerciantes chineses, sentados à entrada de pequenas lojas. 

  Tinham-lhe dito que poderia escolher o alojamento. Estaria pago durante as primeiras semanas da sua estadia. Inicialmente deixara-se seduzir pelo glamour do Hotel Bela Vista. Considerou depois que esse glamour e a própria localização do hotel o manteriam afastado do movimento da cidade. Como alternativa, tinha o Grand Central e o Hotel Riviera, quase lado a lado, na mesma rua. Soubera que no início da década o antigo President mudara de nome, era agora o Grand, e de proprietários, eram agora chineses.

   Telegrafara de bordo, havia já várias semanas, fazendo a reserva. Ficaria no Grand.

 

 

Macau, cerca de 1936.

 

 

 

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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Macau, 1936 (XVIII)

 

   Era a sua última noite  a bordo. Ocorreram-lhe velhos clichés europeus do mundo oriental. A Guerra do Ópio. A revolta dos Boxers. Os coolies. Os riquexós... Inevitavelmente, também, os lugares-comuns portugueses – porcelana da família verde ou rosa trazendo cintilações a escuros móveis D. João V, cofrezinhos com pequenos pedaços de madrepérola embutida, leques de charão... Chinesices.

   Tudo seria bem diferente desse mundo imaginado, concerteza. Um mundo criado pela sobranceria ocidental, cultivando a superficialidade do exotismo. Bastava sentir aquela brisa. Quente e húmida. Uma brisa suave e enganadora, que se poderia transformar de um momento para o outro. Transformar-se no bafo poderoso e destruidor de um mítico dragão.Tai Fon. O que seria viver com tufões várias vezes ao ano? Quais seriam as aflições de cada um? Passado o tufão, voltaria a humidade. Uma humidade que oprimiria, o calor entrando em cada pessoa como bafo de dragão, obrigando os ocidentais a sucumbir. Como haveriam o fato, o colete, a gravata, de resistir? Que seria do disfarce da civilização ocidental? Aguardaria inevitavelmente pelos escassas semanas em que a temperatura baixasse dos vinte graus...

   Havia muitos dias já que os cavalheiros de bordo tinham adoptado fatos de linho e algodão. Cores mais claras, gravatas mais alegres, aquilo que pensavam ser uma informalidade mais adequada ao clima. Povoavam agora o deck como um desordenado cardume de peixes tropicais, nos seus salpicos e riscas coloridas. Sentia-se a agitação que a aproximação a um porto sempre provocava. Falava-se mais alto, os risos davam lugar às gargalhadas. Os homens antecipando os prazeres de uma fugaz ida a um clube, as senhoras imaginando as emoções de um passeio de riquexó e sentindo a volúpia da seda e das pérolas. 

 

 

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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

Macau, 1936 (XVII)

 

   "Paternalismos. E moralizantes!", pensou. Para mais, vindos de japoneses! Japoneses que julgavam saber imenso sobre todos os europeus. Mas os japoneses, mais do que qualquer outro povo do oriente, deveriam saber que os portugueses eram diferentes. Portugueses e japoneses não poderiam ser mais iguais nas suas diferenças... Ambos os povos eram, inclusive, vorazes devoradores de peixe... Claro que o facto de este ser, ou não, servido crú não era pormenor de somenos importância... E ia torcendo ligeiramente o nariz enquanto assim pensava.

   O casal japonês testemunhou apreensivo aqueles trejeitos faciais. Iria o estrangeiro recusar as ofertas? Nunca se sabia. Os gaijin podiam ser mesmo estranhos... Sorriram, aliviados, quando o viram baixar a cabeça e estender ambas as mãos para receber os presentes.

   "Por que não?", pensara. Habitualmente recusaria presentes pelo simples facto de exigirem uma contrapartida. E esta era das piores... Uma pastilha de sublimado bem embrulhada, sem dúvida. Mas  aquele moralismo, aquele moralismo... Enfim. Os japoneses ficariam satisfeitos e ele daria uma prova de boa-vontade e adaptação a novos costumes. Estendeu os braços, sorridente, e baixou a cabeça. Agora viria o pior... Uma boa dúzia de arigatos, baixando e levantando a cabeça, baixando e levantando a cabeça, baixando e levantando a cabeça...

   Abandonou os aposentos recuando, recuando lentamente e repetindo sempre os arigatos. Como ia de costas e se sentia zonzo de tantos agradecimentos, quase tropeçou à saída. Maldito rebordo!

   Colocou os presentes na mesinha do seu camarote, deixando-se deslizar para a poltrona. Grande exercício, aquele... Provavelmente, teria que começar a preocupar-se com a tensão, também... Estava mesmo tonto de todo. Ao fim de alguns momentos, decidiu sair para o deck. A excitação da chegada a um novo porto deveria estar a animar os passageiros. E desta vez o porto era Macau.

   Quais seriam as conversas? A agitação na China? A ocupação japonesa da Manchúria? A tentação do jogo nos hotéis? A sensualidade das bailarinas profissionais nos cabarets?

   Falava-se, afinal, da chegada próxima do avião da Pan American Airways. O primeiro avião de carreira a escalar Macau.

   Não se conseguiu conter. O seu pensamento voou. Voou novamente para o Caïro. Ainda e sempre Boubouka...

 

 

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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

Macau, 1936 (XVI)

 

   Pequenos pormenores como aquele deixavam-no extremamente preocupado. Como pudera ter ignorado a ilha de Sanchoão no mapa, ali mesmo à sua frente? Não se conformava. E sabia de antemão que estavam ao largo daquela ilha. Havia poucos dias, ainda, tinha recordado o percurso de S. Francisco Xavier pelo Oriente...

   Detestava-se a si mesmo por tais deslizes. Nem se preocupava sequer com o que os outros pudessem pensar. Simplesmente, não tolerava tamanha distracção. Parecia-lhe inadmissível. Era-lhe insuportável não ter notado algo tão lógico e evidente!

   O casal japonês notou a perturbação que  se apoderara dele. Entreolharam-se. Perceberam que o estrangeiro tinha de facto muito que aprender. Mas não sobre áridas minúcias ou inconsequentes considerações eruditas. Teria que aprender mais sobre si próprio. Teria de saber aceitar as suas próprias limitações, os seus próprios defeitos. Teria de aprender a crescer dentro de si próprio.

   Entreolharam-se novamente. Em silêncio, haviam concordado numa maneira de enfrentar a perturbação do estrangeiro e de contornar aquela situação embaraçosa.

   O antiquário dirigiu-se para uma larga mala de porão que, contrariando o seu nome, se encontrava encostada à parede do camarote. Estava colocada ao alto e abriu-se como um livro. De uma prateleira interior, retirou uma pequena caixa de madeira. Trouxe-a na palma das mãos até ao estrangeiro, sorrindo. "Uma pequena recordação da minha terra." disse, estendendo os braços, "Aceite-a, por favor."

   Olhou para a caixa que lhe era estendida. Uma caixinha rectangular com madeiras exóticas embutidas. De um lado, um pequeno pássaro, do outro uma vista distante do Fuji. Tentou abri-la. Não conseguiu. Seria apenas uma peça decorativa? "É uma caixa de segredo", ouviu, "É preciso tempo e paciência para se aprender a abrir uma destas caixas..."

   Nessa altura, já a esposa do antiquário se dirigia para ele com outro objecto. Ah! Aquele era conhecido. Um leque de charão. Mas nova surpresa lhe estava reservada. O japonês acrescentou: "Agora, aceite uma recordação da terra para onde vai, esse pequeno grão de areia no velho e vasto Império do Meio..." A japonesa, silenciosa e sorridente, abriu o leque. Ficou perplexo! As varetas desdobravam-se à sua frente, arredondadas e vazias, como espinha de raia no fim de uma refeição... De que serviria um leque sem seda ou o cetim? Sorrindo, ainda, a japonesa observou: "Um leque destes lembra-nos o resto da nossa vida, os anos que ainda temos para viver, aquilo com que queremos preencher esse espaço. Sempre poderemos escolher o tecido e a decoração a nosso gosto..."

  

 

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