Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

Jorge de Sena - A Regra e a Excepção

Jorge de Sena (1919-1978),

Dedicácias (publicação póstuma, 1999).

 

   Impressões do Outro Lado: "...a [obra] de Sena me surge, mesmo na poesia, como obra fundamentalmente racional." Ocorrem excepções, claro, onde o racional se conjuga com o emocional - Dedicácias. Para que não hajam dúvidas, transcreve-se um dos poemas dessa obra. E se pensam que este texto é extremamente escandaloso e chocante, desenganem-se. Surgem outros poemas no livro que bem rivalizam com a Poesia Erótica, Satírica & Burlesca de um senhor chamado Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), para já não mencionar a obra de um Pietro Aretino (1492-1556).

   Dedicácias: a não perder!

 

"Sua Putidade o Crimertídaco

Esse filho de quem nem pode chamar-se bem uma puta,

persegue-me, arranha-me, arrepela-me, cospe

sempre ao meu lado, e nos lugares aonde

julga que eu passei. Filho como é,

do que nem pode chamar-se bem

uma puta, vive de cuspir, de arrepelar

de arranhar, de perseguir as sombras

que ele julga serem as de quem não passa

onde a mãe o deu à luz,

depois de untada a vida com lubrificante

que lhe ficou, brilhantina, agarrado ao cabelo,

e a mãe, logo que o viu, lhe calçou

meias verdes e lhe comeu o imbigo [sic].

Filho do que, de puta, nem por prenha basta

para gerar um esterco assim tão penteado,

tão crítico, tão de meias verdes,

tão arrotantemente porco nas regueifas que

do cachaço ascendem ao tutano encefálico,

julga suinamente que não há lugares,

nem seres humanos, livres da presença

de Sua Putidade. Há.

Exactamente as pessoas e os lugares aonde

ser filho da puta é ser filho da puta,

com ou sem regueifas nas ideias

ou verdura nas meias,

ou brilhantina uterina

de quem lambido foi em sua mãe

antes de nascer para cri-mer-tí-da-co.

 

3 de Agosto de 1962"

 

   ...E se pensam, novamente, que as críticas são apenas cobardemente vagas e anónimas, desenganem-se uma vez mais! Vitorino Nemésio é claramente identificado e criticado (desancado!...) nas Dedicácias, bem como Hernâni Cidade, Fidelino de Figueiredo, Álvaro Pimpão, Paulo Quintela, João Gaspar Simões, Mário Cesariny de Vasconcelos (nem queiram saber!...) e outros, muitos outros, mais ou menos identificáveis... Um autor transmontano também por lá aparece...

© Blog da Rua Nove

 

publicado por blogdaruanove às 00:17
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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Autógrafos - António Botto

António Botto, Canções (1932).

Capa de Fred Kradolfer (1903-1968)

 

António Botto (1897-1959).

   Poeta marginal e marginalizado, em parte pela frontalidade com que assumiu a sua homossexualidade, Botto viu a primeira edição de Canções ser publicada no início da década de 1920 pela Olisipo, a efémera editora criada por Fernando Pessoa (1888-1935). Pessoa e José Régio (1901-1969), aliás, foram dois admiradores confessos da obra de Botto, tendo elaborado estudos sobre a mesma. Poeta contemporâneo do primeiro Modernismo e do movimento Orpheu, Botto desenvolveu sempre uma modernidade autónoma, criando um espaço literário peculiar que de modo algum assenta exclusivamente no declarado e óbvio conteúdo homoerótico de muitos dos seus poemas. A actualidade e modernidade da sua poesia ainda hoje são características evidentes para o leitor contemporâneo. Tendo-se auto-exilado no Brasil em 1947, aí acabou por falecer, atropelado. As suas obras mais conhecidas serão, eventualmente, As Canções de António Botto (edição completa, 1941), na poesia, e Os Contos de António Botto, para Crianças e Adultos (1942), na prosa.

   Um pequeno excerto de uma canção de António Botto, lido por José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e gravado para a Smithsonian Institution, pode ser ouvido em:

 http://www.smithsonianglobalsound.org/trackdetail.aspx?itemid=31889

   Da edição de 1932 do volume Canções transcrevem-se abaixo três poemas, respeitando-se a grafia original.

 

Livro Terceiro, Piquenas Esculturas - Segundo Poema

Erguem-se vozes.

O clamôr, a barafunda

Vae avultando

No silencio da senzála.

E o batuque principia...

Ei-los,

- São quatro tentações de maravilha!

Bronzes

Da mais bela estatuária romana.

E o batúque

Principia

Depois de cobrirem o sexo

Com folhas de bananeira.

O luár cahe, muito quente, gorduroso,

Na areia que escalda...

Ó tropical e excitante bebedeira!

E bailam -

Cantando

Uma lenta melopeia de bruxêdo,

- Só duas notas - diabólica, tristonha.

Um,

Com olhos de prisioneiro amoroso

E dextreza de gentil gladiador,

Não me larga - olha sempre!

E a sua bôca

Entreaberta num sorriso,

Parece um fructo de lúme

Com bagos de prata.

Aos quadris

Atáram guizos,

Ferraduras, e chocalhos,

Moédas, raizes,

Ramarias em flôr,

Manipanços,

E contas de velho marfim doirado.

E o batúque não acaba...

Cáio na areia cansado...

 

Livro Terceiro, Piquenas Esculturas - Décimo Primeiro Poema

Acabemos.

E acabemos para sempre.

Continuar, para quê?

Nem uma palavra amiga,

Nem um sorriso,

Nada

Que dê conforto ou prazer...

Não, acabemos...

Ou acabar..., - ou morrer.

 

Livro Quarto, Olympiadas - Poema Segundo

Eil-a!...

Tu..., avança! - Lá váe ela!

Corre!...

- Atira-te com alma!...

Defende-a... - vamos!, - então?

E a bola, ao entrar nas redes,

Suspendeu a alegria muscular

E a juvenil vibração.

Estoiram as aclamações;

E a luz do sol enfraquece.

Mas, o jogo, novamente principia:

Os "vermelhos"

Vão envolvendo os "leões";

E o ataque

Bem marcado,

Vae revelando a victoria

Que, - desenhada e conduzida

Com rasgos da mais limpida nobreza

Atinge o seu maximo valôr:

- A bóla, rapida, cahe,

Passando

Por entre os braços erguidos

Do garboso jogador.

Palmas, delírio, - grandeza!

Alguem atira uma rosa

Para os "onze" vencedores.

E ao longe o sol agonisa

Numa bohemia de côres.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 13:39
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

The Great Figure

 

The Great Figure

 

Among the rain
and lights
I saw the figure 5
in gold
on a red
fire truck
moving
tense
unheeded
to gong clangs
siren howls
and wheels rumbling
through the dark city

 

William Carlos Williams (1883-1963)

in Sour Grapes: A Book of Poems (1921)

publicado por blogdaruanove às 01:25
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Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Florbela Espanca

Desejos Vãos

 

Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

 

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até da morte!

 

Mas o Mar também chora de tristeza...

As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, braços, como um crente!

 

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

 

Florbela Espanca (1894-1930)

in Livro de Mágoas (1919)

publicado por blogdaruanove às 22:09
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