Terça-feira, 13 de Março de 2007

Um Testemunho Literário sobre a Tuberculose

A bordo do paquete Vera Cruz, entre o Brasil e Portugal, 1959.

O comandante, Paço d'Arcos, Ferreira de Castro e Austregésilo de Athayde.

 

   O escritor Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979) sobreviveu a esta doença, embora dois dos seus irmãos (Carlos Eugénio e Pedro) a ela tenham sucumbido. No terceiro volume das suas memórias, Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo (1979), o autor relata aspectos da tragédia que o atingiu a si e à sua família. Desse volume, transcrevem-se dois breves parágrafos, relativos ao ano de 1930:

 

   "Foi nas Pedras Salgadas que a minha noiva notou que eu andava febril. Consultado o termómetro evidenciou este que todas as tardes a minha temperatura subia a 37,5, 37,8. Regressei a Lisboa e sujeitei-me à mesma prova radiográfica que dois meses antes denunciara o grau avançado de doença do Carlos Eugénio. Não foi ela tão cruel para comigo como fora para o meu irmão primogénito. Infiltrações no vértice do pulmão esquerdo. Tuberculose incipiente, exigindo tratamento e repouso, mas não internamento sanatorial. Passei um mês junto da família na casa do Linhó, frente à serra de Sintra em que o meu olhar pousava, familiarizado desde a infância com o biombo verde e ondulado que nos escondia o mar.

   Daí transitei para a Casa de Saúde de Benfica, onde permaneci por três meses até ao final do ano. Como não estivesse ainda em fase contagiante da doença, foi-me permitido habitar a clínica especialmente consagrada à cirurgia, mas onde alguns convalescentes, como eu, utilizavam o dia inteiro, ao sol ou ao frio, as amplas e agradáveis varandas de cura. No vale, em cuja encosta a Casa de Saúde fora construída, só lá em baixo, junto à Estrada de Benfica, se erguiam edificações. Tudo o mais era ainda campo, de lavoura ou de pasto, e em frente de nós, estendidos horas sem fim na varanda, a meditar ou a ler, serpenteava uma estrada de terra batida, a trepar pela colina fronteira até ao Forte de Monsanto."

 

Enquanto presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, Março de 1961.

Cunha Leão, Jacques de Lacretelle, Paço d'Arcos e José Cardoso Pires.

 

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Segunda-feira, 12 de Março de 2007

Tuberculose

Preventório de Penacova, Coimbra, década de 1930 

 

   Henrique Pousão foi uma das muitas vítimas da tuberculose no século XIX. Milhares e milhares de portugueses anónimos morreram então com a tísica, o mal do século. Muitos outros não eram tão anónimos assim. O pintor Francisco Metrass (1825-1861) sucumbiu também a esta doença. Tal como os escritores Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho, 1839-1871), António Nobre (1867-1900), Soares de Passos (1826-1860), Cesário Verde (1855-1886) e o menos consagrado José Duro (1875-1899). Fernando Pessoa (1888-1935), contudo, sempre considerou este último um dos seus mestres para a obra heteronímica, juntamente com Cesário Verde.

   A tuberculose recebeu este nome em 1839, por intermédio de J. L. Schoenlein (1793-1864), que constatou ter esta doença múltiplos sintomas. No entanto, o bacilo só foi caracterizado em 1882 por Robert Koch (1843-1910), o qual veio a ser galardoado com o prémio Nobel da Medicina em 1905. A vacina surgiria em 1906, recebendo o nome, B.C.G., dos investigadores (Albert) Calmette (1863-1933) e (J.-M. Camille) Guerin (1872-1961).

 

Preventório de Penacova, Coimbra, década de 1930

 

   Em Portugal, tal como no resto da Europa, a doença ainda dizimava milhares de pessoas nos primeiros três decénios do século XX, pelo que a partir da década de 1930 se intensificou a implementação de sanatórios, preventórios e dispensários. Até 1974, os dispensários do I.A.N.T. constituíam uma visão comum na paisagem urbana portuguesa, embora tivessem servido essencialmente como centros de prevenção e vacinação nas últimas décadas do Estado Novo. À obra filantrópica do médico Bissaya Barreto (1886-1974) se ficou a dever o desenvolvimento de um vasto sistema de profilaxia e prevenção da doença nas Beiras, de que o preventório de Penacova é um dos múltiplos exemplos. Também à visão de Bissaya Barreto, que conjugava utopia com pragmatismo, se ficaram a dever o conjunto arquitectónico denominado Portugal dos Pequenitos, um projecto iniciado em 1938, da autoria do arquitecto Cassiano Branco (mencionado anteriormente no post: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/2007/03/06/), e a instituição da Fundação Bissaya Barreto (http://www.fbb.pt/).

 

Preventório de Penacova, Coimbra, década de 1930

 

   O Preventório de Penacova teve o seu edifício art déco renovado segundo um projecto de 1999. Reabriu em 2002 como unidade hoteleira, o Hotel Palacete do Mondego (http://www.palacete-penacova.net/), local de onde se desfruta uma magnífica panorâmica sobre o vale do rio Mondego.

   As imagens reproduzidas integram um conjunto de fotografias postais, de que se conhecem nove exemplares, editadas pela Junta da Província da Beira Litoral, Coimbra, na década de 1930. Os postais foram impressos na Alemanha.

 

Preventório de Penacova, Coimbra, década de 1930

 

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