Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

 

Eduardo Teófilo (1923-1980), Cacimbo em Angola (1966).

 

    Tal como aconteceu com muitos dos autores que nasceram na então metrópole, e posteriormente se deslocaram para África, Eduardo Teófilo iniciou a sua carreira literária com textos cujas temáticas reflectiam essas origens.

   Sendo essencialmente poeta e ficcionista, o autor começou, contudo, por publicar um conjunto de crónicas sob o título Alentejo não tem Sombra (1954), a que se seguiu o volume de poemas Vida ou Pecado (1955). Já em Angola, onde chegara em 1954, Eduardo Teófilo lançou o seu primeiro volume de contos, Estrelas da Noite Escura (1958), sob a égide das Publicações Imbondeiro, que aliás editaram posteriormente os seus contos Tempestade (1960) e O Regresso do Emigrante (1961). O autor publicara entretanto a colectânea de contos Quando o Dia Chegar (1962), que recebera o prémio Fialho de Almeida, concluindo a sua produção como contista com o volume Contos Velhos (1971). A sua produção poética veio a incluir ainda Primeiro Livro de Horas (1964).

   Apesar da longa estadia em África (1954-1975), Eduardo Teófilo não reproduziu exclusivamente essa experiência na maior parte da sua obra escrita no continente africano. Cacimbo em Angola, um conjunto de "notas, contos, crónicas e narrativas" de acordo com a classificação do próprio autor, surge com um livro de conteúdo obviamente heterogéneo. Aí se publicam contos dos anos 50 e republicam narrativas de anos posteriores, entretanto saídas nas publicações Imbondeiro. Aí surgem também informações e reflexões importantes sobre a colecção Imbondeiro, os seus dinamizadores, Garibaldino de Andrade (1914-1970) e Leonel Cosme (n. 1934), e as vicissitudes que entretanto afectaram a editora. Aí surgem, finalmente, extraordinárias e inesperadas considerações, como aquelas que encontramos na "nota" Missão Sagrada – "Já quase deixei de ler jornais, quer nossos quer dos outros. A Rádio, já a não escuto. (...) E são páginas exaltadas dos nacionalismos de uns, cheirando a neo-fascismo odiento, ou frases empoladas de um marxismo ortodoxo, ultrapassadas e que já não convencem, palavras que mais cavam os abismos fundos, abertos, a dividir os homens, que mais acendem ódios, em lugar de unir e empolgar."

 

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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Autógrafos - Garibaldino de Andrade

 

Garibaldino de Andrade (1914-1970), Sete Espigas Vazias (c. 1955).

Ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957)

 

 

   Garibaldino de Andrade (1914-1970).

   Tendo escrito na década de 1940 os livros de contos Vila Branca (1944) e O Sol e a Nuvem (1949), obras que traduzem a sua vivência do Alentejo e se aproximam do Neo-Realismo, Garibaldino de Andrade deslocou-se na década de 1950 para África.

   Aí, em conjunto com Leonel Cosme (n. 1934), fundou e dirigiu, a partir de Angola, a famosa colecção Imbondeiro, que promoveu durante duas décadas a diversidade da literatura africana de expressão portuguesa.

   Do livro Sete Espigas Vazias, um grande romance sobre o Alentejo, um romance injustamente esquecido de um autor injustamente esquecido, transcrevem-se três parágrafos:

 

   "Desde a guerra de Espanha que Joaquim atravessava a fronteira. Era a hora dos negócios pingues. Nas feiras, os marchantes não tinham mãos a medir. Lavradores de carteira farta compravam gado a olhos fechados. Terras que deviam andar a pão, ficavam para pastos. De noite, horas mortas, os cascos entrapados, os animais transpunham a linha convencional que separa os dois países. Ali, vendiam-se maços de cigarros e pães de trigo duvidoso por um punhado de pesetas. Homens famintos, olhos ardendo em febre, atravessavam o Chança e o Guadiana e metiam-se às estradas, esmolando e roubando. Vilas quietas, adormecidas na planície, foram invadidas por chusmas de engraxadores e vendilhões de tuta e meia. Mulheres e raparigas, algumas quase crianças, entregavam-se a quem lhes enganasse a fome. Contrabandistas, pela calada da noite, pelo pinto do meio-dia, a toda a hora, rindo-se dos guardas-fiscais e iludindo os carabineiros, carreavam víveres, roupas, tralha de toda a espécie. Às vezes soavam tiros e caíam homens mortos. Mas isso não importava. Nos caminhos sinuosos ao longo da raia, agitava-se uma humanidade inquieta, que perdera a fé, a lei e a esperança, que é o rumo do futuro."

 

  

 

   "O velho Nogueira vendera a Filada e Vila Branca estava morrendo. Deitando cálculos à vida, Antoninho da Loja viu as estantes desguarnecidas e o livro das contas cheio de cães de todas as raças... Que ia ser dele, da mulher e do filho? A loja era a sua enxada. Cerradas as portas, de que se iam governar? Matutando nisto, fugira-lhe o sono. Errava pelos cantos, aos suspiros fundos, escondendo dos seus a realidade triste. Uma vez, não pôde mais. Aproximava-se o prazo da reforma de uma letra: quinze dias para desencantar três contos. Onde?, onde? todos os caminhos bloqueados: os que lhe deviam, não pagavam; os que tinham dinheiro, chamavam-lhe seu; e, na gaveta, outrora próspera, apenas o chocalho e um punhado de moedas...

   Desabou sobre o caixote das sonecas, e, numa crise de choro, ali o fora surpreender o filho. Aos brados deste, acudira a mãe. Naquela hora de desânimo, Antoninho da Loja contou-lhes o engano em que viviam. Por três contos, não seriam mais donos de coisa nenhuma: levariam o balcão, as estantes, os míseros trapos que ainda as enfeitavam..."

 

 

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