Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (16)

 

   Wenceslau de Moraes acompanhado de Ko-Haru, a mãe desta, Saito Yuki e as suas duas irmãs, Maruyé e Chyo-Ko. Logo após a morte de Ó-Yoné, Wenceslau mudou-se para Tokushima, passando a viver na rua Igamachi, acompanhado de uma sobrinha de Ó-Yoné, Ko-Haru Saitó. Sobre esta musumé pode ler-se a seguinte passagem, em Ó-Yoné e Ko-Haru (1923):

 

   "Era uma rapariga de Tokushima, de certo modo um vulto popular no bairro Tomidá, onde nasceu, onde cresceu, onde brincou, onde garotou, onde por ultimo certamente namorou; isto, durante vinte e trez anos a seguir – pois não foi mais além a sua existência de  garota – salvo um periodo de trez annos, durante os quaes esteve em Kobe, servindo como creada em minha casa. Vinte e trez annos apenas! Bem posto o nome de Ko-Haru, que nos traz logo á lembrança uma ephemera pseudo-primavera, que surge e passa breve..."

 

   Ko-Haru faleceu de tuberculose, em Outubro de 1916, no hospital Kokowa, em Tokushima.

 

 

The Tomb of Atsumori in Sumadera, Suma. Kobe, 7 de Janeiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

   O último passeio que Ó-Yoné deu com Wenceslau de Moraes foi neste local, a 20 de Junho de 1912. Sobre essa visita, pode ler-se a seguinte passagem no supracitado livro:

 

   "Pouco a pouco, fômo-nos familiarizando com o logar a ponto de poisarmos, n'um gesto de caricia, as nossas mãos sobre o granito. E não era inteiramente banal – permitta-se-me que o confesse – o espectaculo que offereciam as nossas duas mãos amigas – a minha rude mão, quasi disforme, de loiro homem grande da Europa, a mão mimosa e miudinha d'aquella delicada filha do Nippon – afagando a epiderme escamosa e parda d'aquellas pedras tumulares..."

 

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (15)

 

   Wenceslau de Moraes com os seus dois filhos, José (n. 1893) e João (n. 1894) Moraes, numa fotografia tirada cerca de 1919. Apesar de terem sido criados em Hong-Kong com a mãe, Atchan, e de terem uma relação difícil com o pai, José e João mantinham contacto com Wenceslau de Moraes e chegaram mesmo a visitá-lo no Japão, altura em que terá sido registada esta imagem. No testamento elaborado a 12 de Agosto de 1919, Wenceslau legou-lhes metade dos seus bens, livres de encargos. À data da sua morte Wenceslau deixou um total de 25.000 mil yens, o que na época equivalia a cerca de 250 contos. Nesse testamento, Wenceslau legou ainda 7.000 yens a Nagahara Den, com quem tinha vivido em Kobe antes de desposar Ó-Yoné.

 

 

Procession of The Nanko Festival in Kobe. Kobe, 8 de Dezembro de 1909 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (14)

 

   Ó-Yoné Fukumoto em retrato fotográfico com dedicatória a Wenceslau de Moraes. Ó-Yoné, com quem Wenceslau casou em 1900, faleceu a 20 de Agosto de 1912, tendo sido o seu corpo cremado em Kasugano, Kobe. A sua morte afectou decisivamente a vida de Wenceslau de Moraes que, num postal remetido para Maria Joaquina Campos a 7 de Setembro desse ano, confessava "Eu ando mto. ocupado com mudança de casa e um tanto doente." Eventualmente, esta morte terá sido uma das causas do seu pedido de exoneração do cargo de cônsul, no ano seguinte. A sua vida parece ter atingido nesse momento um ponto de reflexão e indecisão que se prolongou durante alguns meses pois, numa carta endereçada a Jaime do Inso a 31 de Outubro de 1913, admitia: " Quanto a tornarmos a vêrmo-nos, é bem possível que se dê a hypothese que imagina, isto é, que eu volte a Portugal, donde ando ausente ha 22 annos e onde tenho uma meia duzia de amigos que desejo tornar a abraçar. Confio pois que o nosso 1.º encontro não foi o último."

   Ó-Yoné foi retratada em múltiplos textos de Wenceslau de Moraes, particularmente em Será Ó-Yoné?... Será Ko-Haru?... (1918) e Ó-Yoné e Ko-Haru (1923).  

 

(Sem Título). Kobe, 3 de Dezembro de 1909 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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Curiosidades - Os Livros Japoneses no Século XIX

Detalhes de xilogravuras de um livro ilustrado por Yoshitora Utagawa (act. 1840-1880), c. 1850.

 

   Embora os livros ilustrados no interior apresentassem geralmente gravuras a preto e branco, existia um conjunto menos numeroso que era impresso com xilogravuras policromadas. Neste caso, o papel washi que separava as páginas impressas tinha uma espessura maior, pelo que o seu volume duplicava ou triplicava em relação às publicações a preto e branco.

 

 

   Os livros com xilogravuras policromadas no interior apresentavam ainda outras diferenças relativamente aos mais vulgares – ao contrário destes, a capa era monocromática, não apresentando normalmente gravuras, e a sua espessura não permitia o agrupamento de dois volumes numa sobrecapa ilustrada, como acontecia com os livros a preto e branco cujas capas apresentavam ilustrações complementares.

 

Sobrecapa ilustrada para dois volumes de xilogravuras a preto e branco de Kunisada Utagawa (1786-1865), também conhecido como Toyokuni III. Década de 1860.

 

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Quarta-feira, 18 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (13)

 

   Wenceslau de Moraes, com o seu cão ao colo, na companhia da família do Cônsul de França, Monsieur Fossarieu, em Kobe.

   Embora Wenceslau tivesse tido uma educação que essencialmente assentava em modelos literários e culturais francófonos, como era hábito na altura, não dispensava a todos os autores franceses a mesma consideração literária. Em carta datada de 21 de Novembro de 1921, teceu os seguintes considerandos sobre os seus próprios processos literários e os autores que admirava:

 

   "Agora outro assunto. O processo de escrever os meus livros resume-se em pouco: pequenas notas sem titulos, divididas umas das outras por entrelinhas, evitando as largas considerações. O ultimo capitulo (chamêmos-lhe capítulo) do ultimo livro (Mendes Pinto) é formado por duas meias linhas simplesmente. Nem eu entendo livros que não sejam assim formados por notas soltas, por apontamentos ao acaso, diarios, cadernos de impressões, etc. Neste genero literario, muitos escriptores europeus se distinguiram (Rousseau, Lamartine, etc., etc., etc.); e n'elle os escriptores japonezes de ha 500 annos e 1000 annos fôram eximios, como tentei fazer conhecer no meu livro "Bon Odori".

   O escriptor, quando escreve para alimento do seu espirito e dos raros que o possam comprehender, tem de pôr a su alama inteir ano que escreve. Vibrar todo inteiro quando se escreve e fazer vibrar o coração de todos que nos lerem. O realismo de Zola, nu e cru, não presta, fez banca rota. Quer-se mais, quer-se a nota aguda, aguda como um punhal, que nos fira e que vá ferir os outros. Nojo, colera, asco, odio, horror, amor, paixão, enlevo idolatria, desespero, tristeza, etc., etc., etc., tudo serve; o que se quer é que se exprima a impressão do que se vê com uma palpitante emotividade de sentir, de maneira a ir commover-se fortemente os leitores, pintando o que nos impressiona com côres vivissimas que nos deslumbrem. Não cuido em apresentar frases limpas e correctas; quero apontar ideias, como eu as concebo, e mais nada."

 

      O processo de escrita relatado pelo autor desenvolvera-se indubitavelmente devido ao apreço que Wenceslau manifestava pelo minimalismo japonês e pela concisão da composição poética denominada haikai (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/28941.html).

  

 

(Sem Título). Kobe, 22 de Setembro de 1909 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa (No destino, reendereçado para Azeitão).

 

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (11)

 

   O-Tane San, a Senhora Semente, e O-Haru, a Senhora Primavera, as duas raparigas da Cháya de Nunobiki que Wenceslau de Moraes mencionou em Paisagens da China e do Japão (1906). Depois do encerramento da Cháya, O-Tane San desposou um compatriota e O-Haru faleceu de tuberculose. Wenceslau passou então a frequentar Suma e Nanko, para além de Nunobiki, a fim de consumir o seu chá na área envolvente dos templos. Regularmente, aos domingos saía de casa cerca das sete da manhã para ir almoçar a uma cháya, onde entre outras iguarias nipónicas consumia yakimuchi, os tradicionais bolos de feijão.

 

Foreign Concession, Kobe. Kobe, 2 de Junho de 1909 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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O Calendário Japonês

Bilhete postal japonês, do final do período Meiji, circulado de Berlim para Lisboa em 1904. Os postais japoneses mantêm ainda hoje algumas das características tradicionais da impressão xilográfica dos séculos XVIII e XIX, que incluíam gravura em relevo, fragmentos de mica e pigmentos metalizados. Neste postal, em particular, pode observar-se o uso de pigmentos prateados.

 

   O Japão encontra-se presentemente no ano 19 do período Heisei. Isto porque o Japão ainda mantém para as suas eras um calendário, paralelo ao gregoriano, correspondente ao tempo de governação de cada imperador. O imperador Akihito (n. 1933) ascendeu ao trono em 1989, ano 1 do período Heisei, nome que o imperador receberá após o seu falecimento, de acordo com uma tradição instaurada no princípio do século XX. Anteriormente, entre 1926 e 1989, decorreu o período Shōwa, correspondente ao governo do imperador Hirohito (1901-1989). Este tinha sido antecedido entre 1912 e 1926 pelo período Taishō, a época do príncipe Yoshihito (1879-1926). O período Meiji, que veio consolidar a abertura do Japão ao ocidente nos tempos modernos, decorreu entre 1868 e 1912, durante o governo do imperador Mutsuhito (1852-1912). 

   Wenceslau de Moraes (1854-1929) viveu no Japão durante os períodos Meiji, Taishō e Shōwa. Quando os Portugueses chegaram ao Japão, em 1543, decorria o período actualmente conhecido como Muromachi ou Ashikaga (1336-1573). Sempre que estes períodos se prolongam por vários séculos, é habitual proceder-se a uma subdivisão em eras de menor duração. Assim, o período da chegada dos Portugueses ao Japão também pode ser referido como  Sengoku, uma subdivisão do período Muromachi, entre 1467 e 1573.

 

Cape of Wada. [Hyogo, Kobe]. Bilhete postal japonês do final do período Meiji que combina a fotografia com as técnicas tradicionais da impressão em relevo e (da evocação) dos pigmentos metálicos.

 

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (10)

 

Wenceslau de Moraes junto da cascata de Nunobiki, próximo de Kobe. Sobre este sítio, escreveu o autor em Paisagens da China e do Japão (1906):

    "Não haverá ninguem, imagino, que tendo passado em Kobe, não conheça Nunobiki, a cascata. (...) Lá em riba, muito em riba da montanha, salpicada de espumas e acalentada em rumorejos, na penumbra do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos de ramaria silvestre, era a casa de chá , a cháya tradicional, oferecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos, disseram-me, eram trez raparigas, trez irmans, – as trez Graças; – mas eu conheci só duas, tendo casado a outra com um titular europeu, conforme ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e O-Haru, a Senhora Primavera."

   Entre 1899 e 1912, Wenceslau de Moraes manteve assídua correspondência com o seu amigo Carlos Campos, funcionário superior da Companhia de Tabacos de Portugal, em Lisboa. Esta amizade veio proporcionar uma troca regular de bilhetes postais entre uma das filhas de Carlos Campos, Maria Joaquina, e Wenceslau de Moraes, correspondência que sobreviveu ao falecimento de Carlos Campos, em Outubro de 1912. O conjunto destes bilhetes postais, escritos entre 1909 e 1928, encontra-se depositado na Universidade de Estudos Estrangeiros, em Kyoto.

 

Sanno-miya-dori, Kobe. Kobe, 2 de Fevereiro de 1909 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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Quinta-feira, 12 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (9)

 

   Wenceslau de Moraes em 1903, com 49 anos de idade. Em Julho de 1898 Wenceslau solicitou a exoneração do seu cargo de imediato da Capitania do Porto de Macau, alegando exercício de funções incompatíveis com a sua graduação na Armada, uma vez que passou a responder perante um oficial de patente inferior. Logo no ano seguinte, tomou posse do cargo de cônsul de Portugal em Hyogo e Osaka, nomeação que foi posteriormente reajustada, com  a atribuição de funções em Kobe e Osaka. Passou a viver em Kobe, na rua Kanomachi. Casou com Ó-Yoné Fukumoto em 1900.

 

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Quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Curiosidades - Os Livros Japoneses no Século XIX

 

   Um vendedor de livros no Japão do século XIX interpelado por uma jovem (musumé). Xilogravuras de Utagawa Kunisada (1786-1865), também conhecido como Toyokuni III, da década de 1860.

   Estes pequenos livros (cerca de 17,8 x 11,7 cm) eram  tradicionalmente produzidos em papel de casca e polpa de amoreira (washi), sendo impressos com tinta obtida a partir de pigmentos naturais. Com a abertura do Japão ao exterior, a partir da década de 1850, os pigmentos sintéticos importados foram sendo utilizados com maior frequência, particularmente o pigmento que produzia o vermelho vivo.

   A impressão xilográfica era normalmente executada em policromia na página principal, que constituía a capa e cujo desenho habitualmente constituía também um díptico com outro volume (ver imagem abaixo; note-se a  mesma decoração de fundo e os livros que surgem no canto superior esquerdo), e em monocromia (neste caso em tons de azul, azuri-e)  na contracapa. A maioria dos volumes apresentava xilogravuras a preto e branco no interior, embora surgissem também volumes com policromia e gravuras a duas cores com diferentes tonalidades (uma técnica habitualmente conhecida na gravura ocidental pela sua designação francesa, degradé). Os volumes mais cuidados apresentavam ainda uma impressão em relevo nas capas, como se pode verificar nas imagens reproduzidas (técnica conhecida como  gauffrage, entre os peritos de gravura ocidentais).

 

 

    As imagens utilizadas no interior faziam-se na face de só uma folha, com o dobro do tamanho final do livro, a qual levava duas impressões distintas, lado a lado, sendo depois dobrada para assim se obterem duas páginas impressas. O verso dessas páginas não era colado, pelo que o aspecto habitual dos livros apresenta duas páginas impressas seguidas de duas páginas em branco. A abertura da folha dobrada, contudo, ficava virada para a costura do livro.

   Como se verifica pela costura evidente nas imagens, ao contrário do que acontece no ocidente a leitura inicia-se a  partir  daquilo que nós consideramos a última página do volume e efectua-se da direita para esquerda.

 

 

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