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27
Set07

Manuel Ribeiro de Pavia

blogdaruanove

 

Ilustração para a capa de Porto Manso (2.ª edição, 1946), de Alves Redol (1911-1969).

 

   "A Morte jantou connosco. (Título

     de filme barato).

 

   O pintor Manuel Ribeiro de Pavia veio hoje jantar connosco. Um belo gaspacho à alentejana, preparado pela perícia de Rosalia.

   Em raras ocasiões o tenho visto tão exuberante, em delírio quase, como se só naquele instante tomasse consciência de quaquer libertação essencial.

   Falou pelos cotovelos, depois de engolir as costumadas vitaminas de que recheia sempre por prudência as algibeiras. "Para acumular reservas..." – explica. (Amostras grátis. Ofertas de médicos amigos.)

   – Sim senhor. Que admirável gaspacho!

   E ia levando a colher à boca com unção de satisfazer um gosto antigo preso à língua da infância.

   Em todo o caso não aderia com aplausos completos. A receita de gaspacho dele, Pavia, parecia-lhe melhor, muito melhor. Continha vários ingredientes gostosos, como lagartos, caracóis e pedaços de cobra. Além do que a fantasia pudesse arremessar lá para dentro!

   – Até botões de colarinho, não, Pavia? – exagerei.

   Mas ele, a rir muito, insistia com pertinácia no seu mirabolante gaspacho da meninice, com cobras.

   Reparei então, mais uma vez, nas mãos que despiram as aldeãs nas Líricas – e tanto impressionaram a  Maria Keil –, peludas, esguias, unhas longas... Mãos de bicho – onde não espanta que durmam estranhas forças secretas da natureza à espera do próximo princípio do mundo verdadeiro para nos maravilharem com criações instintivas.

   Por fim, à hora do café e do conhaque, o Pavia voltou a glosar, com convicção de seriedade maliciosa que toma nessas noites de convívio ardente, o plano monumental com que me molesta há meses. Nem mais nem menos do que a organização de um Comício Poético no Coliseu dedicado à minha poesia, com a sonhada colaboração de Maria Barroso e João Villaret.

   E eu, trémulo, a conspirar contra a ideia (Ah, comício nunca! nunca!):

   – Ó Pavia: um Comício Poético?... Mas como? Não teme que isso me cubra de ridículo?

   – Qual! Verá! Verá!

   (Não vi.)"

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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