Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

Transforma-se o Amador na Cousa Amada

 

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia; 
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

 

Luís de Camões (c. 1524-1580)

 

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publicado por blogdaruanove às 05:37
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A Tale of Two Palaces

O Palácio da Pena visto do Palácio da Regaleira, em Sintra

 

   O oriente era o centro daquele mundo. Um centro ctónico e vertical que perfurava as rochas, que percorria as grutas, que irrompia das profundidades. Congregava as águas e a terra. O que estava em cima era igual ao que estava em baixo. Os pedreiros estavam cansados, pensando que a tarefa nunca teria fim. No entanto, continuavam. "Truca, truca." O palácio crescia defronte de outro palácio. Pareciam diferentes, mas o que estava em baixo era igual ao que estava em cima. "Truca, truca, truca, truca." A água corria por entre árvores, arbustos e flores. As plantas abraçavam as esculturas dos jardins. As paredes iam crescendo. "Truca, truca." O monte parecia imenso, imutável, eterno. Mesmo quando o sol cedia perante a lua. Dia após dia, noite após noite. A tarefa parecia também eterna. Os pedreiros não paravam e o seu amor pela pedra parecia não ter fim. "Truca, truca, truca, truca." Uma poeira fina soltava-se da pedra, flutuando no ar. Um súbito raio de sol fez a poeira rebrilhar. Os pedreiros pararam, extasiados. A eternidade tranformou-se num momento. E assegura Luís Vaz que, naquele momento, o amador se transformou na coisa amada.

 

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Quinta-feira, 3 de Maio de 2007

Lianor

Photo © samipii
Descalça vai para a fonte

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões (c. 1524-1580)

 

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publicado por blogdaruanove às 17:53
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