Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

Portugal, os Portugueses e os Estrangeiros

 

"Agora vem a despropósito esta história

 verdadeira de um estrangeiro parvo.

 

   'W', o estrangeiro loiraço que vive há oito dias (oito) entre nós, declarou-se perturbado com a paisagem portuguesa dos homens e das coisas.

   – Talvez não exista no mundo povo mais dinâmico e ansioso de acção – decretou, superficial. – A verdade é que só tenho encontrado gente empenhada em projectos de hotéis, casinos, fábricas, armazéns... Estou positivamente encantado.

   Para não desviar o véu, respondi-lhe com a aprovação dúbia do meu melhor sorriso, evitando cair na atitude antipatriótica de lhe revelar que todos apreciamos imenso o Movimento e o Plano, com a condição de nos deixarem em paz na nossa poltrona de sossego, a fumar um cigarrinho de acção imaginada...

   Que bom conceber cidades de pedras impossíveis! Que bom narrar romances até o esmiuçamento dos mínimos episódios e concluir com vagar espreguiçado: 'Está completamente pronto. Só falta escrevê-lo.'

   Calei-me malicioso e, como se não tivesse qualquer propósito, narrei-lhe esta história que tanto apaixonou a pintora Ofélia Marques há 30, 40, 50, 100, 200, 500 anos de nuvens!

 

   Certa noite, numa aldeia do Alentejo, eu e vários amigos de ocasião, após uma noitada de fumo, sonho e delírio, resolvemos abalar no dia seguinte para Sevilha em excursão de pândega.

  Um dos futuros viajantes, proprietário do 'monte' mais próspero dos arredores, propôs-se abater o clássico borrego para a jornada. Outro prometeu meio pipo de vinho. E eu ofertei-me para o sacrifício de comer o borrego e beber o vinho.

   Durante o serão combinámos passeatas, visitas a catedrais, borgas e touradas. Entre clamores de 'viva la gratia!' e 'olés!' percorremos, com entusiasmo de sonho barulhento, as ruas de Sevilha, a atirar cravos vermelhos para os cabelos das niñas que acorriam às grades a saudar-nos com sacudidelas de ancas...

   Ficou tudo bem assente. Não olvidámos nenhum pormenor. Fizemos contas, somámos orçamentos e fixámos a hora de partida para as 8 da manhã. Às 8 em ponto. (Acertámos os relógios, com volúpia de estabelecer horários.)

   Depois, despedimo-nos e fomos para casa, felizes e zaranzas de tanta acção passiva.

   – E então? Grande paródia em Espanha, não? – quis saber o estrangeiro, com olhos a espevitarem a sequência da história.

   Fitei-o com ironia de lhe responder assim:

   – No dia seguinte ninguém compareceu no local marcado. Nem o homem do borrego, nem o dador do pipo, nem eu. E à tarde, quando nos encontrámos na botica da terra, nenhum dos excusionistas teóricos aludiu ao projecto gorado. Não se falou mais nisso. Era como se já tivéssemos dado o passeio noutro plano...

   O senhor esguiamente estrangeiro fitou-me, púrpuro de surpresa...

   ... enquanto eu ria, ria divertidíssimo do assombro daquele zarelho, tão convencido, momentos antes, de que bastaria chegar a Portugal para compreender logo tudo.

   Palerma!"

 

   in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1.ª edição, 1966; 3.ª edição, 1977).

 

publicado por blogdaruanove às 15:51
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De jawaa a 10 de Setembro de 2007 às 18:35
Já temos algo de positivo, somos coerentes.
Continuamos na mesma...
De blogdaruanove a 10 de Setembro de 2007 às 22:30
Ao longo dos tempos, a Torre do Tombo nunca teve apenas um único cronista, nem um único guardião exclusivo. Teve vários. Oficiais e oficiosos. Independentemente das suas opções políticas ou partidárias, José Gomes Ferreira foi um dos mais lúcidos desses cronistas do século XX. Sorte nossa...
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