Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

 

Artur Augusto [da Silva] (1912-1983), A Grande Aventura (1941).

Capa de Luís Dourdil (1914-1989).

 

   Tendo nascido em Cabo Verde, Artur Augusto da Silva veio a passar a sua infância e adolescência entre Portugal e a Guiné. Alguns anos depois de concluir o curso de Direito, em Lisboa, partiu para Angola. Aí permaneceu durante o final dos anos trinta e início dos anos quarenta, radicando-se na Guiné no final dessa mesma década.

   O percurso literário do autor iniciou-se em 1931 com o volume de poesia Mais Além e ficou marcado pela censura ao seu segundo livro, Sensuais / Helena Maria (1933), assinado com o pseudónimo Júlia Correia da Silva, um livro apreendido e destruído pela polícia.

   Para além de outras obras de ficção e ensaio, Artur Augusto publicara já antes deste romance duas monografias sobre artistas portugueses – António Soares (1937) e Jorge Barradas (1938), a que se seguiu em 1944 novo volume – João Carlos: um artista do livro, uma monografia sobre o escritor e ilustrador João Carlos Celestino Gomes (1899-1960) [ver alguma da sua arte gráfica em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/150192.html]. O interesse do autor pela pintura e ilustração não seria estranho ao facto de ser irmão de João Augusto da Silva (n. 1910), que havia escrito e ilustrado o volume Grandes Chasses [a ser reproduzido posteriormente neste blog] para a exposição de Paris de 1937. Já depois de radicado na Guiné, Artur Augusto da Silva dedicou particular atenção às tradições e leis dos seus povos, tendo publicado, entre outros estudos, Usos e Costumes Jurídicos dos Fulas da Guiné Portuguesa  (1958) e Usos e Costumes Jurídicos dos Felupes da Guiné (1960).

   Enquanto poeta, o autor colaborou com a revista Claridade, de Cabo Verde, e com as revistas Seara Nova e Vértice, entre outras.

   O romance A Grande Aventura relata a viagem de um jovem para Angola, onde vai exercer um cargo administrativo, e a sua descoberta da vida em Luanda e no interior. Conclui-se com a decisão do jovem de permanecer no território, mesmo depois de a sua colocação ter sido cancelada. Aí, no final da narrativa, começa a sua grande aventura.

   Pela obra perpassa a evocação directa da obra de João Augusto da Silva, no episódio da caçada, e a emoção da descoberta da grande África por um jovem. A tudo isto se sobrepõe o sentimento de dever colonial, bem expresso na dedicatória do romance – "Aos colonos d'África a quem devo a maior lição que um homem pode tomar: a de que não há merecimento na vida quando não sabemos conquista-la, hora a hora, com o nosso próprio sangue. A êsses homens obscuros que para ali vão, e morrem sem terem regressado a suas casas, como se cumprissem um destino."

 

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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

 

Gabriel Mariano (1928-2002), O Rapaz Doente (1963).

    As publicações Imbondeiro, com sede em Sá da Bandeira (actual Lubango), Angola, constituíram um marco particularmente importante na edição da literatura colonial – revelaram uma diversidade espantosa de novos autores e publicaram as suas obras independentemente de serem, ou não, afectas ao regime. A 1.ª Canção do Mar e Duas Histórias de Pequenos Burgueses, de Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), foram publicadas na colecção Imbondeiro, dirigida por Garibaldino de Andrade (1914-1970; será referido em breve na secção autógrafos) e Leonel Cosme (n. 1934).

   Esta colecção com dezenas de títulos, apesar de coordenada a partir de Angola, divulgava autores de todas as colónias portuguesas em África. A mesma editora publicava também as colecções Dendela (contos para crianças), Imbondeiro Gigante (contos de autores africanos, brasileiros e portugueses da metrópole), Livro de Bolso Imbondeiro, Mákua (poesia) e Primavera (cadernos didácticos).

   Gabriel Mariano, um autor de Cabo Verde formado em Direito na Universidade de Lisboa, já tinha publicado na revista Claridade e na colecção de poesia Mákua quando este conto foi lançado. Posteriormente, surgiram 12 Poemas de Circunstância (1965), Louvação da Claridade (1986) e Ladeira Grande – Antologia Poética (1993). Na ficção, publicou Capitão Ambrósio (1975) e Vida e Morte de João Cabafume (1976).

   O Rapaz Doente é um conto que relata um episódio na vida de Júlio, rapaz da Praia, que se desloca a S. Vicente a fim de obter cura para a sua doença. Abordando retrospectivamente as condições quase esclavagistas a que os trabalhadores de S. Tomé (onde a personagem diz ter começado a sua doença) eram submetidos, o conto evolui para a solidão e abandono a que os doentes pobres acabavam por ser entregues.

   Uma narrativa centrada na tristeza, na impotência e na aceitação resignada e fatalista do destino. Um destino que parecia emsombrar toda a vida dos pobres em Cabo Verde.

 

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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Navios e Rotas da Empresa Nacional de Navegação, 1885-1905

Detalhe de um mapa de Angola publicado em 1955.

 

   A Empresa Nacional de Navegação, fundada no início da década de 1880 e antecessora da Companhia Nacional de Navegação (extinta pelo decreto-lei 138/85 de 3 de Maio, cujo termo de liquidação, após sucessivas prorrogações, foi fixado em 30 de Abril de 2001, pelo decreto-lei 119/2001 de 17 de Abril), explorou durante o final do século XIX e o princípio do século XX a rota a vapor da África Ocidental (Portuguesa).

   Entre 1885 e 1905, de acordo com os vários conhecimentos de embarque consultados, que obviamente representam apenas uma amostra do movimento portuário na época, a empresa utilizou, pelo menos, os seguintes navios – Ambaca, Angola, Benguela, Cabo Verde, Cazengo, Loanda, Portugal e S. Thomé.

   A rota destes navios a vapor estabelecia ligação entre Angola (partindo do sul, escalava os portos de Porto Alexandre [actual Tombua], Moçâmedes [actual Namibe], Benguela e Novo Redondo [actual Sumbe]), São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Portugal (Lisboa).

   Excepcionalmente, alguns destes navios efectuavam viagens não regulares para outros destinos, havendo notícia da chegada do vapor Loanda a Lourenço Marques, Moçambique, em 10 de Novembro de 1894, e da chegada do Cazengo dois dias depois. Estas viagens serviram para transportar tropas de Angola, que vieram reforçar as unidades moçambicanas durante o conflito que então se desenvolvia com os Vátuas. 

 

Recordação de Benguella - Ponte sobre o rio Catumbella. Postal do início do século XX.

 

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Quarta-feira, 7 de Março de 2007

Autógrafos - Manuel Lopes

Manuel Lopes, Chuva Braba (1956)

Capa do autor.

 

 

Manuel Lopes (1907-2005)

   Juntamente com o seu conterrâneo cabo-verdiano Baltasar Lopes da Silva (1907-1989), autor do aclamado romance Chiquinho, Manuel Lopes foi um dos fundadores da revista Claridade, em 1936. Revista de inspiração insular, mas também veículo de autonomização cultural e singular afirmação literária, foi um marco essencial da literatura cabo-verdiana da primeira metade do século XX.

   Manuel Lopes celebrizou-se, ainda, pela publicação desta novela (de acordo com a designação que ele próprio incluíu no volume) e pelos dois livros que se lhe seguiram - O Galo que Cantou na Baía (1959, contos) e Os Flagelados do Vento Leste (1960, romance), este último adaptado para o cinema em 1988. (ver http://www.imdb.com/title/tt0132161/.)

   Uma certa semelhança com o discurso neo-realista, nomeadamente o de Manuel da Fonseca (1911-1993) sobre as paisagens do Alentejo, evolui para uma descrição bem distinta e autónoma das paisagens e das gentes cabo-verdianas, no primeiro capítulo (II parte) de Chuva Braba, do qual se transcreve um breve excerto:

  

   "Porto Novo não tem montanhas. Ali há vento à solta, mar raso por aí fora franjado de carneirada. Há distância: um azul que navega e naufraga num mundo sem limite. Lá adiante fica S. Vicente, cinzento e roxo, roxo e cinzento, depois é só horizonte. O mar, quando cai a calma sobre o canal, desliza ora para o sul ora para o norte, consoante a direcção da corrente, como as águas dum rio que ora descessem para a foz ora remontassem da foz para a nascente.

   As árvores são torcidas e tenazes, têm a riqueza dramática das desgraças hereditárias ou das indomáveis perseveranças. Cheira a marisco que vem das praias de seixos rolados e areia negra. Cheira a poeira das ruas onde há bosta de mistura. Cheira a melaço e aguardente, a fazenda e a coiro dos armazéns. Cheira a maresia no vento que sopra sobre os telhados. Mas há água canalizada da Ribeira da Mesa, um chafariz público onde as alimárias bebem, uma horta exuberante no Peixinho e um jardim emaranhado e virgem à beira mar.

   Porto Novo é vila de futuro, dizem. Uma estrada paralela à praia corta-a ao meio; é a rua principal. No seu portinho aberto de mar picado balançam, quase sempre, um ou dois faluchos vindos de S. Vicente. O comércio progride. As lojas são providas de toda a sorte de bugigangas. Têm fazendas medidas a jardas, lenços de cores berrantes, mercearia, quinquilharias, têm espelhinhos, jóias artificiais, barros de Boa Vista para todos os usos, alfaias, panelas, caldeirões de ferro de três pés, têm tudo. A clientela é vasta, quase a terça parte da população dos campos da ilha cai ali. Trazem produtos agrícolas, trocam ou vendem, invadem as lojas. Deixam os nomes nos livros de conta-corrente; pagam prestações. Há empréstimos, dívidas, hipotecas, juros astronómicos. Fornecedores de frescos à navegação do Porto Grande, vendedores e vendedeiras do mercado de S. Vicente vão ali adquirir frutas, galinhas, ovos, hortaliças, por baixo preço. Contrabandistas de aguardente pululam. Até a hora da debandada das tropas de burricos, dos homens e mulheres de campo, ao meio-dia ou uma hora da tarde, a estrada enche-se movimento e gritos num vaivém de feira ambulante, canastras, frutas, lenha, gado. Os faluchos zarpam ajoujados. S. Vicente devora tudo, pede mais. Uma vela branca e oblíqua cruza com outra no  meio do canal. À tarde Porto Novo é uma vila morta."

 

Ilha de Santo Antão, Cabo Verde

Photo © youpidou 

 

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