Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Do Himalaia a Tóquio

 

   A novela Macau (cuja narrativa se desenrolará até 1940), sendo embora uma obra de ficção, inspira-se em registos de viagens efectuadas na segunda metade da década de 1930 pelo avô do autor e em muito do espólio oriental que se encontra na posse da família.

 

    

 

   Os livros cujas capas se reproduzem constituíram também uma inestimável fonte de informação sobre a época – Os Portugueses na China (1938), de Salvador Saboya (datas desconhecidas); China, País da Angústia: Kakemonos (1938), de Ruy Sant'elmo (pseudónimo, datas desconhecidas); Do Himalaia a Tóquio: Problemas do Extremo Oriente (1941), de Rodolfo Walter (datas desconhecidas),  e China de Ontem, China de Sempre (1948; embora publicado apenas neste ano, reflecte a vivência do autor na China durante a década de 1920), de L. Esteves Fernandes (datas desconhecidas), bem como o livro Visões da China (1933) de Jaime do Inso (1880-1967), cuja capa já foi reproduzida (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/117595.html).

   Como é óbvio, foi ainda fonte de inspiração para algum do imaginário da novela toda a obra de Wenceslau de Moraes (1854-1929), principalmente aquela que reflecte a sua experiência na China e em Macau.

 

(A novela continua em http://ilusoesurbanas.blogs.sapo.pt/9136.html)

 

 

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2007

Macau, 1936 (X)

 

   Debruçado, na amurada, deixava o olhar vaguear pela imensidão das águas. Uma imensidão agora marcada frequentemente pela linha montanhosa de inúmeras ilhas e ilhotas. Uma grande diferença da isolada vastidão do Índico, de que ele nem se apercebera. Os navios pareciam mais frequentes. Haviam-se cruzado já com o André Lebon, que fazia a ligação entre Marselha, a Indochina e o Japão. Lembrava-se ainda do que a imprensa europeia dissera do navio após o terramoto de 1923 e do auxílio que este prestara a Yokohama. Ao largo, muitas outras embarcações pontuavam o horizonte. Cargueiros, pequenos barcos de pesca, dezenas de  juncos.

   Assestava os binóculos e perscrutava pormenores. Um passatempo comum entre os passageiros. A princípio ficou surpreso com a maioria destes barcos – não traziam bandeira ou pavilhão. Disseram-lhe que isso era habitual na navegação costeira e que muitos eram barcos de comunidades piscatórias, que não reconheciam qualquer soberania. Alguns outros, barcos piratas, mesmo. Quando surgia alguma bandeira, e agora era quase sempre a mesma, desde que se aproximavam das costas da China, tentava descobrir a que país pertenceria  a embarcação. Ficou confuso quando viu uma bandeira ostentando as cores que recordava como sendo de Manchukuo. Estavam demasiado longe da Manchúria para que isso fosse provável. E nem mesmo a rota comercial e militar que os japoneses haviam estabelecido alguns anos antes, para apoiar a ocupação, passaria tão a sul. Recordou então que a bandeira da Manchúria tinha adoptado as cores da China de Sun Yat-Sen. O amarelo, representando os manchús, ocupava o fundo, a três quartos, e as quatro listas limitavam-se ao canto superior esquerdo. Esta bandeira tinha cinco listas, de igual largura, e a todo o comprimento. Era a antiga bandeira da China. Riu-se de si próprio e da sua patetice, ao ignorar o óbvio. A nova bandeira, vermelha e azul, havia sido adoptada apenas em 1928 e provavelmente alguns pescadores ainda achavam que a antiga era válida. Ou então achariam que as duas eram válidas... Algo assim como ter dois ou três nomes diferentes, mas todos válidos... Um velho hábito chinês. Recordou, divertido, a perplexidade que havia sentido quando era criança e surgira a nova bandeira da república. E recordou, ainda, sorrindo, a confusão que um famoso pintor americano fizera, anos mais tarde, quando comemorou a vitória dos aliados e colocou na mesma tela, quase lado a lado, as duas bandeiras portuguesas – a monárquica e a republicana...

   Voltou ao camarote. Decidira tomar algumas notas e registar impressões da viagem. Pegou na caneta de tinta permanente, desenroscando a tampa. Foi escrevendo, lentamente, "As velas destes pequenos juncos dos mares do sul da China..." A tinta verde dava uma tonalidade estranha à  letra cursiva que parecia adornar o papel. Escrevia as suas notas sempre a verde. Nos cadernos de viagem e no verso das fotografias. Todos lhe perguntavam o porquê daquela cor. Nunca soubera responder.

  

 

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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Macau, 1936 (VII)

 

   Ele voltara às leituras. Um mundo de sonho, só seu, onde era personagem de histórias que outros tinham sugerido. Lia agora um conjunto de pequenos textos sobre Macau, a China e o velho Wenceslau, publicado três anos antes. Demorou-se na leitura de uma página em particular... "O ópio de Macau tem fama, é muito apreciado, havendo um técnico especialmente encarregado de prová-lo antes de sair da fábrica. A operação de fumar o ópio é muito mais complicada do que a de fumar tabaco, pois que além de um cachimbo especial, requer ainda vários utensílios entre os quais figura a indispensável lamparina do ópio." Sorriu, imaginando o estado do técnico provador... Imaginou-se provador, imaginando Boubouka como preciosa gota leitosa de afyan... Caíu em si. Haviam-se passado semanas. Tinha que resolver a questão da sua passagem para Macau.

   Não se apercebera que tinham passado tantas semanas. Em breve, o Sibajak efectuaria nova viagem para o sudeste asiático. Não hesitou. Desistiu da passagem aérea. Revalidou a passagem no navio. Disse a Boubouka que partiria em breve. A resposta dela foi o mais triste dos sorrisos que ele havia visto. Ao fim da tarde, Boubouka desistiu de se conter. Era um olhar sussurrante, o seu. "Não me deixes..." pediu ela, sem quase mover os lábios. Ele olhou-a, como se nunca tivesse olhado para ela.  O espaço entre aqueles olhares era uma tristeza imensa. "Nunca te deixarei", prometeu ele. Tremia, quando o disse. Tremiam os dois quando se abraçaram.

   Ele compreendera que nunca mais amaria ninguém como amava Boubouka. Os dias tornaram-se numa longa e insuportável angústia. As noites passaram a ser contínuos pesadelos, em que um monstruoso Sibajak o engolia a ele, Jonas.

 

 

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