Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Macau, 1937 (I)

 

   "Logo à entrada ouve-se o canto do grilo...". Confúcio. Ocorreram-lhe estas palavras de uma canção de ano novo quando caminhava entre a multidão. Nan-ning!, Nan-ning!, diziam as pessoas, alvoroçadamente, nas ruas. Nan-ning!, Nan-ning!, diriam, certamente, centenas, milhares, milhões de pessoas, em Macau e na China, à chegada do novo ano.

   Uma miríade de pequenos papéis, ondulando na brisa da manhã, transformava os desenhos dos búfalos num filme de Walt Disney, anunciando o novo ano. Manadas de búfalos, isolados e silenciosos, moviam-se desordenadamente entre as pontas retorcidas dos quadradinhos de papel, que mostravam o outro lado sempre que a aragem soprava com mais força. Desenhos esbatidos de búfalos, páginas onde os traços mal se viam, páginas quase em branco. Um memorando para as subtilezas e adversidades que poderiam surgir ao longo do ano.

   Aquele dia surpreendia-o. Sabia de antemão que era o mais sagrado dos dias para os chineses, mas nunca esperara assistir a tamanha mudança, em Macau. As portas das lojas, que pareciam eternamente abertas, encontravam-se agora todas encerradas. As pessoas, que já se acotovelavam frequentemente durante os outros dias, pareciam agora constituir um vasto campo de arroz, de hastes unas e flexíveis, ondulando ao vento. Não parecia haver espaço entre elas, ocupando as principais ruas da cidade velha. Todos os rostos sorriam, como se nunca tivessem tido outras expressões.

   Entre a cortina ondulante de rostos e sorrisos, entre a multidão, vislumbrou um rosto mais sorridente que os outros. Lembrava uma lua cheia de Janeiro, brilhando mais que a mais brilhante das estrelas. Uma lua cheia adornada de sedosas faixas de um negro inacreditável. Uma lua aromática, de cheiros inebriantes. Uma combinação quase impossível. Sândalo, jasmim, laranjeira. O seu luar perfumado encurtava distâncias, sobrepondo-se a todos os outros aromas, fazendo-o esquecer tudo o resto.

   Era Liang, que caminhava de rosto levantado, olhando para ele e sorrindo. Sorrindo sempre.

  

Brinco de Leão (Seng Si ou Mou Si). Macau, cerca de 1937.

 

 

(Continua em http://ilusoesurbanas.blogs.sapo.pt/9136.html)

 

 

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Macau, 1936 (XXXIII)

 

   Nunca entendera muito bem aqueles súbitos impulsos para deambular pelas ruas e comprar objectos de que não necessitava verdadeiramente. Alguns amigos achavam que era apenas uma maneira de compensar a solidão, o vazio da vida. Não compreendiam que os impulsos passavam também pela sua necessidade de encontrar continuamente coisas novas, de descobrir diferentes mundos. Pequenos mundos que encerravam sempre surpresas e satisfaziam a sua vontade de se sentir incompleto, desejoso de uma busca contínua, interminável.  

     Era já lusco-fusco quando saíra da loja. Lusco-fusco. Quão esquisita lhe pareceu aquela palavra depois de passar meses a ouvir outras línguas. Aquela, como muitas outras palavras. O Português parecia-lhe já uma língua alheia, onde descobria sonoridades inesperadas, tropeçando em palavras que nunca julgara poderem soar de maneira tão estranha.

   Só então se apercebeu que falara muito pouco desde que chegara  a Macau. De Português, apenas o indispensável para manter o protocolo com os serviços. Falava cordialmente, sugerindo uma afabilidade de trato que escondia a sua aversão pela burocracia e pelas reuniões sociais. Nessas ocasiões sorria, também. Sorria mais para que o deixassem sozinho consigo mesmo e com a sua liberdade do que para evitar que pensassem nele como um pária esquisito e intratável. De Cantonês ou Mandarim apenas aquilo que as circunstâncias exigiam, gesticulando mais do que falando. Sorriu para si mesmo, quando aquele pensamento lhe ocorreu... A gesticulação acabava por ser extremamente útil. Era também uma das linguagens favoritas de muitos chineses.

    Nas ruas a agitação aparentava ser maior do que a habitual. Preparava-se a tradicional inumação das efígies de Tsao Wang, o Deus da Cozinha. À meia-noite cumprir-se-ia o ritual. Cheiros espessos, adocicados e quase enjoativos, cercavam todos os ruídos de cada edifício, envolvendo-os, enovelando-os, deixando-os como pegajosas nuvens de algodão em rama. Andar por andar, janela por janela, pessoa por pessoa, palavra por palavra, até que quase nada se conseguisse dizer. Assim o exigia a tradição. Doces bolos de mel. Era o aroma dos doces que se preparavam em honra de Tsao Wang, para que nos céus não falasse demasiado mal da família que o acolhera durante um ano. Dez dias, apenas. Faltava muito pouco para que chegasse o seu primeiro ano novo chinês.

 

  

Macau, cerca de 1936.

 

 

 

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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Macau, 1936 (XXXII)

 

   Entrara pela primeira vez na loja de Veng Seng Long algumas semanas antes, num fim de tarde de nuvens baixas e chuva inesperada. Lembrara-lhe logo os bazares do souk do Caïro, onde costumava ir sem Boubouka para se poder perder sozinho nas imagens, nos sons e nos aromas. Acima de tudo, gostava de se perder no tempo. Perdendo-se no tempo, perdia-se a si próprio, perdia a solidão.
   Talvez fosse esse o sentimento que então o levara àquela loja. Um desafio ao tempo, mas também um desafio aos seus avatares. Ainda se lembrava das imagens que havia pouco tempo o tinham atormentado durante a noite, no hotel.
   Esta loja era muito diferente da de Tchang. Não que fosse muito mais iluminada, mas alguma da soturnidade misteriosa que envolvia os recantos do pequeno estabelecimento de Tchang desaparecia aqui perante o brilho dos metais e os relevos das estatuetas. Aqui, exaltava-se a beleza dos objectos, disfarçando muitas vezes a sua inutilidade com os detalhes da harmonia e da elegância do corte ou do desenho. Lá, desdenhava-se o supérfluo, fazendo-se o elogio singelo dos simples botões que mantinham a decência, ou antecipadamente sugeriam o seu desaparecimento em momentos mais íntimos.
   O mistério, aqui, perpassava entre o fulgor dos bronzes polidos e o brilho, suave, tangível, do castanho-alaranjado dos cobres, pairando sobre o salão principal. Sob esta claridade misteriosa, ali e além, pequenas estátuas de metal e madeiras aromáticas pontuavam aqueles brilhos, como faróis que mantivessem a noção de terra firme. A casa era célebre pelo seu bronze decorado e pelo acabamento perfeito das peças. Não sendo uma loja de luxo, mantinha uma invejada aura de prestígio. Dizia-se que a própria família do comendador Lu-Lim-Ioc, um dos grandes senhores de Macau e Cantão, falecido havia quase dez anos mas ainda largamente lembrado e venerado, costumava abastecer-se no estabelecimento.
   Depois de algumas deambulações lentas, escolheu um conjunto de travessas cinzeladas com motivos vegetais e inscrições alusivas à sorte e à felicidade. Na hora de pagar recordou a conversa que tivera na visita anterior, quando perguntara se eventualmente também venderiam peças antigas. Dissera-lhe o dono que para antiguidades seria melhor procurar em Hong-Kong. Os ingleses tinham hábitos de colecção mais arreigados que os portugueses e em Hong-Kong havia inclusive uma casa de antiguidades que fornecia os grandes coleccionadores da Europa e da América – a casa Komor & Komor, na Ice House Street.
   Sorrira. A casa Komor & Komor… Provavelmente não teria dinheiro nem para comprar a mais insignificante das peças que ali estaria à venda. Mas agora que a sua viagem às ilhas e a Hong-Kong se tornava imperiosa e cada vez mais inadiável havia recordado o casal japonês do Sibajak. Sempre poderia visitar a Komor & Komor e depois adquirir alguma peça na loja dos seus antigos companheiros de viagem.


Macau, cerca de 1936.

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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Macau, 1936 (XXXI)


 

   Aquela agitação natalícia toda, mais interior e nostálgica do que exterior, uma agitação nunca experimentada no ambiente de Macau, levou-o novamente à loja de Veng Seng Long.

   Recordava as horas, infindáveis, que passara no sótão da casa dos avós, remexendo em antigos baús e peças de mobiliário, maravilhando-se com a mínima descoberta, por insignificante que fosse. Um vidro inútil, manchado e esquecido, uma ferramenta abandonada a um canto, um velho jornal com notícias do século passado.

   Certo dia encontrara um embrulho de papel amarelado, quase escondido junto ao forro inclinado do tecto. Ansioso, a tremer, desembrulhara-o, acabando por descobrir uma imagem, em madeira, de Cristo na cruz. Sem braços. Sem cruz. Tocara-lhe levemente com as mãos nuas, impuras da sujidade, sentindo um leve tremor quando passara os dedos pelos joelhos ensanguentados da imagem. O caminho do Calvário...

    Lembrava-se de ter pensado nisso, naquele momento. Perguntara-se se também viria a ter um calvário, como todos diziam. Todos nós haveríamos de ter um calvário, certamente. "Todos temos de carregar a nossa cruz...", diziam as velhas da sua meninice à porta da igreja, encolhendo vagarosamente os ombros sob os xailes negros. Acompanhavam o gesto com um leve inclinar de cabeça e um lento franzir de testa. Os suspiros conformados vinham depois, perdendo-se na aragem do fim da tarde.

   Quando começara a viajar sempre se interrogara, inquieto, sobre tal calvário, procurando adivinhar se aquele desterro voluntário significaria o início do seu calvário. Calvário... As pessoas nunca pensavam nisso, provavelmente, mas o calvário era a solidão. A solidão que Jesus sofrera na via sacra era o verdadeiro calvário. Abandonado por tudo e por todos. Até por Deus. Até por si próprio.

   E assim, para vencer o seu calvário, entrara naquele bazar de maravilhas que era a loja de Veng Seng Long. Teria a ilusão de estar acompanhado e a felicidade de se perder entre o cálido brilho dos metais, procurando iluminar a memória de um sótão condenado às trevas quase desde a infância.



Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Macau, 1936 (XXX)

Macau, cerca de 1936.

 

   Sempre tinha sido assim, em todas as outras cidades. Acabara por morar nas zonas que mais o tinham atraído logo de início. Sem qualquer surpresa. Sem que fizesse qualquer esforço nesse sentido. Tudo fluíra naturalmente. Tinha sido assim em Angola. Era assim agora, em Macau.

   A agitação natalícia da comunidade portuguesa levou-o a pensar um pouco mais na família, pela primeira vez em muitos meses. Estranhamente, não sentia saudades. Sentia apenas nostalgia dos rituais de Natal, da infância junto dos pais e avós. Sentia nostalgia de si mesmo, num outro tempo.

   Casara, tivera filhos, mas o seu sentimento de família era algo vago, sustentado mais pela memória da infância e dos antepassados do que pela realidade familiar que ele próprio gerara.

   Era-lhe mesmo indiferente a solidão em que viveria aquele Natal. Alimentava-se das memórias e dos aromas do passado. O frio das longas e silenciosas noites de inverno. A brancura das manhãs cobertas de geada. O calor da lareira. O bacalhau e os fritos da consoada. A missa do galo, quando já era mais crescido. A alegria do almoço de Natal. As rabanadas. Os sonhos. A aletria debruada a canela.

   Uma aletria que viera redescobrir nas variedades, doces e salgadas, das massas chinesas. Massas que o surpreenderam e maravilharam, como quando descobrira a gelatinosa e transparente massa de arroz. Uma canela cujos sabores e aromas viera reencontrar, mais acentuados, numa infinidade de pratos que complementavam a estranha sonoridade  do nome de uma outra canela, especial. Em grandes pedaços de casca, em pau, em pó – kuei hua... A canela do estreito de Macassar.

   Seria aquele o seu Natal. Seriam aquelas memórias e aquelas descobertas a sua família. Seria ele próprio Pai Natal e criança deslumbrada pelas luzes feéricas das ruas e das montras.

   Para atenuar qualquer sentimento de distância e afastar quaisquer remorsos familiares, decidiu enviar um postal de boas-festas para Portugal. Chegaria certamente muito depois da passagem de ano.

 

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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

Macau, 1936 (XXIX)

Macau, cerca de 1936.

   

   Poucos dias depois, sem qualquer surpresa, acabou por encontrar uma casa que lhe agradava. Ficava num segundo andar. As janelas estavam providas de grandes portadas, que coavam diagonalmente a entrada da luz , por entre pequenas tiras de madeira.

   Gelosias. Sentira uma satisfação inexplicável quando a palavra lhe ocorrera. Gostava dela e do que a sua origem sugeria. Ciúmes. Pequenas barreiras que procuravam manter o ciúme e a inveja ao longe, resguardando a privacidade do lar.

   As gelosias das varandas apresentavam um corte a meia altura. Deixavam abrir apenas a parte de cima, guardando ainda alguns segredos da casa, ou então apenas a parte de baixo, quando o sol estava no zénite, conservando sombra e frescura no quarto e nas salas. Das varandas via-se uma nesga de mar, as casas apinhadas do bairro e da cidade e a agitação das ruas. Principalmente a agitação da Rua de S. Domingos.

   No prédio, a vizinhança não lhe pareceu muito barulhenta. Confirmou as condições do contrato com o homem que lhe mostrara a casa, por indicação de um dos empregados do Central. Havia abordado alguns funcionários para esse efeito, pouco depois de se registar no hotel. Não quisera envolver os seus serviços nestes assuntos. O seu sentido de privacidade passava por essa atitude discreta. Depois de verificar todos os pormenores, alugou a casa.

   Dirigiu-se depois para a loja da carpintaria Iu-Seng e C.ª. Viu várias mobílias torneadas e esculpidas ao gosto oriental. Decidiu-se por mobiliário de formas mais sóbrias e geométricas.  Para o quarto, uma cama à francesa. Mais baixa e mais estreita, de corpo e meio. Mobiliário à francesa. Eram conhecidas assim, em Portugal, as peças que apresentavam linhas mais modernas, muito diferentes da mobília pesada, com decoração setecentista, que ainda predominava no gosto da aristocracia e das classes altas. Achou graça à ironia da escolha. Estava a ser bastante conservador por não ceder à decoração oriental e demasiado moderno por contrariar o gosto português... Hesitou em relação ao toucador. O psiché. Uma casa mobilada por um homem deveria apresentar uma peça tão feminina? Decidiu assumir a ousadia do gosto francês e incluir o toucador.

   Deu ordens para que entregassem tudo apenas algumas semanas mais tarde. Embora estivesse no oriente, a época de Natal e Ano Novo era uma época de agitação entre alguns macaenses e os macaístas comportavam-se como se estivessem a celebrar a quadra em Portugal.

   Poderia mudar-se em meados de Fevereiro, no início do novo ano chinês. O ano do búfalo.

 

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Macau, 1936 (XXVIII)

 

   Tinha passado aquela noite rodeado de sorrisos, perdido no tempo. O sorriso do daymio confundia-se agora com centenas de outros sorrisos. Minúsculos sorrisos talhados em  tiras de marfim, soltando-se de figuras em madeira. Sorrisos de sorridentes budas espapaçados e de longilíneos monges, também sorridentes. Esculturas que vira na loja de Veng Seng Long. Os sorrisos iam-se transformando numa brilhante poalha de luar saindo da alva e fresca face  de Liang. E do rosto de Liang saía o doce sorriso de Boubouka.

   O sorriso alargava-se, ganhando sonoridades estranhas, assustadoras. Caíam-lhe em cima as bocas, as gargantas e os gritos dos suicidas que se lançavam do terraço do hotel. Ele, então, acordava. Afogado em gritos. O peito arfando, o pijama encharcado.

   Levantava-se e ia até à janela, certificar-se que ninguém se tinha estatelado na rua, que nenhum cadáver misturava o seu sangue com a humidade do chão. Estremecendo, via então longos traços vermelhos que se estendiam entre o pavimento do passeio e a terra molhada da rua. Ao fim de alguns momentos angustiantes, percebia que eram apenas reflexos das luzes de néon, tremeluzindo com mais regularidade do que o pulsar do seu coração. 

   Retirava impacientemente o pano que tapava o copo e garrafa na mesinha de cabeceira e bebia um enorme copo de água. De um só trago. Fazia aquilo como teria feito outra coisa qualquer. Fumar um cigarro sem se aperceber do sabor do tabaco. Tomar um comprimido, apercebendo-se depois que havia tomado três ou quatro. Fizera aquilo sem se aperceber do que fizera. Era apenas um gesto. Um gesto para exorcizar o que não compreendia.

   Permanecera acordado até de manhã, adormecendo apenas ao som dos comerciantes, dos animais e dos fregueses que vinham para o mercado.

   Levantou-se a meio da tarde, decidido a encontrar casa ainda durante aquela semana. Afinal a estadia no hotel não lhe trazia mais informações do que aquelas que poderia encontrar nas ruas ou através de contactos bem relacionados.

   Além disso, não poderia adiar por muito mais tempo a viagem até às ilhas.

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Blueish Grains of Green

 

   Lentamente, as nuvens rodearam a montanha. Ameaçadoras, juntaram-se, tornando-se numa só. Perdendo a claridade, toda a luz se tornou baça. Os contornos do horizonte esbateram-se. A serra do Brunheiro transformou-se num manto de escuridão. Um manto de escuridão entretecido num negro monte de nuvens.

   A chuva, pesada e sonora, começou a cair, cobrindo árvores e arbustos. Velhos carvalhos e olmos, dobrando os ramos, levavam a água a cair em movimentos graciosos. Por pouco tempo. As grossas gotas de água pareciam ondas de um mar tormentoso rebentando sobre a floresta. As copas largas dos castanheiros centenários criavam um santuário que parecia afastar a violência daquela torrente interminável.

   Sob a vasta copa de um velho castanheiro, pequenos blocos de granito resistiam a uma água que parecia querer diluir as rochas como se fossem frágeis pedras de sal. No tronco, viradas a norte, manchas aveludadas de musgo mostravam a irregularidade do seu recorte, por entre matizes de castanho e verde. No chão, folhas douradas, ainda ressequidas, tentando resistir, desfaziam-se ruidosamente sob o embate da água. Tudo parecia sucumbir àquela sombra imensa e aquosa.

   E de repente, num instante mágico sugerindo a eternidade, um pequeno raio de sol perfurou aquele céu basáltico, reflectindo-se na mica e no granito, iluminando o  tronco virado a norte. Naquele instante, na brevidade daquele instante preciso e eterno, suavemente depositadas no musgo, as gotículas de humidade rebrilharam. Rebrilharam como jamais voltariam a rebrilhar.

   Sentindo a rugosidade do granito no umbral da porta do casebre, o velho aspirou a humidade do ar. Voltando as costas à chuva, fechou a porta atrás de si, tacteando o caminho de volta para junto da lareira. À luz do fogo, os seus olhos, afundados nas órbitas e perdidos nas pálpebras, pareciam sorrir.

   Ainda lhe restava a imaginação.

     

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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Macau, 1936 (XXVII)

 

   A metáfora da caixa continuou a persegui-lo até ao hotel. Já no quarto, desapertou a pequena bolsa aveludada do netsuke que adquirira ao casal japonês. Até o daymio, sorridente, trazia entre as mãos uma caixa. Fechada, claro. 

   Segurando na pequena escultura, deixou deslizar distraidamente os dedos pelas curvas da madeira polida. A caixa e a espada impediam-no de rodar continuamente a figurinha entre os seus dedos da mão direita, como desejava. Um desejo que o surpreendeu. Pensou nos gestos instintivos de quem rodava as contas de um rosário. Lembrou-se das ave-marias e pai-nossos que as beatas idosas repetiam diariamente na matriz da sua cidadezinha natal. Rostos quase esfumados na penumbra do templo, de bocas enrugadas e envelhecidas. Mãos artríticas tremendo lentamente. Movendo os lábios como autómatos, aquelas figuras espectrais, negras, ciciavam orações que pareciam intermináveis lenga-lengas mágicas, girando vezes sem conta as esferas dos rosários.

   Rosários que mais tarde se voltaram a recortar contra a ofuscante brancura da cal mediterrânica e se multiplicaram pelo oceano fora. Em Port Saïd, o velho muçulmano segurando as contas numa mão e tapando o rosto para a fotografia com a outra. No Caïro, as contas de um colar de marfim no colo macio de Boubouka. Depois da neblina do Índico, já em Macau, a serena imagem de um sacerdote budista sobressaindo das nuvens de incenso. As mãos, quase imóveis, segurando delicadamente um rosário.

   A caixa e a espada. As esferas. Todos estes elementos lhe pareceram constituir símbolos de um quebra-cabeças que tinha de resolver. Não conseguia, contudo, compreender onde isso o levaria. Desistiu destas reflexões e aproximou-se da janela.

   Olhando para a avenida Almeida Ribeiro, notou o contínuo movimento dos transeuntes em direcção ao hotel. Quando chegara a Macau, vendo o movimento na rua, pensara que o mercado de S. Domingos, ali ao lado, tinha mercadores como nenhum outro. Só depois percebera que a maioria eram clientes do hotel. Clientes mais do que hóspedes, pois vinham assistir aos famosos espectáculos do Club Hou Heng, no sexto andar, ou arriscar a fortuna e a vida ao jogo. O elevador, o primeiro de Macau, inaugurado em 1928, ainda o hotel  era o President, havia sido já uma metáfora dos altos e baixos do jogo, mas agora, com as constantes avarias, o trocadilho passara para a altura do edifício, com as entradas pela portaria e as saídas pelo telhado. A tradicional discrição dos suicídios silenciosos e privados, por envenenamento, cedia, ocasionalmente, à vertigem do terraço que proporcionava uma última visão de Macau.

   Sentiu-se subitamente entediado com aquela vida impessoal no hotel e achou que deveria começar, finalmente, a procurar casa. Além disso, tinha de visitar as ilhas e Hong-Kong. E não o queria fazer sem antes ter arranjado um espaço seu, onde pudesse acumular depois as memórias dessas visitas e dessas viagens.

 

Macau, cerca de 1936.

 

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Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Azul

 

   Memórias forradas a azul. Um azul de ardósia recortada em pequenas ogivas arrefecidas pelo crepúsculo. Os dedos vagueando pela pedra, tacteando, procurando fragmentos de memórias perdidas. Os olhos, estranhando a perspectiva, fechados. A boca, emudecida pela vastidão do silêncio, fechada também. As veias palpitando ainda nos pulsos, abertos. O coração, exangue, perdido na eterna solidão da noite.

 

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