Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Ainda Wenceslau de Moraes

 

Capa de Alfredo de Moraes (1872-1971) para a 1.ª edição de Serões no Japão (1926).

 

 

Capa da 2.ª edição de O Bon-odori em Tokushima (1936).

 

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Terça-feira, 31 de Julho de 2007

Bibliografia sobre Wenceslau de Moraes

 

  

 

   A bibliografia sobre Wenceslau de Moraes não tem aumentado significativamente nas últimas décadas, embora se tenham efectuado algumas reedições da sua obra. De entre estas reedições, são de particular interesse as realizadas na década de 1970, devido às introduções e notas de Armando Martins Janeira (1914-1988).

   Entusiasta da obra do autor, Martins Janeira escreveu Japanese and Western Literature (Tuttle, 1970)  e O Jardim do Encanto Perdido (1956), obra que foi traduzida para Japonês (Yoake no Shirabe, Tokyo, 1969; Minako Nonoyama, tradutor) e apresenta aquela que ainda hoje é considerada  a mais completa biografia de Wenceslau de Moraes.

 

   

 

   Na década de 1930 apareceram duas importantes biografias de Wenceslau  - O Exilado de Tokushima, texto inserido no volume Visões da China (1933), de Jaime do Inso (1880-1967), e Os Amores de Wenceslau de Morais (1937), por Ângelo Pereira (1886-1975) e Oldemiro César (1884-1953). Estes volumes apresentam, ainda, correspondência de Wenceslau de Moraes.

   Entre outras obras, a epistolografia do autor está ainda reunida em Cartas Íntimas (1944), publicadas por Ângelo Pereira e Oldemiro César, Cartas do Japão (1.ª série, 1977), publicadas por Martins Janeira, e Do Kansai a Shikoku (1988), compilação da correspondência enviada a Carlos e Maria Joaquina Campos, publicada por Jorge Dias (1907-1973).

   A biografia publicada neste blog ao longo das últimas semanas baseou-se essencialmente nos dois volumes da década de 1930 e na compilação de Jorge Dias, que serviram também de fonte iconográfica para as imagens reproduzidas.

 

   

 

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Wenceslau de Moraes do Japão

 

   Em Paisagens da China e do Japão (1906; 2.ª edição, 1938), no capítulo A Primavera, dedicado a Camilo Pessanha (1867-1926), escreveu Wenceslau de Moraes:

 

   "Ha alguns dias, na cidade de Kobe, – poderia precisar o dia, e quasi a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, – irrompeu a Primavera. Irrompeu: não ha sombra de exagero no vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um pulo, fez explosão. N'este paiz do Sol Nascente, onde o sol, e com elle todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens – se assim posso expressar-me – uns selvagens sem freio, sem noção das conveniencias, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte qualquer da nossa Europa: n'este paiz do Sol Nascente, ia eu dizendo, a creação inteira apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.

   Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio tra[n]sborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma convulsão subterranea abala o solo..."

 

Tamon-dori, Kobe. Kobe, 12 de Setembro de 1911 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Turcifal, Torres Vedras.

 

   Já em Os Serões no Japão (1926; 2.ª edição, 1973), no capítulo intitulado A Paisagem Japonesa, escreveu:

 

   "As florescências, naturalmente, imprimem particulares feitiços, embora efémeros, aos cenários. Em Fevereiro e Março, são as flores de ameixieira que tornam certos sítios aprazíveis. Em Abril, são as flores de pessegueiro, de cerejeira, de colza; Yoshino, Arashiyama, por exemplo, são famosas pelas suas cerejeiras. Seguem-se as flores das glicínias, das azáleas, das íris. Em Julho, são as alvas e as róseas flores de lótus, a emergirem dos charcos, das lagoas; a gente vai ouvir pela madrugada, o estranho – path! – o estalido das pétalas do lótus, no momento em que as corolas desabrocham. Em Novembro, não há flores; mas são as folhas do arvoredo que então se coloram de tonalidades brilhantíssimas; as folhas de momiji, em especial, atingem estupendas gradações, que vão do amarelo de ouro ao carmesim, ao rubro esbraseado; em Arashiyama, em Minô, em Takaó, em Shin-Takaó, na alcantilada Arima e em mil outros lugares, a paisagem alcança tons de apoteose, com a qual o povo, em magotes, se deleita. E, no entretanto, o outono é, como dizem os japoneses, inki, melancólico: – a grandeza do dia diminui a olhos vistos, definha-se a vegetação, desnudam-se as árvores, caem as folhas e morrem os insectos; a paisagem estila uma tristeza lutuosa, que infiltra desolações nas almas sensitivas.

   Um dos grandes estímulos do cenário japonês é a neve, que lança alvos mantos de pureza sobre as costas das montanhas, e salpica de arremedos de florescência os próprios pinheiros, os bambus e outras árvores que nunca floresceram. A neve é adorada e adorável no Japão; ir ver cair a neve, pelos campos fora, em meses de Janeiro e de Fevereiro, é um dos passatempos desta gente. Conta-se que um antigo imperador, sofrendo em pleno estio, da nostalgia das nevadas, mandou cobrir de cetim branco uma colina inteira, que defrontava com as varandas do palácio."

 

Cherry Blossoms at Maruyama-park, Kyoto. Kobe, 7 de Setembro de 1912 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa (reendereçado para Azeitão).

 

   "Não esqueçamos o mar. O mar, pelas suas inúmeras modalidades imprevistas, pelo seu perpétuo arfar emocionante, pelos seus murmúrios, pelos seus choros, pelos seus risos, pelos seus gritos; o mar, com o seu cortejo de barcos e pássaros, com a sua labuta piscatória, é aqui, como em toda a parte, o potente feiticeiro das cenas imprevistas, que se gravam indeléveis na memória.

   Outros estímulos da paisagem residem nas estranhas aparências atmosféricas desta terra. Frequentemente, são os tons vaporosos das neblinas, os largos horizontes cor de pérola, donde emergem contornos indeisos, como de coisas sonhadas, mas não vistas; outras vezes, é o azul vívido, cintilante, do céu, de uma pureza incomparável. Juntemos as ruborizações crepusculares, os incêndios das nuvens extravagantes, os encantos do nascer e do pôr do sol, e do luar. A enumeração das oito belezas da província de Omi, Omi-kakkei, é instrutiva neste assunto. São elas: – vista do luar do outono, em Ishiyama; a neve pela tarde, em Hirayama; o pôr do sol, visto de Seta; o templo de Midera, à tarde, na ocasião de tocarem os sinos; a partida dos barcos, largando de Yabasé; o céu brilhante e a brisa, em Awasu; a chuva durante a noite, em Karasaki; os patos bravos, recolhendo a Karata.

   Mencionemos os bichos. Em Junho, a aparição dos pirilampos, em certas vizinhanças das ribeiras, vem dar grande prestígio à cena, atraindo a multidão dos visitantes. O coaxar das rãs, em meses estivais, torna queridos outros poisos. O zumbido, o canto, o grito de outros seres, a pesca também, darão fama a outros lugares." 

 

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Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (22)

 

Wenceslau de Moraes em 1859, aos cinco anos.

O já citado Jiro Yumoto, descreveu assim, em 1936, os objectos deixados por Wenceslau de Moraes: 

 

   "Determinou-se,  por ordem do Cônsul de Portugal, vender, depois do entêrro, os livros e objectos de sua predilecção, por êle deixados, os quais, pela generosidade dos Srs. Tanigoro Yamanouchi, Saburo Fujiaki e de outros, foram arrecadados para sempre na Biblioteca Prefeitural Kokei. Os principais dêsses objectos são os seguintes:

   Uma série de livros de leitura de Instrução Primária do Japão; História da Guerra Russo-Japonesa (Edição de Hakubunkwan, Tokio); Japão Magazine (todos os números do periodo de dez anos, desde o número inicial); uma colecção completa de obras em inglês de Yakumo Koizumi; centenas de livros e revistas em português, inglês e francês; um volume de anúncios das casas comerciais e Kobe; sete ou oito volumes de diversas qualidades de Nishiki (impressão xylográfica colorida, representando geralmente costumes do povo e païsagens; caricaturas de Hokusai; uma espada japonesa; um capacete de soldado, antigo; alguns objectos ornamentais de porcelana Kutaniyaka; moedas antigas; secretária e mesa de uso habitual; estante; quadros; objectos de arte; alguns kakemonos; e outros diversos artigos de uso doméstico."

  

 

Cherry Blossoms in Akasaka-mitsuke at Tokyo. Kobe, 7 de Maio de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa. Neste postal, Wenceslau referiu: "Espero amanhã aqui, vindo de Yokohama, o cruzador "Dona Amelia". Estou pois mto. ocupado. O "S. Gabriel" não tardará."

 

 

 

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Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (21)

 

   Esta planta da casa de Wenceslau de Moraes, publicada em 1933, seguia-se a uma descrição dos hábitos do autor:

 

   "Wenceslau de Moraes tinha em casa, como os japonêses costumam ter, um oratório budista, e por detrás de uma imagem de Buda, poisando sobre uma flôr de lotus, a fotografia da sua última mulher querida; todos os dias ia ao cemitério Ohiyo-On-ji onde se demorava cêrca de uma hora falando em voz baixa em frente do túmulo de Ó-Yoné, enquanto brincava com as pedrinhas brancas que costumam vêr-se sobre os túmulos japonêses e noutros no Oriente."

 

   Esta referência discreta ao interior da habitação de Moraes contrasta com uma  descrição posterior, publicada em 1937:

 

   "A residência do escritor, pequena e modestíssima, compunha-se de rez-do-chão e um andar e dividia-se em três compartimentos estreitos e acanhados, onde as coisas mais estranhas se amontoavam, cobertas de pó, numa desordem e num abandôno singularmente contrastantes com o irrepreensível aceio dos interiores japoneses, a que tanta vêzes aludiu nos seus livros com sincera admiração e carinho.

   Na parede do quarto onde foi deposto o cadáver apareceu colado um velho pedaço de papel, de forma rectangular, já quási negro pela acção da luz, com os seguintes dizeres em português, japonês e inglês:

   Em caso de minha morte é meu desejo que o meu corpo seja cremado (sujeito a cremação) em Tokushima.

   Tokushima, 29 de Julho de 1913.

                                      Wenceslau de Moraes "

 

 

Cherry Blossoms in Komuro at Kyoto. Kobe, 2 de Maio de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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Sexta-feira, 27 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (20)

 

   Projecto da década de 1930 para um museu dedicado a Wenceslau de Moraes, em Tokushima.

   Evocando em 1936 a morte do autor, escreveu Jiro Yumoto, da prefeitura de Tokushima:

 

   "Não são poucos os estrangeiros que estudam o Japão ou o louvam. Contudo, Moraes que, adquirindo perfeitamente o espírito nipónico, viveu como um verdadeiro japonês e muito louvou o Japão, investigando-o piedosamente, é mui distinto daqueles que querem escrever sôbre o Japão só com interêsse, observando-o superficialmente. Seria bom chamar-lhe Moraes do Japão, nascido em Portugal, em vez de chamar-lhe português.

   Moraes! Moraes! Wenceslau de Moraes do Japão!

   Que a tua alma descance em paz eterna no nosso Japão das cerejeiras que tanto amaste, em companhia das tuas queridas Ó-Yoné e Ko-Haru!"

 

 

Cherry Blossoms in Mint Office at Osaka. Kobe, 20 de Abril de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (19)

 

   Túmulo de Wenceslau de Moraes em Tokushima. Aparentemente, o autor faleceu de uma concussão craniana seguida de hemorragia, no seu jardim, durante a noite de 1 de Julho de 1929. No funeral que sucedeu à sua cremação, realizado dois dias depois do seu falecimento, estiveram presentes o governador da província, o presidente da câmara de Tokushima, o superintendente da polícia, o representante de Portugal, o cônsul de Itália, alunos e professores das escolas de Tokushima e várias outras personalidades. As suas cinzas juntaram-se às de Ó-Yoné. A família de Ko-Haru não permitiu que as cinzas de esta repousassem no mesmo túmulo. Eventualmente, por razões de relacionamento pessoal e afectivo entre as três personagens, desconhecidas dos biógrafos de Wenceslau de Moraes, ou simplesmente porque o autor continuava a ser para eles um estrangeiro, um marginal, um gaijin...

 

Cherry Blossom at Noge Hill, Yokohama. Kobe, 28 de Fevereiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

   Sobre a sua correspondência com  Maria Joaquina, declarou Wenceslau ao seu amigo Carlos Campos, em carta datada de 6 de Março de 1910:

 

   "Não, não é namoro. É, como tu dizes, bilhete para cá bilhete para lá, troca de retratos, mas não é namoro. Pela minha parte, é a mysteriosa attracção que existe entre os que se sentem morrer e os que se sentem viver, certamente com um bocado de egoismo, o de deixar o nosso nome na memoria de pessoas Amigas. Não mostres esta carta à Maria Joaquina; ella não quer que eu esteja triste e eu não posso fazer-lhe a vontade. Ella não quer muitas coisas; também não gosta que eu lhe falle no chapeu muito grande, á moda, e eu ainda ha pouco voltei ao assumpto; diz-lhe que foi por brincadeira e que não se zangue commigo.

   A verdade, meu caro, é que eu fiquei-te muito grato, quando tu tiveste  artes de ressuscitar a nossa velha amizade, ha uns 10 ou 11 annos; e quando me disseste que tinhas duas filhas, fiquei logo encantado com ellas. Quero-lhes muito e desejo-lhes mil bens. Quanto à Maria Joaquina, é bom que lhe faças vêr que não deve exaggerar os meus meritos, nem tão pouco os meritos dos meus livros, que bem poucos têem; quanto a confiança pela amizade que lhe tenho, pode crêr n'ella incondicionalmente; pode estar certa de que n'este cabo do mundo ha um Nicolau que muito lhe quer."

 

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Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (18)

 

   Túmulos de Ó-Yoné e Ko-Haru, em Tokushima. Em Ó-Yoné e Ko-Haru (1923) Wenceslau de Moraes conclui assim o relato da sua visita, com Ó-Yoné, ao túmulo de Atsumori, a 20 de Junho de 1912:

 

   "Antes de nos despedirmos do logar, visitamos uma pequena venda próxima, onde uma amavel creatura offerece aos peregrinos certas refeições especiaes, em honra de Atsumori, de mistura com outras curiosidades do local. Ó-Yoné provou os acepipes e comprou pecegos deliciosos, comendo logo um, offerecendo-me outro e levando o resto para casa, rindo, feliz do seu passeio."

 

   Ó-Yoné veio a falecer a 20 de Agosto de 1912, tendo sido cremada em Kasugano, Kobe. Na sua pedra tumular foi gravada a seguinte inscrição: KAIMYO. Piedosa mulher – comparável a um vaso precioso de dizeres. Ko-Haru, tuberculosa, faleceu a 2 de Outubro de 1916 no hospital do dr. Kokawa, para onde entrara a 12 de Agosto. Sobre os últimos momentos desta musumé, e o legado de um anel de oiro que ela fez a sua mãe, escreveu Wenceslau de Moraes na supracitada obra: 

 

   "Ah! aquelle annel!... Tragica historia tinha aquelle annel!... Aquelle annel, comprado por mim havia vinte annos n'uma ourivesaria de Osaka, pertencera a outro dedo, a outra mulher [Ó-Yoné]. Fui eu quem o arrancou, ha quatro annos, a esse outro dedo, quando não era mais do que um dedo hirto, gelado, de um cadaver; e offereci-o a Ko-Haru que acabava de prestar cuidados piedosos ao corpo de uma morta querida, que ia seguir para o crematório... E agora Ko-Haru, moribunda, dispunha da unica joia que possuia, o annel de oiro, e enviava-a á mãe.

   Tragica historia a do annel, não é verdade?..."

 

   O epitáfio de Ko-Haru apresenta a seguinte inscrição: Piedosa mulher. Comparável a um magnífico quadro, traçado por um pincel primoroso e oferecido, como ex-voto, aos deuses.

 

 

Ikuta Shrine, Kobe. Kobe, 23 de Fevereiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

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Terça-feira, 24 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (17)

 

Vista panorâmica de Tokushima. Num postal endereçado a Maria Joaquina Campos em 18 de Agosto de 1913, Wenceslau de Moraes declarava: "Estou aqui [em Tokushima] em ferias, descançando; as cartas pª Kobe são-me aqui enviadas." Dois meses depois, num postal para a mesma destinatária, datado de 8 de Outubro,  já abordava claramente a sua situação:

 

   "Quer a minha Fidalguinha que eu lhe dê notícias minhas e da minha nova situação, que não percebe. Eu lhe conto, em poucas palavras. Eu andava ha muito tempo cahido em profundo abatimento, moral e physico, sem forças pª exercer o meu cargo e com um profundo aborrecimento por tudo, por todos e por mim mesmo. N'estas condições, fiz o melhor que tinha a fazer – retirei-me da scena. – Pergunta-me qual é a minha situação. Nenhuma; e desde setº, exonerado de tudo a meu pedido, não recebo do Governo um só real. Não sou nada e não tenho nada. Mas não fique com cuidado em mim: possuo recursos sufficientes para viver uma vida modestissima, que é a que mais me convem, n'este canto de provincia japoneza pª onde me retirei. Agora, não me convinha ir a Portugal; mas espero ahi voltar dentro de poucos annos, para resolver definitivamente o que devo fazer; e então terei a grande ventura de abraçal-a." 

 

 

Beach of Suma Near Kobe. Kobe, 8 de Janeiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

   Neste postal, Wenceslau de Moraes refere-se a Ó-Yoné nos seguintes termos: "Quanto à minha cosinheira, Yone-san, ainda cá a tenho, sim; por signal, q cosinha bem mal." A inicial manuscrita visível na frente, que parece corresponder a um "W", corresponde na verdade a um "N", de Nicolau, designação afectuosa com que assinava os postais para esta sua correspondente.

 

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Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Fotobiografia de Wenceslau de Moraes (16)

 

   Wenceslau de Moraes acompanhado de Ko-Haru, a mãe desta, Saito Yuki e as suas duas irmãs, Maruyé e Chyo-Ko. Logo após a morte de Ó-Yoné, Wenceslau mudou-se para Tokushima, passando a viver na rua Igamachi, acompanhado de uma sobrinha de Ó-Yoné, Ko-Haru Saitó. Sobre esta musumé pode ler-se a seguinte passagem, em Ó-Yoné e Ko-Haru (1923):

 

   "Era uma rapariga de Tokushima, de certo modo um vulto popular no bairro Tomidá, onde nasceu, onde cresceu, onde brincou, onde garotou, onde por ultimo certamente namorou; isto, durante vinte e trez anos a seguir – pois não foi mais além a sua existência de  garota – salvo um periodo de trez annos, durante os quaes esteve em Kobe, servindo como creada em minha casa. Vinte e trez annos apenas! Bem posto o nome de Ko-Haru, que nos traz logo á lembrança uma ephemera pseudo-primavera, que surge e passa breve..."

 

   Ko-Haru faleceu de tuberculose, em Outubro de 1916, no hospital Kokowa, em Tokushima.

 

 

The Tomb of Atsumori in Sumadera, Suma. Kobe, 7 de Janeiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.

 

   O último passeio que Ó-Yoné deu com Wenceslau de Moraes foi neste local, a 20 de Junho de 1912. Sobre essa visita, pode ler-se a seguinte passagem no supracitado livro:

 

   "Pouco a pouco, fômo-nos familiarizando com o logar a ponto de poisarmos, n'um gesto de caricia, as nossas mãos sobre o granito. E não era inteiramente banal – permitta-se-me que o confesse – o espectaculo que offereciam as nossas duas mãos amigas – a minha rude mão, quasi disforme, de loiro homem grande da Europa, a mão mimosa e miudinha d'aquella delicada filha do Nippon – afagando a epiderme escamosa e parda d'aquellas pedras tumulares..."

 

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