Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Navio Vera Cruz

O paquete Vera Cruz, ilustração de Gordon Ellis (1921-1979).

 

   “E o tropa, mandado às urtigas como se sarna tivesse, por aqueles a quem defendia o rabiosque e a propriedade, criava o seu clã: os tropa. E ficava tudo em família, era mesmo uma festa, uma alarvice sem propósito, maneiras rascas, coisas primitivas de quem nasceu nas berças, desceu a Lisboa ainda de cueiros, vestiram-lhe uma farda e só viu o mar, pela primeira vez, a bordo do “Vera Cruz”, navio negreiro. E era uma coisa alegre e rude, aquele caminhar sem jeito pelas ruas da baixa [de Luanda], os gritos, as vozes estridentes, a gargalhada por tudo e coisa nenhuma que provocavam a repulsa constrangida dos brancos e a adesão dos pretos miseráveis que se amontoavam, com as suas caixas de graxa, nas praças e esplanadas. Só as “bichas” nos sorriam, nos davam atenção, estendiam a ponte entre nós e a cidade alheia. Por interesse, claro. Pagavam-nos os finos, convidavam-nos para jantar, levavam-nos às boîtes da ilha ver os travestis: aplanavam terreno, os sabidos.”

 

in Os Navios Negreiros Não Sobem o Cuando (1993), de Domingos Lobo.

 

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Autógrafos - Domingos Lobo

 

Domingos Lobo (datas desconhecidas), Os Navios Negreiros não Sobem o Cuando (1993).

 

 

   Jornalista e dramaturgo, Domingos Lobo iniciou o seu percurso de romancista com a presente obra. Havia até então elaborado as peças Pensa Enquanto Tens Cabeça (1978), Vida e Morte de um Português Mal-Comportado (1980), representadas pelo grupo de teatro  A Comuna, Veneno, difundida pela RDP1, e Um Violino na Lama (1992), peça sobre a vida e obra do escritor José Gomes Ferreira (1900-1985).

   Um extraordinário relato da vivência militar em África durante o final da década de 1960, Os navios Negreiros não Sobem o Cuando, combina de forma particularmente interessante uma evocação subtil e erudita de Eros e Thanatos com a frontalidade brutal das misérias e do quotidiano do conflito colonial em Angola. Uma obra que merece certamente ser recuperada do esquecimento em que se encontra, que merece ser reeditada e merece entrar nos grandes circuitos comerciais.

   Deste romance transcrevem-se três parágrafos:

 

   "Estou-me borrifando prà morte, pá, dissera o Barão uma noite, a poesia e a música é que me hão-de salvar deste atoleiro. O Barão era o animador privativo das nossas noites de cerveja e petisco. O Barão cantava e nós imaginávamos Trindades  na mata, com o Eusébio a mandar vir marisco, o Baptista-Bastos à conversa com o Manuel da Fonseca, o Diniz Machado com o Molero entre portas, o João Gaspar Simões a dizer que os "Cem Anos de Solidão" era uma trampa de romance, e que mais tarde ou mais cedo isto virava tudo em em Garcias e Marquez e pouca vergonha – e outras amoráveis visões quejandas. E uma cervejinha agora, mesmo à temperatura ambiente, até vinha a calhar.

   Transpirávamos, os poros dilatavam-se e um óleo espesso, nauseante, escorria pela pele, doía nas axilas e nas virilhas, fervíamos por dentro a todo o  vapor como as panelas de pressão na messe: íamos rebentar. O Belezas tremia rezando à deusa Walther cada vez mais perdida e insignificante na cratera das mãos papudas, o Santos limpava o suor que lhe limpava os olhos vermelhuscos, assustados, com um lencinho que sua mãe lhe ofertou quando ele, menino obediente e respeitador, fez a primeira comunhão. O Branco estava pálido, blasfemava: se esta merda não acaba já fodo os macacos todos; desabafou – eu numa lástima como se imagina pelas amostras juntas. O Barão, que limpava, sereno e absorto, as unhas com a faca de mato, levantou-se ligeiro, foi à trouxa, tirou a viola do saco e começou a trautear alto e bom som o "A Little Help From My Friends". Primeiro moderato pianíssimo, après cantabile, pui forte, allegro, por aí fora numa salganhada de sons desavindos e inglês de doca, o pessoal atónito chiu, cala-te merda e o Barão na sua Lend me Your ears and I'll sing you a song, And I'llytry not ro sing out of key [sic]. I get high with a little help from my friends, o Belezas estupefacto com o insólito isto é de mais, vão matar-nos a todos, fecha a fossa bitle de merda, o Barão caprichando nos compassos, arrebatado no despropósito Do you need anybody, I need somebody to love. Could it be anybody I want somebody to love. A malta, pouco a pouco aconchegada à melodia, foi-se adaptando àquele disparate, entrando a a arranhar o refrão, trauteando a medo e o Barão, dominador, pedia coro, força malta, Yes I get by with a little help from my friends, vá, malta, outra vez com mais força encham os pulmões carago What do you see when you turn out the light, I can't tell you, but I know it's mine, força nessas goelas para os gajos não pensarem que estamos todos borrados. Oh I get by with a little help from my friends, Do you need anybody, I just need somebody to love, quem está borrado?, ninguém gritava o coro da berliet, ninguém, with a little help from my friends, ninguém gritava [sic] de pulmões acesos os mais afoitos, os outros, num inglês príncipe-de-gales a metro da Rua dos fanqueiros, perdidos em sustenidos e bemóis, refraoavam o que a garganta dava: Oh I get by with a little help from my friends, era lindo de ver, no assustar da passarada, no espantar dos répteis, no exorcisar dos fantasmas e dos medos. esconjuravam em coro tenebroso, aos ares da mata da Kapua, os assombros e a fúria, a vida toda exposta num grito de socorro.

   Ao longe avistava-se já o fim da mata, uma claridade frouxa ao fundo da picada, o começo de deserto, o fim do pesadelo. O dia começava a despontar em fios de ovos no alto dos embondeiros."

 

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publicado por blogdaruanove às 13:35
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