Quarta-feira, 18 de Abril de 2007

Autógrafos - António de Sousa

António de Sousa (1898-1981)

Ilha Deserta (1954)

Capa e desenhos de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957)

 

 

 

António de Sousa (1898-1981)

   Membro do grupo Presença, António de Sousa colaborou também em revistas como Seara Nova e Vértice. Embora alguma da sua obra se possa inserir no neo-realismo, pela sua poesia perpassa frequentemente o desalento perante o quotidiano, combinando-se com sentimentos de melancolia e desencanto. Uma perspectiva que valoriza muito mais a experiência individual e o aproxima profundamente do movimento presencista.

   Do volume Ilha Deserta, transcrevem-se dois poemas:

  

Carne

Tinham fome um do outro.

Sobre o leito, no escuro, morderam-se como feras.

(Ela tinha as ancas fortes e os seios pequenos;

ele era ágil como convém.)

Depois, nus e calados, esperaram a manhã.

E uma dor inútil beijava-os dos pés à cabeça.

 

 

A Velha Sala

A velha sala sonolenta

cheira a  bordado a missanga,

a flores mortas, a tristeza, a pó.

Cheira a silêncio inútil

e amareladas pontas de cigarros

só fumados até meio.

A traça roi, nas estantes,

livros que já ninguém lê,

livros que ninguém leu até ao fim.

Do piano, se o tocassem,

a música sairia com bolor!

Da velha sala sonolenta

vem qualquer coisa que dá pena

e vontade de fugir!

Oh, a minha alma cheia de saudades!

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 16:27
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2007

Autógrafos - Romeu Correia

 

Romeu Correia (1917-1996), Calamento (1950)

Capa de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957)

 

 

Romeu Correia (1917-1996).

   Romeu Correia, praticante de atletismo e boxe, destacou-se na literatura como autor dramático e prosador com temáticas que o aproximam do neo-realismo. Destaquem-se entre as suas obras a  peça de teatro O Vagabundo das Mãos de Oiro (1960) e o romance Bonecos de Luz (1961). Centrando muitas vezes as suas narrativas em aspectos da vida regional, Romeu Correia traduziu apaixonadamente o quotidiano dos trabalhadores e da classe média na periferia de Lisboa. Em Calamento, aborda o sofrimento da vida na Caparica, elaborando um retrato complexo das relações familiares e laborais da comunidade piscatória, através de um discurso narrativo frequentemente oralizante.

   Desse romance, transcreve-se um parágrafo do fragmento Cadelinhas, inserido no capítulo do mês de Novembro:

 

   "Se os fins de Outubro foram chuvosos e trovejados, Novembro foi soprado com gana por milhentos foles do Inferno. Um sueste de travessão varou a praia de-lés-a-lés, arrumando os homens ao paleio e à mândria, sem saída de ganhá-lo. Pelos casebres, as mães sacudiam os fedelhos, ganfados às saias, rabugentos, pedinchões. O céu continuava confuso. A fera rugia da banda de lá da duna. Devoradas todas as reservas de peixe seco - carapau, polvo e cação - logo o parco pecúlio, obtido do veraneante, fora colmo à beira do archote. Cães famintos uivavam, acossados de porta em porta. Esburacavam-se panos - à míngua de sol, alfinetados em cordas -, sem que mão previdente os recolhesse. A penúria arrastava o desleixo. Pelo juncal sáfaro e ruim, rebolavam cardos, ervas nojentas, errantes, que o Estio ressequira, e a que o bufão decepara o caule. Tacanhas para regimentos familiares, as barracas atafulhavam-se de cordas, bóias, redes - toda a jigajoga do mar, que a navalha do tempo afugentara do seu couto. E as embarcações, afocinhadas no areal, sem viços, sem cores, bicas para os céus, esperavam, desgraçadamente, pelo fim de qualquer coisa! Confrangia a pedincha dos garotos: pão! pão! ó mãe, quero pão! E elas batiam-lhe, destrambelhavam-se, fartas de os ouvir - fartas de viver. E, à noite, quando os homens recolhiam ao telheiro, praguejavam contra eles: voceses nem parecem homes - são uns cagarolas, uns madraços! Para lá da duna, o mar rugia, rugia - e era papão para filhos e... pais. Então, eles sovavam as companheiras, abalando para a taberna, para qualquer canto."

 

© Blog da Rua Nove

 

 

 

publicado por blogdaruanove às 21:46
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