Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

O Colégio de Regeneração em Braga

Pormenor de uma colcha em lã e algodão, com o padrão "Boa Noite", manufacturada nos teares do Colégio da Regeneração, em Braga. Primeira metade do século XX.

 

   Durante décadas, o Colégio de Regeneração, em Braga, tem sido um espaço de eleição para muitas famílias do norte de Portugal encomendarem os seus trabalhos em linho, lã, ou algodão.

   Vários enxovais se iniciaram com lençóis, colchas, toalhas de mesa e toalhas de rosto aí manufacturadas e muitas obras dos teares desta instituição têm sido carinhosamente conservadas ao longo de várias gerações como exemplo de trabalhos executados com perfeição.

   O Colégio de Regeneração foi fundado em 1869 e situava-se primitivamente na Rua do Areal, nos arredores de Braga, denominando-se então Casa de Abrigo. Em 1871, dada a exiguidade das instalações iniciais, que foram abandonadas, a instituição arrendou a Casa da Armada, na freguesia de S. Victor. Pouco depois, em 1874, registou-se nova deslocação para um outro espaço, a Casa do Avelar de Baixo, na Rua dos Pelames. Foi neste último ano que o Colégio estabeleceu os seus estatutos e passou a receber esta designação.

   O artigo 2 desses estatutos estabelecia assim a finalidade do Colégio – "O fim do Collegio é retrahir do caminho de perdição e rehabilitar religiosa e civilmente as pessoas do sexo feminino extraviadas e sem meios de subsistencia."

 

Gravura representando o primitivo Convento da Conceição, em Braga.

 

   A partir de 1883, por falecimento da última religiosa aí residente, passou a ocupar totalmente o edifício do antigo Convento da Conceição, que havia sido fundado na primeira metade do século XVII. No entanto, devido a uma portaria do Ministério da Justiça e à concessão que esta estabelecera, o Colégio havia já ocupado parcialmente o Convento em 1879. Posteriormente, durante os finais do século XIX e o início do século seguinte, o primitivo espaço conventual foi submetido a diversas obras de adaptação e ampliação para corresponder às características da instituição que passou a albergar.

   Em 1892, o Colégio contava com seis máquinas de costura, duas de malha, uma de empregar e outra de ruches, equipamento que foi aumentado com mais quatro máquinas de costura e uma máquina de corte, em 1902. Nos primeiros anos do século XX, as oficinas de tecelagem estavam equipadas com trinta e um teares, dos mais diversos tipos – desde os tradicionais até às máquinas Jacquard, produzindo peças de pano que podiam chegar aos dois metros e meio.

 

Pormenor de uma toalha de mesa em linho, com o padrão "Bom Dia", manufacturada nos teares do Colégio da Regeneração, em Braga. Segunda metade do século XX.

 

   Nessa época, as oficinas da instituição fabricavam tecidos de linho simples e mesclas de algodão, lã e juta, desde a estamenha à bretanha. As especialidades eram as mais diversas, abrangendo o riscado, a sarja, o chamado "pano de família", o pano de linho, toalhas de rosto e de mesa, simples e adamascadas, guardanapos, colchas, panos de mesa e lenços. 

   Em 1904 o Colégio contava com 130 asiladas, das quais quarenta e nove se empregavam nos serviços de costura, malha e bordados, vinte e quatro nos serviços de engomadoria e trinta e cinco nos serviços de tecelagem.

 

 

   Ficcionalmente, Maria Ondina Braga (1932-2003) evocou este colégio no seu conto "Casa de Regeneração", publicado no livro Amor e Morte (1970; posteriormente, os contos deste volume foram refundidos e aumentados, surgindo num novo livro com o título O Homem da Ilha [1982]).

 

 

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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

 

Maria Ondina [Braga] (1932-2003), Eu Vim para Ver a Terra (1965).

   Embora vários autores portugueses dos séculos XIX e XX tenham passado pelo Oriente e reflectido, de maneira directa ou indirecta, essa estadia na sua literatura – vejam-se os casos de Wenceslau de Moraes (1854-1929), Camilo Pessanha (1867-1926) e Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), entre outros, Maria Ondina Braga surge no século XX como a principal autora portuguesa de ficção ligada a Macau, em particular, e à China em geral.

   Este seu livro de estreia, Eu Vim para Ver a Terra, apresenta-nos um conjunto de textos sobre Angola, Goa (precisamente em 1961) e Macau, mas são as crónicas de Angola – A Terra, De Luanda a Salazar, De Salazar a Malanje, A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta, Mercado Indígena, Velho Roque, Nova Lisboa, A Missão do Lombe e as Castanholas da Irmã Manuela, Páscoa – 1961, mais do que as de Macau, que acabam por nos cativar na sua sensibilidade e nos deixam a promessa de toda a literatura notável que a autora haveria de produzir posteriormente.

   Surgem nestas crónicas fragmentos particularmente belos. A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta e Mercado Indígena oferecem-nos a expressão de um lirismo a que não podemos ficar insensíveis e deixam-nos impressões de mundos que a maioria de nós apenas pressente. Como se a empatia da autora tivesse absorvido a fugacidade de universos momentâneos e os tivesse cristalizado em toda a sua beleza – a frescura dos aromas e das cores, a humidade e o calor da terra, a alegria e o sofrimento das gentes, criando um políptico perene que retira do húmus dessa terra o seu carácter profundamente humano.

 

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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Autógrafos - Maria Ondina Braga

 

Maria Ondina Braga, Nocturno em Macau (1991).

 

 

Maria Ondina Braga (1932-2003).

   Com longas estadias no Oriente, Maria Ondina Braga dá seguimento a uma tradição do imaginário asiático na literatura portuguesa do início do século XX, exemplificada por autores como Wenceslau de Moraes (1854-1929), o qual, depois de ter vivido alguns anos em Macau, se radicou inicialmente em Kobe e posteriormente em Tokushima, no Japão, e Camilo Pessanha (1867-1926), que viveu durante muitos anos em Macau.

 

   Habitualmente conotada com espaços de acção orientais, a sua obra começou com um livro de crónicas, Eu Vim Para Ver a Terra (1965), sendo Estátua de Sal (1969) e Nocturno em Macau dois dos seus títulos mais conhecidos. Foi, no entanto, com o livro de contos Amor e Morte (1970) que recebeu o prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa. As suas crónicas sobre Angola em Eu Vim para Ver a Terra são pedaços magníficos de prosa ritmada, leve, deslumbrada e cheia de alegria. Contrastando no mesmo volume, curiosamente, com as imagens sombrias e repassadas de desânimo das primeiras crónicas sobre Macau. Cidade que, paradoxalmente, parece ter causado na autora um impacto inicial pouco entusiasmante. A narrativa desenvolta e cativante de Estátua de Sal retrata-nos de forma sincopadamente fascinante  a experiência da autora em Inglaterra e Macau, entretecida com as suas memórias da infância e adolescência em Braga, sua terra natal.

 

   De Nocturno em Macau, uma obra publicada nos anos  noventa mas que reflecte uma vivência dos anos sessenta (de acordo com a narradora, a acção passa-se no ano do Cavalo, do calendário chinês, ano correspondente a 1966) transcreve-se abaixo um dos parágrafos iniciais:

 

   "Veio Ester a desencantá-la a um canto do claustro mergulhada na releitura da carta. Andava à sua procura, já sei que teve notícias. E, sem mais nem menos, um par de braços a cingi-la, uma cabeça pousando-lhe no ombro. Por instantes supôs, Ester, que a amiga chorava, mas não, antes ria. Se fôssemos amanhã lanchar fora? Que diz? Pois então! Faz anos amanhã? Não, é que ainda não conhecia os restaurantes chineses. Um cochicho a sua voz. Aquele corpo colado ao dela e convulso. Desapertando a blusa, guardava a carta no seio, distraída, metade do seio à mostra. Ao saírem, contudo, para a luz directa do jardim, como se despertasse, Dhora: Por favor não fale nisto a ninguém. Terra de mexericos, Macau, a sua senhoria a toda a hora xe-xe-xe. E uma carta sempre era uma carta, um compromisso. Ester sossegou-a: Sou um túmulo. Mas... e a irmã Trinidad? Ah, essa já falara com ela, já lhe prometera segredo. Enfiava-lhe o braço: Onde vamos? Ao Lago-de-Jade, por exemplo, tem muito bom chá. Combinado o encontro à porta do Correio Geral, a goesa apertou os lábios com as pontas dos dedos, o sobrolho arqueado. Ester a pensar no segredo de polichinelo da da portaria. Como se estivesse a ouvi-la. Ah, pobrecita de la maestra indiana!... Meses a fio à espera da carta, la maestra. Não era bem freira, Trinidad, apenas irmã conversa e por acaso grande conversadeira. Ao receber a carta até a beijara, la maestra! Gabando-se, a porteira, de haver contribuído para o milagre as suas rezas, os seus rogos, o responso que tinha rezado a Santo Expedito."

 

 

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