Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

António Gedeão - Lágrima de Preta

Photo © Erin Tyner

(http://www.flickr.com/photos/erin_t/)

    

Lágrima de Preta


Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


António Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho, 1906-1997)

in Máquina de Fogo (1961)

 

(Consulte um site belíssimo, com fotografias e informações desenvolvidas sobre o autor, em http://www.romulodecarvalho.net/.)

 

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António Gedeão... Ilustrador!

 

António Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho, 1906-1997), ilustrações para a capa e contracapa do livro História dos Isótopos (1962), assinado com o seu ortónimo.

 

 

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Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

Detalhes

Detalhes do Palácio da Regaleira, em Sintra.

 

   "Álvaro Góis,

    Rui Mamede,

    filhos de António Brandão,

    pedreiros de profissão,

    de sombrias cataduras

    como bisontes lendários,

    modelam ternas figuras

    na brutidão dos calcários."

    (...)

   "Fixando a pedra, mirando-a,

    quanto mais o olhar se educa,

    mais se entende o truca... truca...

    que enche a nave, transbordando-a,

    truca, truca, truca, truca,

    truca, truca, truca, truca."

 

   Excerto do Poema de Pedra Lioz, de António Gedeão

   (pseudónimo de Rómulo de Carvalho, 1906-1997)

 

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Sexta-feira, 4 de Maio de 2007

Lianor, Leonoreta...

 

POEMA DA AUTO-ESTRADA

  

Voando vai para a praia

Leonor na estrada preta.

Vai na brasa, de lambreta.

 

Leva calções de pirata,

vermelho de alizarina,

modelando a coxa fina

de impaciente nervura.

Como guache lustroso,

amarelo de indantreno,

blusinha de terileno

desfraldada na cintura.

  

Fuge, fuge, Leonoreta.

Vai na brasa, de lambreta.

 

Agarrada ao companheiro

na volúpia da escapada

pincha no banco traseiro

em cada volta da estrada.

Grita de medo fingido,

que o receio não é com ela,

mas por amor e cautela

abraça-o pela cintura.

Vai ditosa, e bem segura.

  

Como um rasgão na paisagem

corta a lambreta afiada,

engole as bermas da estrada

e a rumorosa folhagem.

Urrando, estremece a terra,

bramir de rinoceronte,

enfia pelo horizonte

como um punhal que se enterra.

Tudo foge à sua volta,

o céu, as nuvens, as casas,

e com os bramidos que solta

lembra um demónio com asas.

 

Na confusão dos sentidos

já nem percebe, Leonor,

se o que lhe chega aos ouvidos

são ecos de amor perdidos

se os rugidos do motor.

 

Fuge, fuge, Leonoreta.

Vai na brasa, de lambreta.

 

António Gedeão (Rómulo de Carvalho, 1906-1997)

in Máquina de Fogo (1961)

 

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