Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Autógrafos - César dos Santos

 

César dos Santos (1907-1974), Neblina (1956).

Ilustração para a capa de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

 

César dos Santos (1907-1974).

   Jornalista, ensaísta e ficcionista, César dos Santos escreveu várias crónicas e reportagens sobre Lisboa. A sua atenção recaíu também sobre o Oriente e o Japão, sendo autor de O Japão na História, na Literatura e na Lenda (1943), O Japão Através da sua Literatura (1945) e Viagens Maravilhosas às "Terrras do Céu" (1949).

   Durante a década de 1950, tal como acontece em Neblina, ainda anunciou a entrada no prelo de um conjunto de manuscritos intitulados Homens que Trocaram a Alma: I – Lafcadio Hearn; II – Venceslau de Morais (3 vols.), mas não existe registo da sua efectiva publicação.

   Do seu livro de contos Neblina, transcreve-se um parágrafo de 'Sol Escondido':

 

   "Era bem o farrapo de uma vida ao sabor do acaso, uma mulher que ainda não dobrara a curva para a vertente, mas em plena decadência. Flexível, quase aérea, de linhas correctas, formas delicadas, que teriam sido perfeitas antes de maceradas e poluídas pelos dominadores brutais, pelas sofreguidões e os sádicos apetites de embarcadiços exasperados na solidão errante, acirrados pela bebida, era de uma beleza triste, meiga e atraente, ao mesmo tempo submissa e perversa. Sob a aparência dolorida, de desconsolo, de lamentável abandono, de insensibilidade, o que quer que fosse de indizível e imperiosa atracção sexual, como o fremir da sensualidadae doentia, da languidez mórbida dos temperamentos voluptuários, ardentes, impulsivos, de excessiva temperamentalidade, transmitia uma forte e acaroçoadora sedução amorosa, apesar do estigma do vício, do grotesco do traje, do canalhismo adquirido no contacto com a fauna depravada e o meio degradante. Mas os olhos, insondáveis profundidades de mistério de onde poderia irromper o vulcão das paixões violentas e trágicas, tinham uma expressão de magoada doçura que enternecia; e na transparência desses oceanos de angústia e lágrimas represadas havia candura, delicadeza, o poético enlevo das almas femininas, emotivas, gentis e sonhadoras." 

 

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Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

... Wenceslau de Moraes, do Japão!

 

Aspectos do interior da casa de Wenceslau de Moraes, em Tokushima, pouco depois da sua morte. Fotografias publicadas no magazine Civilização, número 19, de Janeiro de 1930.

 

 

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Ah! Wenceslau de Moraes...

 

Aspectos do interior da casa de Wenceslau de Moraes, em Tokushima, pouco depois da sua morte. Fotografias publicadas no magazine Civilização, número 19, de Janeiro de 1930.

 

 

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Ainda Wenceslau de Moraes

 

Capa de Alfredo de Moraes (1872-1971) para a 1.ª edição de Serões no Japão (1926).

 

 

Capa da 2.ª edição de O Bon-odori em Tokushima (1936).

 

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Terça-feira, 31 de Julho de 2007

Bibliografia sobre Wenceslau de Moraes

 

  

 

   A bibliografia sobre Wenceslau de Moraes não tem aumentado significativamente nas últimas décadas, embora se tenham efectuado algumas reedições da sua obra. De entre estas reedições, são de particular interesse as realizadas na década de 1970, devido às introduções e notas de Armando Martins Janeira (1914-1988).

   Entusiasta da obra do autor, Martins Janeira escreveu Japanese and Western Literature (Tuttle, 1970)  e O Jardim do Encanto Perdido (1956), obra que foi traduzida para Japonês (Yoake no Shirabe, Tokyo, 1969; Minako Nonoyama, tradutor) e apresenta aquela que ainda hoje é considerada  a mais completa biografia de Wenceslau de Moraes.

 

   

 

   Na década de 1930 apareceram duas importantes biografias de Wenceslau  - O Exilado de Tokushima, texto inserido no volume Visões da China (1933), de Jaime do Inso (1880-1967), e Os Amores de Wenceslau de Morais (1937), por Ângelo Pereira (1886-1975) e Oldemiro César (1884-1953). Estes volumes apresentam, ainda, correspondência de Wenceslau de Moraes.

   Entre outras obras, a epistolografia do autor está ainda reunida em Cartas Íntimas (1944), publicadas por Ângelo Pereira e Oldemiro César, Cartas do Japão (1.ª série, 1977), publicadas por Martins Janeira, e Do Kansai a Shikoku (1988), compilação da correspondência enviada a Carlos e Maria Joaquina Campos, publicada por Jorge Dias (1907-1973).

   A biografia publicada neste blog ao longo das últimas semanas baseou-se essencialmente nos dois volumes da década de 1930 e na compilação de Jorge Dias, que serviram também de fonte iconográfica para as imagens reproduzidas.

 

   

 

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Wenceslau de Moraes do Japão

 

   Em Paisagens da China e do Japão (1906; 2.ª edição, 1938), no capítulo A Primavera, dedicado a Camilo Pessanha (1867-1926), escreveu Wenceslau de Moraes:

 

   "Ha alguns dias, na cidade de Kobe, – poderia precisar o dia, e quasi a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, – irrompeu a Primavera. Irrompeu: não ha sombra de exagero no vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um pulo, fez explosão. N'este paiz do Sol Nascente, onde o sol, e com elle todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens – se assim posso expressar-me – uns selvagens sem freio, sem noção das conveniencias, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte qualquer da nossa Europa: n'este paiz do Sol Nascente, ia eu dizendo, a creação inteira apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.

   Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio tra[n]sborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma convulsão subterranea abala o solo..."

 

Tamon-dori, Kobe. Kobe, 12 de Setembro de 1911 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Turcifal, Torres Vedras.

 

   Já em Os Serões no Japão (1926; 2.ª edição, 1973), no capítulo intitulado A Paisagem Japonesa, escreveu:

 

   "As florescências, naturalmente, imprimem particulares feitiços, embora efémeros, aos cenários. Em Fevereiro e Março, são as flores de ameixieira que tornam certos sítios aprazíveis. Em Abril, são as flores de pessegueiro, de cerejeira, de colza; Yoshino, Arashiyama, por exemplo, são famosas pelas suas cerejeiras. Seguem-se as flores das glicínias, das azáleas, das íris. Em Julho, são as alvas e as róseas flores de lótus, a emergirem dos charcos, das lagoas; a gente vai ouvir pela madrugada, o estranho – path! – o estalido das pétalas do lótus, no momento em que as corolas desabrocham. Em Novembro, não há flores; mas são as folhas do arvoredo que então se coloram de tonalidades brilhantíssimas; as folhas de momiji, em especial, atingem estupendas gradações, que vão do amarelo de ouro ao carmesim, ao rubro esbraseado; em Arashiyama, em Minô, em Takaó, em Shin-Takaó, na alcantilada Arima e em mil outros lugares, a paisagem alcança tons de apoteose, com a qual o povo, em magotes, se deleita. E, no entretanto, o outono é, como dizem os japoneses, inki, melancólico: – a grandeza do dia diminui a olhos vistos, definha-se a vegetação, desnudam-se as árvores, caem as folhas e morrem os insectos; a paisagem estila uma tristeza lutuosa, que infiltra desolações nas almas sensitivas.

   Um dos grandes estímulos do cenário japonês é a neve, que lança alvos mantos de pureza sobre as costas das montanhas, e salpica de arremedos de florescência os próprios pinheiros, os bambus e outras árvores que nunca floresceram. A neve é adorada e adorável no Japão; ir ver cair a neve, pelos campos fora, em meses de Janeiro e de Fevereiro, é um dos passatempos desta gente. Conta-se que um antigo imperador, sofrendo em pleno estio, da nostalgia das nevadas, mandou cobrir de cetim branco uma colina inteira, que defrontava com as varandas do palácio."

 

Cherry Blossoms at Maruyama-park, Kyoto. Kobe, 7 de Setembro de 1912 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa (reendereçado para Azeitão).

 

   "Não esqueçamos o mar. O mar, pelas suas inúmeras modalidades imprevistas, pelo seu perpétuo arfar emocionante, pelos seus murmúrios, pelos seus choros, pelos seus risos, pelos seus gritos; o mar, com o seu cortejo de barcos e pássaros, com a sua labuta piscatória, é aqui, como em toda a parte, o potente feiticeiro das cenas imprevistas, que se gravam indeléveis na memória.

   Outros estímulos da paisagem residem nas estranhas aparências atmosféricas desta terra. Frequentemente, são os tons vaporosos das neblinas, os largos horizontes cor de pérola, donde emergem contornos indeisos, como de coisas sonhadas, mas não vistas; outras vezes, é o azul vívido, cintilante, do céu, de uma pureza incomparável. Juntemos as ruborizações crepusculares, os incêndios das nuvens extravagantes, os encantos do nascer e do pôr do sol, e do luar. A enumeração das oito belezas da província de Omi, Omi-kakkei, é instrutiva neste assunto. São elas: – vista do luar do outono, em Ishiyama; a neve pela tarde, em Hirayama; o pôr do sol, visto de Seta; o templo de Midera, à tarde, na ocasião de tocarem os sinos; a partida dos barcos, largando de Yabasé; o céu brilhante e a brisa, em Awasu; a chuva durante a noite, em Karasaki; os patos bravos, recolhendo a Karata.

   Mencionemos os bichos. Em Junho, a aparição dos pirilampos, em certas vizinhanças das ribeiras, vem dar grande prestígio à cena, atraindo a multidão dos visitantes. O coaxar das rãs, em meses estivais, torna queridos outros poisos. O zumbido, o canto, o grito de outros seres, a pesca também, darão fama a outros lugares." 

 

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Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (22)

 

Wenceslau de Moraes em 1859, aos cinco anos.

O já citado Jiro Yumoto, descreveu assim, em 1936, os objectos deixados por Wenceslau de Moraes: 

 

   "Determinou-se,  por ordem do Cônsul de Portugal, vender, depois do entêrro, os livros e objectos de sua predilecção, por êle deixados, os quais, pela generosidade dos Srs. Tanigoro Yamanouchi, Saburo Fujiaki e de outros, foram arrecadados para sempre na Biblioteca Prefeitural Kokei. Os principais dêsses objectos são os seguintes:

   Uma série de livros de leitura de Instrução Primária do Japão; História da Guerra Russo-Japonesa (Edição de Hakubunkwan, Tokio); Japão Magazine (todos os números do periodo de dez anos, desde o número inicial); uma colecção completa de obras em inglês de Yakumo Koizumi; centenas de livros e revistas em português, inglês e francês; um volume de anúncios das casas comerciais e Kobe; sete ou oito volumes de diversas qualidades de Nishiki (impressão xylográfica colorida, representando geralmente costumes do povo e païsagens; caricaturas de Hokusai; uma espada japonesa; um capacete de soldado, antigo; alguns objectos ornamentais de porcelana Kutaniyaka; moedas antigas; secretária e mesa de uso habitual; estante; quadros; objectos de arte; alguns kakemonos; e outros diversos artigos de uso doméstico."

  

 

Cherry Blossoms in Akasaka-mitsuke at Tokyo. Kobe, 7 de Maio de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa. Neste postal, Wenceslau referiu: "Espero amanhã aqui, vindo de Yokohama, o cruzador "Dona Amelia". Estou pois mto. ocupado. O "S. Gabriel" não tardará."

 

 

 

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Sexta-feira, 27 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (20)

 

   Projecto da década de 1930 para um museu dedicado a Wenceslau de Moraes, em Tokushima.

   Evocando em 1936 a morte do autor, escreveu Jiro Yumoto, da prefeitura de Tokushima:

 

   "Não são poucos os estrangeiros que estudam o Japão ou o louvam. Contudo, Moraes que, adquirindo perfeitamente o espírito nipónico, viveu como um verdadeiro japonês e muito louvou o Japão, investigando-o piedosamente, é mui distinto daqueles que querem escrever sôbre o Japão só com interêsse, observando-o superficialmente. Seria bom chamar-lhe Moraes do Japão, nascido em Portugal, em vez de chamar-lhe português.

   Moraes! Moraes! Wenceslau de Moraes do Japão!

   Que a tua alma descance em paz eterna no nosso Japão das cerejeiras que tanto amaste, em companhia das tuas queridas Ó-Yoné e Ko-Haru!"

 

 

Cherry Blossoms in Mint Office at Osaka. Kobe, 20 de Abril de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (19)

 

   Túmulo de Wenceslau de Moraes em Tokushima. Aparentemente, o autor faleceu de uma concussão craniana seguida de hemorragia, no seu jardim, durante a noite de 1 de Julho de 1929. No funeral que sucedeu à sua cremação, realizado dois dias depois do seu falecimento, estiveram presentes o governador da província, o presidente da câmara de Tokushima, o superintendente da polícia, o representante de Portugal, o cônsul de Itália, alunos e professores das escolas de Tokushima e várias outras personalidades. As suas cinzas juntaram-se às de Ó-Yoné. A família de Ko-Haru não permitiu que as cinzas de esta repousassem no mesmo túmulo. Eventualmente, por razões de relacionamento pessoal e afectivo entre as três personagens, desconhecidas dos biógrafos de Wenceslau de Moraes, ou simplesmente porque o autor continuava a ser para eles um estrangeiro, um marginal, um gaijin...

 

Cherry Blossom at Noge Hill, Yokohama. Kobe, 28 de Fevereiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

   Sobre a sua correspondência com  Maria Joaquina, declarou Wenceslau ao seu amigo Carlos Campos, em carta datada de 6 de Março de 1910:

 

   "Não, não é namoro. É, como tu dizes, bilhete para cá bilhete para lá, troca de retratos, mas não é namoro. Pela minha parte, é a mysteriosa attracção que existe entre os que se sentem morrer e os que se sentem viver, certamente com um bocado de egoismo, o de deixar o nosso nome na memoria de pessoas Amigas. Não mostres esta carta à Maria Joaquina; ella não quer que eu esteja triste e eu não posso fazer-lhe a vontade. Ella não quer muitas coisas; também não gosta que eu lhe falle no chapeu muito grande, á moda, e eu ainda ha pouco voltei ao assumpto; diz-lhe que foi por brincadeira e que não se zangue commigo.

   A verdade, meu caro, é que eu fiquei-te muito grato, quando tu tiveste  artes de ressuscitar a nossa velha amizade, ha uns 10 ou 11 annos; e quando me disseste que tinhas duas filhas, fiquei logo encantado com ellas. Quero-lhes muito e desejo-lhes mil bens. Quanto à Maria Joaquina, é bom que lhe faças vêr que não deve exaggerar os meus meritos, nem tão pouco os meritos dos meus livros, que bem poucos têem; quanto a confiança pela amizade que lhe tenho, pode crêr n'ella incondicionalmente; pode estar certa de que n'este cabo do mundo ha um Nicolau que muito lhe quer."

 

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Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (18)

 

   Túmulos de Ó-Yoné e Ko-Haru, em Tokushima. Em Ó-Yoné e Ko-Haru (1923) Wenceslau de Moraes conclui assim o relato da sua visita, com Ó-Yoné, ao túmulo de Atsumori, a 20 de Junho de 1912:

 

   "Antes de nos despedirmos do logar, visitamos uma pequena venda próxima, onde uma amavel creatura offerece aos peregrinos certas refeições especiaes, em honra de Atsumori, de mistura com outras curiosidades do local. Ó-Yoné provou os acepipes e comprou pecegos deliciosos, comendo logo um, offerecendo-me outro e levando o resto para casa, rindo, feliz do seu passeio."

 

   Ó-Yoné veio a falecer a 20 de Agosto de 1912, tendo sido cremada em Kasugano, Kobe. Na sua pedra tumular foi gravada a seguinte inscrição: KAIMYO. Piedosa mulher – comparável a um vaso precioso de dizeres. Ko-Haru, tuberculosa, faleceu a 2 de Outubro de 1916 no hospital do dr. Kokawa, para onde entrara a 12 de Agosto. Sobre os últimos momentos desta musumé, e o legado de um anel de oiro que ela fez a sua mãe, escreveu Wenceslau de Moraes na supracitada obra: 

 

   "Ah! aquelle annel!... Tragica historia tinha aquelle annel!... Aquelle annel, comprado por mim havia vinte annos n'uma ourivesaria de Osaka, pertencera a outro dedo, a outra mulher [Ó-Yoné]. Fui eu quem o arrancou, ha quatro annos, a esse outro dedo, quando não era mais do que um dedo hirto, gelado, de um cadaver; e offereci-o a Ko-Haru que acabava de prestar cuidados piedosos ao corpo de uma morta querida, que ia seguir para o crematório... E agora Ko-Haru, moribunda, dispunha da unica joia que possuia, o annel de oiro, e enviava-a á mãe.

   Tragica historia a do annel, não é verdade?..."

 

   O epitáfio de Ko-Haru apresenta a seguinte inscrição: Piedosa mulher. Comparável a um magnífico quadro, traçado por um pincel primoroso e oferecido, como ex-voto, aos deuses.

 

 

Ikuta Shrine, Kobe. Kobe, 23 de Fevereiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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