Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

Desenho publicado na revista Atlântico, número 1, Primavera de 1942, para ilustrar o conto Solstício de Verão, de Manuel da Fonseca (1911-1993).

 

   "O dia continua.

 

   Passados alguns instantes tocaram-me no ombro.

   – O Pavia quer vê-lo.

   Fiz das entranhas coragem e entrei no quarto, enquanto uma voz feminina me anunciava quase aos gritos:

   – Pavia, está aqui o senhor José Gomes Ferreira.

   Sentado na cama, máscara a esvaziar-se, barba crescida, bico de garrafa de oxigénio na narina esquerda, o infeliz autor das Líricas arfava convulso no terror de sentir acabar-se o ar do mundo.

   – Sou eu, Pavia.

   E apertei-lhe a mão com brandura. Tão quente! Mas nos olhos desequilibrava-se já qualquer coisa de fugidio, de voo de lume aos saltos..."

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977). 

 

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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Capa para Cerromaior (1943), de Manuel da Fonseca (1911-1993).

 

   "Um salto para o passado,

    2 de Novembro de 1943.

 

   Café Portugal. Manuel da Fonseca a semear palavras de invenção poética...

   Acompanhou-me a casa e ouvi-lhe histórias pasmosas, narradas na sua voz de ironia fosca que, de vez em quando, tanto enegrece as palavras de agressividade doce-amarga... O suicídio do senhor da Torre Vã, que se atirou para o chão coberto de cacos de garrafas, depois de obrigar a mulher a dançar nua com uma candeia acesa no umbigo... O Cação, que curou o unheiro do pé com o malho do ofício... O André Algarvio, que saiu para a rua a gritar que era cabrão... Sei lá! Um mundo medonho de malteses bárbaros e inteiros...

   Depois, a conversa ensilvou-se e soube que Cerromaior, o primeiro romance do Manuel, sofreu cortes vários. Supressão de palavras tidas por indesejáveis.

   Uma tristeza de transformar as pedras em caveiras. Com dentes moles."

 

   in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

Autógrafos - Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca (1911-1993), Um Anjo no Trapézio (1968)

Capa de Pilo da Silva (Piló; 1905-1988)

 

 

Manuel da Fonseca (1911-1993)

   Autor neo-realista, Manuel da Fonseca desenvolveu em prosa uma obra que retrata o Alentejo, as suas vilas e os seus montes, a sua ruralidade, o sofrimento da sua gente, a solidão. Como muitos dos escritores daquele movimento, Manuel da Fonseca era militante do PCP. A sua primeira colectânea de contos, Aldeia Nova, surgiu em 1942. Na poesia, Rosa dos Ventos (1940) foi a sua primeira publicação, em edição de autor. Seguindo os cânones neo-realistas, deixou-nos belíssimos poemas, como Domingo, um comovente retrato da vida urbana, com as suas desilusões e as suas esperanças.

   De Um Anjo no Trapézio, uma colectânea de narrativas essencialmente urbanas, transcreve-se o excerto inicial do conto Manhã Sem Dia:

 

   " Cada vez, as ondas subiam até mais longe, pela duna. Com um referver assobiado de espumas, quase chegavam agora aos pés do homem que estava lá em cima deitado, a olhar para a aldeia.

   Só quando a primeira onda lhe molhou as pernas o homem se apercebeu do encher da maré. Levantou-se. De roupão meio encharcado a arrastar pela areia, foi estender-se um pouco adiante da crista da duna. Apoiou o queixo nos punhos cruzados, e continuou a olhar a aldeia.

   Assim estava ainda, quando o ranger da areia sob pés nus soou. Nem se moveu. Sabia que era a mulher que vinha ao seu encontro, como todas as manhãs.

   – A água? – perguntou ela, depois de poisar o saco.

   – Hã?

   Quieta, por instantes, a mulher observou-o. De costas para o vento, ajeitou o roupão sobre a areia, tirou do saco um frasco acastanhado, uma caixa azul, redonda, e sentou-se.

   – Como está hoje a água? – tornou ela a perguntar. – Fria?

   – Não sei – disse secamente o homem. – Ainda lá não fui."

 

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