Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

H. M. The Late King of Portugal

 

H. R. H. PRINCESS VICTORIA. H. M. QUEEN OF PORTUGAL. H. R. H. PRINCESS ROYAL. H. M. THE LATE KING OF PORTUGAL [Sua Majestade, o defunto rei de Portugal]. H. M. QUEEN ALEXANDRA.

Bilhete postal circulado localmente em Southport, Inglaterra, a 13 de Março de 1908.

Edição de J. Beagles & Co., fotografia de W. S. Stuart, Richmond.

 

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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Ultimato, Literatura e Regicídio

Guerra Junqueiro (1850-1923), bilhete postal do início da década de 1910, editado por Rocha, Lisboa.

 

   O Ultimato que a Inglaterra apresentou a Portugal em Janeiro de 1890 marcou indelevelmente o período que se seguiu à aclamação de D. Carlos I (1863-1908; rei, 1889-1908), surgindo como um presságio de todas as dificuldades que iriam marcar o seu reinado.

   Numerosos intelectuais e artistas manifestaram o seu desagrado perante a actuação do governo português ao longo desta crise e dos momentos que se seguiram. Alfredo Keil (1850-1907) e Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931) compuseram logo nesse ano o hino A Portuguesa, que haveria de se tornar o hino nacional após 1910. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) iniciou a produção das suas famosas cerâmicas anti-britânicas, no seguimento das caricaturas de sua autoria que já vinham abordando a situação colonial em África desde há alguns anos.

   Guerra Junqueiro (1850-1923) publicou também nesse ano Finis Patriae, um livro cujo título encerra um manifesto em si mesmo. Aí se incluía o fragmento À Inglaterra, um texto escatologicamente frontal, composto logo em Fevereiro de 1890. As duas primeiras estrofes são suficientemente eloquentes sobre o tom do poema:

 

"Ó cínica Inglaterra, ó bêbeda impudente,

Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?

Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,

Repartindo por todo o escuro continente

A mortalha de Cristo em tangas d'algodão.

 

Vendes o amor ao metro e a caridade às jardas,

E trocas o teu Deus a borracha e marfim,

Reduzindo-lhe o lenho a cronhas [sic] d'espingardas,

Convertendo-lhe o corpo em pólvora e bombardas,

Transformando-lhe o sangue em águarrás e gim!"

 

 

 

   Três anos depois, Delfim Guimarães (1872-1933) publicou Confidências (1894), um livro onde perpassa ainda o sentimento anti-britânico mas onde se apontam essencialmente as debilidades que dilaceravam a sociedade portuguesa. Os extractos dos sonetos que a seguir se transcrevem deixam bem clara a situação deplorável em que o país se encontrava:

 

"SEM PÁTRIA

 

I

 

Se tu voltar puderas, meu poeta,

A contemplar a pátria decantada,

Havias de encontrá-la bem mudada.

De nobre que já foi tornou-se abjecta.

 

(...)

 

O pavilhão das quinas não batalha;

Faz hoje em dia o papel de toalha

Nas mesas avinhadas dos bretões...

 

(...)

 

 

V

 

O meu torrão natal!... Campos sem trigo...

Aldeias sem ninguém, despovoadas...

Tudo some o Brasil. Pelas estradas

Quantos entes sem pão, quanto mendigo!

 

(...)

 

VI

 

Aumenta a emigração! Barcos ingleses

Saem a barra em busca do Brasil,

Levando a bordo, aos cem, aos mil e mil

De robustos rapazes portugueses.

 

(...)

 

X

 

(...)

 

Desditoso país! Que vilipêndio!

Quanto melhor não fora que um incêndio,

Um pavoroso incêndio te arrasasse!...

 

Ó torpeza sem nome, ó vil torpeza!

A pátria de Camões, colónia inglesa,

A pátria de Camões, casa de passe!"

 

   Considerando que entretanto, a 31 de Janeiro de 1891, ocorrera a revolta republicana do Porto, considerando que em meados dessa década se travavam em África, particularmente em Moçambique, combates para controlar revoltas nos territórios sob administração portuguesa, considerando que a situação económica e financeira do pais se deteriorou gravemente no início do século XX, considerando que a emigração legal atingiu o seu máximo nos primeiros anos desse século, considerando a ditadura de João Franco (1855-1929), a censura à imprensa e todo o desencanto vivido nesse início de século, torna-se evidente que a teoria da conspiração, cuidadosamente preparada e organizada e com vastos apoios, para assassinar D. Carlos I se apresenta como perfeitamente plausível e lógica. Aliás, o simbolismo da própria data do regicídio não seria alheio a uma evocação revanchista do insucesso da revolta do Porto.

 

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