Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Florbela Espanca

Desejos Vãos

 

Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

 

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até da morte!

 

Mas o Mar também chora de tristeza...

As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, braços, como um crente!

 

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

 

Florbela Espanca (1894-1930)

in Livro de Mágoas (1919)

publicado por blogdaruanove às 22:09
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