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Ago07

Miguel Torga (IV)

blogdaruanove

 

   Torga colaborou esporadicamente com algumas revistas literárias e culturais. Inicialmente colaborou na Presença (designada na Criação do Mundo como "Vanguarda"), a revista do segundo modernismo português, embora não tenha chegado a assumir em definitivo qualquer compromisso estilístico ou temático com os modelos literários hoje entendidos como sendo as premissas da Presença. Aliás, a insatisfação consigo próprio e com estas manifestações literárias levou Torga a fundar, logo após a sua dissidência da Presença, a revista Sinal ("Facho"), de breve existência, e, posteriormente, a revista Manifesto ("Trajecto"), igualmente de curta duração. Colaborou ainda com a efémera revista Litoral, que publicou o poema "Ciganos", um inédito na altura,  no seu primeiro número. Este foi o único texto de Torga saído nesta revista, que contava também com a colaboração de Branquinho da Fonseca (1905-1974), outro membro dissidente da Presença, em textos assinados quer com o seu ortónimo quer com o pseudónimo António Madeira.

   O poema "Ciganos" revela-se como uma belíssima celebração da liberdade individual, uma metáfora da dignidade e da integridade ética que Torga sempre assumiu. Surgiu numa época em que o autor já era escritor consagrado e... vigiado e perseguido pelo regime.

   Curioso é o facto de a angústia existencial do escritor estar aparentemente ausente deste poema, como se a literatura ganhasse nestes momentos difíceis as qualidades de ascese e catarse que a tornam a quinta essência de que o escritor necessita para ultrapassar as agruras do quotidiano.

   Excepcionalmente, devido aos direitos de autor vigentes, transcreve-se o poema na íntegra, de acordo com a versão de 1944:

 

CIGANOS

 

Tudo o que voa é ave.

Desta janela aberta,

A pena que se eleva é mais suave

E a fôlha que plana é mais liberta.

 

Nos seus braços azuis o ceu aquece

Todo o alado movimento.

É no chão que arrefece

O que não pode andar no firmamento.

 

Outro levante, pois, ciganos!

Outra tenda sem pátria mais além!

Deshumanos

São os sonhos também.

 

    Sinta-se agora a angústia exalada deste excerto de Santo e Senha, o poema que abre o primeiro volume de Diário (1941; transcrição retirada da 2.ª edição, 1942), a angústia de um Prometeu Agrilhoado que, apesar de tudo e de todos, insiste na sua demanda pessoal e no seu percurso solitário, um percurso que, quando não pode ser físico, é mental:

 

"Deixem passar quem vai na sua estrada.

Deixem passar.

Quem vai cheio de noite e de luar.

Deixem passar e não lhe digam nada.

 

(...)

 

Que vai cheio de noite e solidão.

Que vai ser

Uma estrela no chão."

 

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