Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Lima de Freitas e o Neo-Realismo

 

Tal como Júlio Pomar (n. 1926), Lima de Freitas (1927-1998), teve uma fase do seu percurso artístico marcada pela pintura, pelo desenho e pela gravura neo-realista. A exemplo do que veio a acontecer com a sua produção de fases posteriores, Lima de Freitas legou-nos belíssimas gravuras desta época, exemplificadas aqui por duas das imagens que ilustram o livro Olhos de Água (1954), de Alves Redol (1911-1969).

 

 

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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustração para a capa de Porto Manso (2.ª edição, 1946), de Alves Redol (1911-1969).

 

   "A Morte jantou connosco. (Título

     de filme barato).

 

   O pintor Manuel Ribeiro de Pavia veio hoje jantar connosco. Um belo gaspacho à alentejana, preparado pela perícia de Rosalia.

   Em raras ocasiões o tenho visto tão exuberante, em delírio quase, como se só naquele instante tomasse consciência de quaquer libertação essencial.

   Falou pelos cotovelos, depois de engolir as costumadas vitaminas de que recheia sempre por prudência as algibeiras. "Para acumular reservas..." – explica. (Amostras grátis. Ofertas de médicos amigos.)

   – Sim senhor. Que admirável gaspacho!

   E ia levando a colher à boca com unção de satisfazer um gosto antigo preso à língua da infância.

   Em todo o caso não aderia com aplausos completos. A receita de gaspacho dele, Pavia, parecia-lhe melhor, muito melhor. Continha vários ingredientes gostosos, como lagartos, caracóis e pedaços de cobra. Além do que a fantasia pudesse arremessar lá para dentro!

   – Até botões de colarinho, não, Pavia? – exagerei.

   Mas ele, a rir muito, insistia com pertinácia no seu mirabolante gaspacho da meninice, com cobras.

   Reparei então, mais uma vez, nas mãos que despiram as aldeãs nas Líricas – e tanto impressionaram a  Maria Keil –, peludas, esguias, unhas longas... Mãos de bicho – onde não espanta que durmam estranhas forças secretas da natureza à espera do próximo princípio do mundo verdadeiro para nos maravilharem com criações instintivas.

   Por fim, à hora do café e do conhaque, o Pavia voltou a glosar, com convicção de seriedade maliciosa que toma nessas noites de convívio ardente, o plano monumental com que me molesta há meses. Nem mais nem menos do que a organização de um Comício Poético no Coliseu dedicado à minha poesia, com a sonhada colaboração de Maria Barroso e João Villaret.

   E eu, trémulo, a conspirar contra a ideia (Ah, comício nunca! nunca!):

   – Ó Pavia: um Comício Poético?... Mas como? Não teme que isso me cubra de ridículo?

   – Qual! Verá! Verá!

   (Não vi.)"

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Capa para Cerromaior (1943), de Manuel da Fonseca (1911-1993).

 

   "Um salto para o passado,

    2 de Novembro de 1943.

 

   Café Portugal. Manuel da Fonseca a semear palavras de invenção poética...

   Acompanhou-me a casa e ouvi-lhe histórias pasmosas, narradas na sua voz de ironia fosca que, de vez em quando, tanto enegrece as palavras de agressividade doce-amarga... O suicídio do senhor da Torre Vã, que se atirou para o chão coberto de cacos de garrafas, depois de obrigar a mulher a dançar nua com uma candeia acesa no umbigo... O Cação, que curou o unheiro do pé com o malho do ofício... O André Algarvio, que saiu para a rua a gritar que era cabrão... Sei lá! Um mundo medonho de malteses bárbaros e inteiros...

   Depois, a conversa ensilvou-se e soube que Cerromaior, o primeiro romance do Manuel, sofreu cortes vários. Supressão de palavras tidas por indesejáveis.

   Uma tristeza de transformar as pedras em caveiras. Com dentes moles."

 

   in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Capa para Avieiros (1942), de Alves Redol (1911-1969).

 

 

Capa para Anúncio (1945), de Alves Redol (1911-1969).

 

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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Miguel Torga (III)

 

   A reescrita é uma das características dos textos torguianos. Quando consultamos as múltiplas edições das suas obras, realizadas em vida do autor, encontramos frequentemente as seguintes indicações, em diferentes livros – edição acrescentada, revista e com um prefácio; edição aumentada; edição aumentada, emendada e com um prefácio; edição refundida; edição refundida e aumentada; edição remodelada; edição revista; edição revista, aumentada e com um prefácio.

   Segundo sua filha, Clara Crabbé Rocha, Torga reescreveu e reviu os seus textos até aos últimos momentos, mesmo no leito do hospital. Tal reescrita fica patente quando efectuamos uma leitura comparada das várias edições de um mesmo título. Nos livros de contos, esta leitura comparada permite-nos, ainda, verificar que subsequentes edições integraram textos que não tinham sido publicados anteriormente. Também se verifica que alguns contos foram retirados e não voltaram a ser publicados. Dois contos, em particular, merecem especial atenção – Minério, publicado na 1.ª edição de Montanha (1941) e retirado de todas as edições portuguesas posteriores, e Firmeza, publicado nas primeiras edições de Novos Contos da Montanha (1.ª edição, 1944) e definitivamente ausente a  partir da 5.ª edição (1952). 

   Estes contos são particularmente interessantes porque representam um claro paradigma da literatura neo-realista de Torga, sendo também narrativas contemporâneas da génese do próprio neo-realismo. É um pressuposto da literatura torguiana a sua independência relativamente a movimentos literários, mas estes contos demonstram que essa asserção apenas é válida para uma classificação global da sua obra. Pontualmente, Torga produziu textos que se inseriam nos movimentos da época. Tendo colaborado na revista Presença e tendo produzido textos como este dois contos, na altura em que estas eram as vanguardas em Portugal, Torga demonstra-nos que a afirmação de Jorge de Sena, classificando-o de "suficientemente não moderno para agradar a toda a gente", será uma opinião muito pessoal e contestável. É claro que Sena poderia estar a referir-se apenas à poesia torguiana, mas tal não está implícito no contexto deste comentário endereçado a Sophia de Mello Breyner. 

   O conto Minério aborda as condições de  trabalho nas minas e as relações entre trabalhadores e patronato, uma temática que se inseria na actualidade da época e na exploração das minas de volfrâmio que alimentavam as indústrias bélicas da II Grande Guerra.

   O conto Firmeza relata uma realidade que, apesar de rural, não se afasta da temática da luta de classes.

   Transcrevem-se abaixo alguns parágrafos deste conto, retirados da 1.ª edição:

 

 

   "– E deixais-lhe estragar o pão?

   – Pois deixamos... Que nos importa a nós o pão dêle?! Colhe-o, enferrolha-o na tulha, e a gente se o quiser tem de lho pagar a oiro...

   – Mas é pão!

   – Sim, e que tem lá isso?"

 

   (...)

 

   "A trovoada continuava cada vez mais forte, e os raios abriam na noite negra rápidos clarões deslumbradores.

   O Joaquim Lontra, então, desceu a rua, chegou perto da casa, torceu à esquerda, e pelo caminho mais curto foi à eira. Lá, entrou no coberto, e do bolso das calças que não estava molhado tirou o isqueiro, fêz lume e chegou-o a um dos molhos. Depois voltou serenamente a casa pelo mesmo caminho.

   – Fogo! Fogo! – gritava daí a pouco tôda a gente.

   Mas o raio que caíra no palheiro escolhera o melhor sítio. Quando a trovoada amainou e a aldeia em pêso pode acudir, todo o barracão tinha sido devorado pelo incêndio."

 

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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007

Gaibéus

 

Ilustração de Antero Ferreira (datas desconhecidas) para a capa de Gaibéus (1939; 2.ª edição, 1941), de Alves Redol (1911-1969).

 

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Centenário do Nascimento de Manuel Ribeiro de Pavia

Ilustração para a capa de Gaibéus (1.ª edição, 1939; presente edição, 1948) de Alves Redol (1911-1969).

 

   Ao longo deste ano comemora-se o centenário do nascimento de Manuel Ribeiro de Pavia (Pavia, concelho de Mora, 19 de Março de 1907 - Lisboa, 19 de Março de 1957). 

 

Reprodução da ilustração anterior, publicada postumamente na capa da revista Vértice, número 258, de Março de 1965.

 

   O município de Mora celebrará este centenário com uma exposição itinerante da sua obra, a partir de Outubro, e com a edição de um livro sobre o artista, em Dezembro.

 

 

Capa e ilustrações para Retalhos da Vida de um Médico (1949), de Fernando Namora (1919-1989).

(Ver a capa da 5.ª edição em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/11140.html.)

 

   

 

Durante as próximas semanas, divulgar-se-ão regularmente  algumas ilustrações deste autor, com exemplos que variam entre um belíssimo lirismo gráfico, como aquele ilustrado ontem, e um protagonismo vigoroso, fundamental, e igualmente belíssimo (veja-se a ilustração para a capa de Vila Adormecida, dentro de duas semanas) no grafismo neo-realista.

 

 

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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

Arte Gráfica em Portugal - Século XX

 

Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

Desenhos para Cantigas de Circunstância (1948; presente edição, 1949), de Armindo Rodrigues (1904-1993).

 

 

 

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Sábado, 28 de Julho de 2007

Sem Comentários - Panorama

 

Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), ilustração para a capa da revista Panorama, número 27, (sem indicação de mês), 1946.

 

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