Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

Autógrafos - Andrée Crabbé Rocha

 

Andrée Crabbé Rocha (1917-2003), tradução e introdução de Poèmes (Bruxelles, Bélgica, 1951), de Miguel Torga.

 

 

Andrée Crabbé Rocha (1917-2003).

   Ensaísta e professora universitária de origem belga, Andrée Rocha interessou-se particularmente pela literatura portuguesa do século XVI, com destaque para Garcia de Resende (1470?-1536) e o seu Cancioneiro Geral, e pelo teatro de Almeida Garrett (1799-1854).

   Efectuou traduções para francês de textos de Miguel Torga, seu marido, nomeadamente esta colectânea de 1951 e Le Viatique (1959).

   Sobre sua esposa, anotou Torga no volume Diário (I):

 

   "S. Martinho de Anta, 21 de Setembro de 1940. Aqui estou. Vim mostrar a mulher aos velhos, à Senhora da Azinheira e ao negrilho. Gostaram todos."

 

 

   "S. Martinho de Anta, 2 de Outubro de 1940. Fui mostrar-lhe a Vila [Vila Real]. Mas fui mostrar-lha como os meus avós a mostraram às mulheres deles – a pé. Foram só seis léguas..."

 

   Da tradução de Poèmes, e mais uma vez excepcionalmente, transcreve-se o poema que se segue:

 

 

FRONTIÈRE

 

De la terre d'un coté, de l'autre, de la terre;

Des gens d'un coté, des gens del'autre;

Ces fils d'une même montagne, et ces versants,

Le même ciel les couvre et les consent.

 

Le même baiser ici, le même baiser là-bas;

Des hurlements pareils – chiens ou meutes sauvages.

Et la même lune lyrique qui vient

Blancheyer les échevaux de vieux lin.

 

Mais une force sans raison,

Qui n'a ni yeaux ni sens,

Passe et laisse réparti

Le coeur du moindre genêt endormi.

 

 

 

Miguel Torga

 

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Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Miguel Torga (VIII)

  

   Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Miguel Torga. De entre as múltiplas análises e ensaios, refiram-se duas obras da autoria de sua filha, Clara Crabbé Rocha (n. 1955), O Espaço Autobiográfico em Miguel Torga (1977) e Miguel Torga: Fotobiografia (2000); um antigo ensaio  de Eduardo Lourenço (n. 1923), O Desespero Humanista de Miguel Torga e o das Novas Gerações (1955); um outro ensaio de Teresa Rita Lopes (n. 1937), Miguel Torga: Ofícios a "Um Deus de Terra" (1993), e uma obra de Fernão de Magalhães Gonçalves (1943-1988), Ser e Ler Torga (1986).

 

 

   

 

   A propósito de sua filha e de seu pai, anotou Torga no seu Diário (VIII):

 

   "S. Martinho de Anta, 25 de Março de 1956 – Apresentação da neta ao avô. O melhor viático que eu podia trazer ao velho para a viagem do além, que está prestes a fazer. Pus-lhe nos braços secos a vergôntea de vida tenra, e a paz que a minha própria existência nunca lhe deu nimbou-o como um resplendor."

  

 

   Sobre o inesperado falecimento de Fernão de Magalhães Gonçalves e a relação entre os dois autores, escreveu Torga no seu Diário (XV):

 

   "Coimbra, 13 de Junho de 1988 – O telefone tocou, e mal eu imaginava que era um dobre a finados. Que nenhuma memória preencheria no futuro o vazio que me ia ser anunciado. De olhos marejados, contemplo agora o Letes de silêncio que nos separa. Ele ainda a dar os primeiros passos literários, mas já dono de uma personalidade poderosamente marcada pelo selo da autenticidade, aproximou-nos o seu dom de se dar sem reservas. E nenhum laço aperta tanto almas irmãs como a evidência da sinceridade. Os deuses é que não cuidam de acasos felizes. E levaram-no na flor dos anos, ou para confirmarem o aforismo de Plauto, porque o amavam, ou cruelmente para desmerecerem as leis do afecto e tornarem mais absurdo o absurdo."

  

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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Miguel Torga (VII)

Contos da Montanha, 2.ª edição, Irmãos Pongetti, Rio de Janeiro, Brasil, 1955.

 

   A colectânea Montanha saíu pela primeira vez em 1941, tendo sido imediatamente alvo da censura do regime. Fora do mercado durante vários anos, teve a sua segunda e terceira edições, já com o título Contos da Montanha, em 1955 e 1962, no Brasil.

   É nesta colectânea que Torga apresenta uma personagem inesquecível – Maria Lionça. Uma mater dolorosa que remete inequivocamente para a Pietà, quando transporta nos braços o cadáver do filho, de regresso à terra natal.

   Surgem ainda contos com um humor peculiar, como Um Roubo, e contos de temática ligada ao sobrenatural, como O Bruxedo.

   Mas é nesta colectânea, como já foi referido, que surge também um conto de temática neo-realista – Minério. Publicado ainda na segunda edição do Brasil, de 1955, foi retirado já na edição seguinte, a de 1962, verificando-se nesta nova edição o aparecimento de um novo conto, O Desamparo de S. Frutuoso.

 

Contos da Montanha, 3.ª edição, Irmãos Pongetti, Rio de Janeiro , Brasil, 1962.

  

   Transcrevem-se seguidamente alguns parágrafos de Minério (2.ª edição, 1955):

 

   "E foi assim que a montanha se perdeu. Açulada pela necessidade, tôda a gente começou a saquear o senhor Williams. O minério não é sagrado. As serras, desde que o mundo é mundo, pertencem a cada povo. E lá diz o ditado: Quem rouba ladrão...

   Ora, o senhor Williams sabe da vida. E como a Guarda Republicana não se fez para outra coisa, aí vem ela de carabina aperrada pela serra acima.

   Os da montanha são do seu natural pacíficos. Criam-se com muito leite. À ponta de aguilhão é que se fazem lobos. A autoridade revista tudo, mete o nariz em tudo. As casas e as pessoas são esquadrinhadas como os montes. E por causa disso há tiros e mortes a toda a hora.

   Dantes, ao escurecer, quando os rebanhos voltavam do pastoreio, acabava o dia. Comia-se o caldo, davam-se as graças, apagava-se a candeia, e até amanhã. Agora a noite é a grande companheira de todos. Quanto mais negra, melhor. Untam-se com sabão os eixos dos carros, e o minério desce silenciosamente dos altos em direcção à Régua."

 

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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Miguel Torga (VI)

 

   Entre 1937 e 1981 Torga publicou os seus cinco volumes de A Criação do Mundo, num registo diegético que se estendeu até ao sexto dia. Curiosamente os três primeiros volumes saíram anualmente entre 1937 e 1939, mas o quarto apenas se publicou trinta e cinco anos depois, em 1974, e o quinto em 1981.

   No relato do terceiro dia de A Criação do Mundo (1.ª edição, 1938; 2.ª edição, refundida, 1948), esta sequência de anotações autobiográficas abrange o final da estadia do suposto alter ego literário do autor no Brasil, durante a década de 1920, o seu regresso a Portugal, a frequência do curso de medicina em Coimbra, a sua conclusão e o regresso frustrado e frustrante à sua terra natal, a sua colocação como médico de província e a sua partida para um périplo europeu, no final da década de 1930.

   A importância deste volume, em particular, reside no relato que Torga efectua sobre o seu relacionamento com as revistas e movimentos literários da época. Por tal facto, transcrevem-se passagens mais longas do que habitual, considerando o que elas representam quanto à doutrina, estética e ética literária do autor:

 

   "Os antigos companheiros da Vanguarda [Presença] eram agora meus inimigos. Cada vez me perdoavam menos a cisão do grupo, de que eu fora o principal autor. Cristalizados na sua verdade, não podiam compreender que é próprio da natureza humana a aventura, embora à custa da destruição. Admirava-os e estimava-os. Mas razões de discordância literária e razões de liberdade humana fizeram-me deixá-los e tomar outro caminho. E em vez de olharem com simpatia o que eu descobria no meu novo rumo, como eu olhava com simpatia o que eles descobriam no seu, insistiam no aspecto humano e desagradável das nossas relações."

 

  

   A passagem que se segue é especificamente significativa, não apenas pela apreciação da revista Presença, mas também pela incursão que as reflexões de Torga realizam pelo neo-realismo, explicando em certa medida a génese de alguns dos seus contos, como Firmeza e Minério, e justificando implicitamente a não insistência nestes modelos.

   Todas as outras considerações estéticas, literárias e sociais são eloquentes por si próprias, dispensando qualquer comentário. Assinale-se, contudo, a incursão de Torga pelo questionável conceito da "literatura do bom gosto", quando analisa a importância da Presença, e a sua insistência num conceito que sempre o definiu, a si e à sua literatura – "cada qual na sua intimidade inviolável".

  

   "Mal saíra da Vanguarda, fundara uma revista para lhe opor, Facho [Sinal; Julho de 1930], que morreu ao nascer. Conhecia ainda mal as razões profundas do meu gesto. Deixara-me guiar pelo instinto, que me empurrou para a revolta e a solidão; mas, quando fui a querer dar corpo doutrinário ao acto, falhei. O único número que apareceu não se podia comparar nem de longe nem de perto em serenidade expressiva a qualquer dos da Vanguarda. Era incerto, confuso, tumultuoso. De resto, não conseguira colaboradores. Enchemo-lo eu e o Sobral [Branquinho da Fonseca], que abandonara comigo o movimento, e era impossível manter uma publicação com duas penas. Com o tempo, porém, estruturaram-se as minhas razões, surgiram outras discordâncias, e aquilo que fora balbuciado podia finalmente dizer-se em voz inteligível. Surgiu assim Trajecto [Manifesto], que eu dirigi, e onde o Gonçalo e o André colaboravam assìduamente.

   Queríamos uma arte viva e atenta ao eterno do circunstancial. A Vanguarda arejara a literatura do bom gosto e da crítica. Mas faltara-lhe força para agarrar o humano com mais coragem. Contentava-se com o aprofundamento dos dramas do artista e dos seres de excepção, esquecendo-se de que buscando a profundidade não abrangia a extensão. O velho mundo social estrebuchava já na agonia, desenhavam-se no horizonte os primeiros sinais de combate, e ela cega no seu esteticismo. O  muito que fazia era pouco, afinal. O tempo correra mais depressa do que o seu esforço. Proust e Gide, a última palavra revelada nas suas colunas aos leitores embasbacados, lá fora ou estavam velhos ou pelo menos ultrapassados. Integrados numa cultura universal, eram evidentemente marcos miliários. Mas como polarizadores das angústias presentes tinham perdido a actualidade e a significação. Outras consciências se esforçavam numa procura mais geral e menos egoísta. A arte fora finalmente tocada pela fraternidade.

   Sabíamos que mergulhar demais a pena criadora nessa consciência social implicava o seu risco. Um sistemático enternecimento do artista pela dor e pela miséria duma classe, sendo humanamente um dever, tornaria a arte unilateral e falsa. De tanto pedir justiça, os versos tingir-se-iam de monotonia. Uma página de prosa a apontar misérias obstinadamente, chegaria ao fim mais seca do que um relatório. E de uma arte abstracta transitar-se-ia para uma arte artificial. Pedir-se ao artista que sacrificasse o seu individualismo criador na fogueira colectiva, era roubar-lhe uma autonomia de movimentos, fundamental a toda a invenção e originalidade.

   Por isso procurávamos um caminho de livre e positiva realização, onde nem o homem fosse traído, nem o artista negado. Nenhuma angústia nos era estranha, nem abafávamos com melodias o grito dos oprimidos. Atentos à lição do passado e aos horizontes do futuro, vivíamos o presente como homens de carne e osso, condenados à duração temporal do nosso coração. Fisiologia e circunstância, sabíamos no entanto que só merece a vida quem a sabe transcender em beleza e verdade. E lutávamos por essa beleza e por essa verdade com mãos limpas de artistas e cidadãos. Quente e generoso, cada número novo era uma conquista que mais nos iluminava. Ao lado do poema gratuito, a página candente e justiceira. A mesma homenagem comovida ao sábio, ao escritor, ao santo ou ao político que deixavam no laboratório, na banca, no ermitério ou na tribuna uma sincera palpitação humana de solidariedade e de amor. Embora individualistas, não concebíamos a vida sem ser articulada e total. O mundo inteiro unificado e feliz; e dentro dele cada qual na sua intimidade inviolável.

   Era para esse sonho que eu agora corria com redobrada pressa."

 

 

   "Esmagada pela bota da intolerância, Trajecto acabara. Para o último estertor, escrevi-lhe um cântico de naufrágio, e sobre a sepultura gravei-lhe um epitáfio de ironia. Quis que morresse em beleza e sorriso o que fora um baluarte de esperança e verdade. Mas morrera. E mais esse vácuo se abria sob os meus pés."

  

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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Miguel Torga (V)

 

Novos Contos da Montanha (2.ª edição, 1945).

 

   Em Novos Contos da Montanha (1944), como o nome indicia, Torga retomou uma ligação umbilical à atmosfera e aos contos publicados anteriormente em Montanha (1941), uma colectânea censurada pelo regime. (Surgiria mais tarde em duas edições brasileiras, já sob o título Contos da Montanha, voltando uma nova edição portuguesa, a quarta, a ser publicada apenas nos anos 60.)

   Nesta terceira colectânea de contos essencialmente rurais, o autor apresenta novamente a sua particular visão cosmogónica. Surgem narrativas de um mundo contido na sua realidade regional ou local que, paradoxalmente, é paradigma de realidades universais. O Alma Grande, A Festa, O Senhor, são contos que retratam diferentes dimensões da religião e da religiosidade, cruzando o sagrado e o profano, e consolidam esta particular vertente da escrita torguiana.

   Mas, essencialmente, é neste volume que o escritor conclui uma brilhante trilogia sobre a autocracia feminina e o arquétipo da mãe e da mulher. Iniciada com o rito de passagem e a catarse de Madalena (Bichos, 1940), continuada com a vida trágica da mater dolorosa que é Maria Lionça (Montanha, 1941), essa trilogia completa-se aqui com a maternidade sem pecado de Mariana. Mariana é a mulher que não conhece pecado, pois apenas reflecte o apelo e o instinto procriador da natureza.

    

 

   Transcreve-se seguidamente um parágrafo desse conto, retirado da 3.ª edição (aumentada e com um prefácio) de Novos Contos da Montanha (1952):

 

   "Mariana não podia entender a certeza do filho. A terra parecia-lhe una, indivisível, nivelada na mesma serenidade e no mesmo destino de criar. Aqui, ali, acolá, aldeias, casais, quintas ou descampados, eram sítios do mesmo mundo, iguais, onde os seus pés caminhavam tão contentes dos seixos como do rosmaninho. Nem sequer a simpatia de uma encosta, o afeiçoamento da perdiz ao monte onde tirou a ninhada. As crias de Mariana nasciam em todos os polos onde as suas pernas tinham forças para chegar. Em qualquer mata miúda o seu ventre paria em paz, e atrás de qualquer parede o seu corpo recebia a seiva de uma nova vida. Não. Nem entendia o rapaz a gabar os lameiros de Constantim, nem a sensualidade do Jeremias Manso a querer fazer da sua carne coisa de gozo."

 

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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

Autógrafos - Miguel Torga

 

   A tradução castelhana de Bichos saíu em 1946. Torga assinara o seu prefácio em Maio de 1944, um prefácio posteriormente incorporado nas edições portuguesas. Nesse prefácio Torga escreveu:

 

   "No puedes calcular la emoción con que vengo ante tí a presentarme y a presentarte mi pequeña arca de Noé. Hijo occidental de Iberia, fué siempre España uno de mis puntos de honra. Desde que en un día remoto fuí a Santiago de Compostela a ver el Pórtico de la Gloria, nunca más pisé su suelo ni pronunié su nombre sin amor. Mi patria cívica acaba en Barca de Alva; pero mi patria telúrica acaba sólo en los Pirineos. Hay en mi pecho angustias que necesitan de la aridez de Castilla, de la tenacidad vasca, de los perfumes de Levante y de la luna de Andalucía. Soy, por la gracia de la vida, peninsular."

 

   Esta declaração de iberismo viria, mais à frente, a ser filosófica e logicamente explicada através de uma dicotomia antitética que necessariamente exige mútua complementaridade:

 

   "Del mismo modo que, territorialmente, Iberia no se comprende sin un margen atlántico donde un Tajo toledano venga a desaguar en claridad los colores sombríos que el Greco le dió, tampoco se puede entender el mundo de nuestra naturalidad animal donde un sapo no sea capaz de hacernos confidencias."

 

 

 

   É esta atitude de dialéctica entre o humano e o animal, uma dialéctica enquadrada e regida pela natureza, estilisticamente sustentada pela prosopopeia mas filosoficamente desenvolvida através de uma empatia e uma simbiose cosmogónica, que transmite a Bichos as suas características magnéticas e maravilhosas. A galeria de personagens é das mais ricas e absorventes que Torga prosador criou. Bambo, o sapo, é uma personagem que o autor salienta no prefácio castelhano. Mas Nero, o cão, Vicente, o corvo, Tenório, o galo, e Ladino, o pardal, são protagonistas inesquecíveis nas suas personificações e metamorfoses.  As evocações de  Apuleio e Ovídio surgem com outras dimensões, e animais que muitas vezes se ficavam pela dimensão da clássica fábula de Esopo ganham contornos inesperados.

   Madalena, um alter ego da Madalena bíblica, surge-nos aqui em todo o esplendor do seu sofrimento e da sua tragédia. Uma Personagem. Como só Torga conseguiu desenvolver no minimalismo cosmogónico dos seus contos rurais.

    Inicialmente integrada nesta colectânea, a história de Bingo, o macaco, foi posteriormente excluída de Bichos. Pela sua maior raridade, transcreve-se o último parágrafo deste conto, retirado da segunda edição (1941):

 

   "E morria macaco, realmente. Morria tal como nascera, inquieto, trémulo, incompreendido. Morria sôbre um telhado, sòzinho, varado de lado a lado por uma bala, a ver a cidade estendida pelas colinas como um lençol. E não era isso o pior. O pior é que não poderia por muito tempo manter aquela posição em que estava, a única que o impedia de rolar pela têlha abaixo e cair dum sétimo andar na calçada. Além disso, o único ôlho que lhe restava toldava-se de nevoeiro. De certeza ia perder o equilíbrio e rolar desamparado pela têlha. De certeza. Mas não estava arrependido do que fizera. Só tinha pêna era de ir assim como ia cair do telhado abaixo e dar o último suspiro lá no fundo, na rua, a ouvir as gargalhadas dos meninos."

 

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Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

Miguel Torga (IV)

 

   Torga colaborou esporadicamente com algumas revistas literárias e culturais. Inicialmente colaborou na Presença (designada na Criação do Mundo como "Vanguarda"), a revista do segundo modernismo português, embora não tenha chegado a assumir em definitivo qualquer compromisso estilístico ou temático com os modelos literários hoje entendidos como sendo as premissas da Presença. Aliás, a insatisfação consigo próprio e com estas manifestações literárias levou Torga a fundar, logo após a sua dissidência da Presença, a revista Sinal ("Facho"), de breve existência, e, posteriormente, a revista Manifesto ("Trajecto"), igualmente de curta duração. Colaborou ainda com a efémera revista Litoral, que publicou o poema "Ciganos", um inédito na altura,  no seu primeiro número. Este foi o único texto de Torga saído nesta revista, que contava também com a colaboração de Branquinho da Fonseca (1905-1974), outro membro dissidente da Presença, em textos assinados quer com o seu ortónimo quer com o pseudónimo António Madeira.

   O poema "Ciganos" revela-se como uma belíssima celebração da liberdade individual, uma metáfora da dignidade e da integridade ética que Torga sempre assumiu. Surgiu numa época em que o autor já era escritor consagrado e... vigiado e perseguido pelo regime.

   Curioso é o facto de a angústia existencial do escritor estar aparentemente ausente deste poema, como se a literatura ganhasse nestes momentos difíceis as qualidades de ascese e catarse que a tornam a quinta essência de que o escritor necessita para ultrapassar as agruras do quotidiano.

   Excepcionalmente, devido aos direitos de autor vigentes, transcreve-se o poema na íntegra, de acordo com a versão de 1944:

 

CIGANOS

 

Tudo o que voa é ave.

Desta janela aberta,

A pena que se eleva é mais suave

E a fôlha que plana é mais liberta.

 

Nos seus braços azuis o ceu aquece

Todo o alado movimento.

É no chão que arrefece

O que não pode andar no firmamento.

 

Outro levante, pois, ciganos!

Outra tenda sem pátria mais além!

Deshumanos

São os sonhos também.

 

    Sinta-se agora a angústia exalada deste excerto de Santo e Senha, o poema que abre o primeiro volume de Diário (1941; transcrição retirada da 2.ª edição, 1942), a angústia de um Prometeu Agrilhoado que, apesar de tudo e de todos, insiste na sua demanda pessoal e no seu percurso solitário, um percurso que, quando não pode ser físico, é mental:

 

"Deixem passar quem vai na sua estrada.

Deixem passar.

Quem vai cheio de noite e de luar.

Deixem passar e não lhe digam nada.

 

(...)

 

Que vai cheio de noite e solidão.

Que vai ser

Uma estrela no chão."

 

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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Miguel Torga (III)

 

   A reescrita é uma das características dos textos torguianos. Quando consultamos as múltiplas edições das suas obras, realizadas em vida do autor, encontramos frequentemente as seguintes indicações, em diferentes livros – edição acrescentada, revista e com um prefácio; edição aumentada; edição aumentada, emendada e com um prefácio; edição refundida; edição refundida e aumentada; edição remodelada; edição revista; edição revista, aumentada e com um prefácio.

   Segundo sua filha, Clara Crabbé Rocha, Torga reescreveu e reviu os seus textos até aos últimos momentos, mesmo no leito do hospital. Tal reescrita fica patente quando efectuamos uma leitura comparada das várias edições de um mesmo título. Nos livros de contos, esta leitura comparada permite-nos, ainda, verificar que subsequentes edições integraram textos que não tinham sido publicados anteriormente. Também se verifica que alguns contos foram retirados e não voltaram a ser publicados. Dois contos, em particular, merecem especial atenção – Minério, publicado na 1.ª edição de Montanha (1941) e retirado de todas as edições portuguesas posteriores, e Firmeza, publicado nas primeiras edições de Novos Contos da Montanha (1.ª edição, 1944) e definitivamente ausente a  partir da 5.ª edição (1952). 

   Estes contos são particularmente interessantes porque representam um claro paradigma da literatura neo-realista de Torga, sendo também narrativas contemporâneas da génese do próprio neo-realismo. É um pressuposto da literatura torguiana a sua independência relativamente a movimentos literários, mas estes contos demonstram que essa asserção apenas é válida para uma classificação global da sua obra. Pontualmente, Torga produziu textos que se inseriam nos movimentos da época. Tendo colaborado na revista Presença e tendo produzido textos como este dois contos, na altura em que estas eram as vanguardas em Portugal, Torga demonstra-nos que a afirmação de Jorge de Sena, classificando-o de "suficientemente não moderno para agradar a toda a gente", será uma opinião muito pessoal e contestável. É claro que Sena poderia estar a referir-se apenas à poesia torguiana, mas tal não está implícito no contexto deste comentário endereçado a Sophia de Mello Breyner. 

   O conto Minério aborda as condições de  trabalho nas minas e as relações entre trabalhadores e patronato, uma temática que se inseria na actualidade da época e na exploração das minas de volfrâmio que alimentavam as indústrias bélicas da II Grande Guerra.

   O conto Firmeza relata uma realidade que, apesar de rural, não se afasta da temática da luta de classes.

   Transcrevem-se abaixo alguns parágrafos deste conto, retirados da 1.ª edição:

 

 

   "– E deixais-lhe estragar o pão?

   – Pois deixamos... Que nos importa a nós o pão dêle?! Colhe-o, enferrolha-o na tulha, e a gente se o quiser tem de lho pagar a oiro...

   – Mas é pão!

   – Sim, e que tem lá isso?"

 

   (...)

 

   "A trovoada continuava cada vez mais forte, e os raios abriam na noite negra rápidos clarões deslumbradores.

   O Joaquim Lontra, então, desceu a rua, chegou perto da casa, torceu à esquerda, e pelo caminho mais curto foi à eira. Lá, entrou no coberto, e do bolso das calças que não estava molhado tirou o isqueiro, fêz lume e chegou-o a um dos molhos. Depois voltou serenamente a casa pelo mesmo caminho.

   – Fogo! Fogo! – gritava daí a pouco tôda a gente.

   Mas o raio que caíra no palheiro escolhera o melhor sítio. Quando a trovoada amainou e a aldeia em pêso pode acudir, todo o barracão tinha sido devorado pelo incêndio."

 

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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Miguel Torga (II)

 

   Torga subdividiu a sua produção literária em poesia, prosa, teatro e poesia e prosa (Diário). Na prosa, encontramos cinco colectâneas de contos – Bichos (1940), Montanha (1941; a partir da 2.ª edição, 1955, Contos da Montanha), Rua (1942), Novos Contos da Montanha (1944) e Pedras Lavradas (1951).

   Neste conjunto, dois volumes apresentam essencialmente uma temática urbana – Rua e Pedras Lavradas.

   A ausência da força arquetípica e da cosmovisão que perpassam pelos seus contos rurais é evidente na maioria destes contos de características urbanas. Aqui, a celebrada força telúrica das personagens torguianas esbate-se, parecendo que estas, personificando Anteu (um dos mitos que Torga evocou na sua obra) e deixando de estar em contacto com a terra e o mundo rural, perdem grande parte do carácter e do carisma que as personagens rurais de Torga apresentam. Surgem, contudo, algumas personagens cativantes e literariamente poderosas, ao assumirem, ao contestarem ou ao sucumbirem perante as tragédias da vida,  da sociedade e da passagem do tempo. E aí, Torga recupera a humanidade, a universalidade e a genialidade das personagens que desenvolveu nos seus contos rurais.

   A impotência do protagonista de "A Reforma" (Rua), o 110, polícia de giro, é paradigmática desta universalidade, um aspecto que é ainda sublinhado pelo brilhante trocadilho entre o estatuto que o guarda acaba de perder e o sentimento que o domina. Um trocadilho que acaba por ser irónico na sua antítese e transforma uma comparação banal numa excepcional comparação literária:

 

   "As duas mulheres estavam suspensas da bôca dêle.

   – Não é que eu me sinta velho... Há outros que podem menos... Em todo o caso os anos estão sobre o lombo, e já cá tenho...

   Espraiava-se a fugir ao essencial, roído dum desespêro fundo, impotente, que lhe raiava os olhos.

   – Mas afinal que foi que aconteceu? – preguntou a mulher, a concretizar.

   Êle então, como um criminoso chegado ao fim da defesa, voltou-se, puxou uma cadeira, e enquanto se sentava pesadamente nela, confessou tudo.

   – Fui reformado..."

 

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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007

Miguel Torga (I)

Diário (I) (1941; 2.ª edição, 1942).

 

   A diarística é uma das vertentes mais marcantes da obra torguiana. Entre 1941 e 1993, o autor publicou os dezasseis volumes do seu Diário, obra fundamental do género na literatura portuguesa do século XX, e entre 1937 e 1981 os cinco volumes de a Criação do Mundo, um conjunto de textos autobiográficos e diarísticos ficcionados.

   No primeiro volume do Diário, Torga ainda desliza para um registo de narrativa ficcionada (como acontece na entrada de 7 de Outubro de 1940 – uma narrativa de cinco páginas, com evidentes características de conto), mas ao longo dos volumes seguintes a obra assume-se como uma reflexão intimisma sobre o indivíduo e  o mundo. Paralelamente, as anotações e reflexões diarísticas surgem como valiosos documentos sobre a situação social e política deste país ao longo de seis décadas. A própria irreverência de Torga, e a independência que se lhe conhece, estão aí registadas, incluindo as consequências dos seus actos num regime político que não suportava a independência ou a oposição dos escritores. O relato da sua estadia na prisão é um exemplo de dignidade mental, humana, e política. Para Torga, o seu diário não era um espaço para ajuste de contas políticas. A sua literatura, a sua vida, a sua ética eram, no conjunto, o seu manifesto. Social, político e, acima de tudo, literário.

   Sublinhe-se o que Torga anotou no seu diário Diário (XII), publicado em 1977:

 

   "Coimbra, 6 de Maio de 1974 – Continua a revolução, e todos se apressam a assinar o ponto.

   – O senhor não diz nada? – interpelou-me há pouco, despudoradamente, um dos novos prosélitos.

   E fiquei sem fala diante da irresponsabilidade de semelhante pergunta. Foi como se me tivessem feito engolir cinquenta anos de protesto."

 

Sophia de Mello Breyner & Jorge de Sena: Correspondência, 1959-1978 (2006).

  

   Nesta correspondência podem-se conhecer alguns detalhes sobre o processo que envolveu a candidatura de Torga ao prémio Nobel da Literatura de 1960, proposta por um professor universitário estrangeiro. Podem-se ainda encontrar algumas opiniões sobre Torga. Em carta datada de 29 de Novembro de 1976, dirigida a Sophia e Francisco Sousa Tavares, seu marido, Sena escreveu:

 

   "(...) Mas o silêncio e a raiva por continuarmos vivos é o nosso destino de escritores lusos, passados os 50 anos, a menos que – perdoa-me, Sophia, que o diga – se seja o teu admirado Torga, suficientemente não moderno para agradar a toda a gente. Porque nesse país de rasca chinela a gente não pode nem deve atrever-se a ser "moderno", a menos que copie expressamente o que as Franças e Araganças tenham decretado que o é. Veja-se como o Régio foi admirado e endeusado antes do Pessoa... E isto não significa, é claro, que eu não respeite o Régio ou o Torga, obviamente, muito mais que tanto safardana agora promovido a grande pelos partidos respectivos. Vi que falaste na sessão de homenagem ao Torga, na chafarica da Rua do Loreto – lá onde, por certo, ele não é agora pessoa inteiramente "grata"..."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 23:39
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