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Nov07

Autógrafos - Vitório Káli

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Vitório Káli (António de Mesquita Brehm, n. 1927; outros pseudónimos: José Luís Conrado, Elizar Fontenarva), Jánika, O Livro da Noite e do Dia (1980).

 

 

   Tendo iniciado a sua carreira em 1943, com o romance Pólvora e Sangue, Vitório Káli atingiu notoriedade com o presente romance, galardoado com o prémio literário Círculo de Leitores e posteriormente traduzido em várias línguas.

   Seguiram-se-lhe Tupáriz e as Sementes do Céu (1988) e Terramoto (1992), mas o autor parecia já ter deixado de surpreender os leitores e, apesar de algumas traduções destas obras, os seus livros voltaram a cair na anonimidade que tinha caracterizado os seus textos das décadas de 1940 e 1950.

    O discurso narrativo de Vitório Káli permanece contudo inovador e os seus longos parágrafos, que remetem em parte para algum do discurso de James Joyce (1882-1941) e para a fluidez quase contínua da oralidade e também do pensamento reflexivo, desprezando a pontuação tradicional, parecem permitir estabelecer, hoje, um certo paralelismo estrutural com a iconoclastia discursiva de alguma ficção do seu contemporâneo José Saramago (n. 1922).

   De um parágrafo de Jánika, O livro da Noite e do Dia, que se prolonga por 21 páginas, transcreve-se um pequeno excerto:

 

   "(...) Fonteségura entrou na loja dos gravadores com aspecto terrível e nem a gentileza de Marília conseguiu demovê-lo da sua agressividade. Marília, que atendia ao balcão, chamou o gerente e a história foi mais uma vez denunciada. O gerente declarou logo à partida que as bobinas se vendiam seladas e a prova, acrescentou com ar de desafio, era que nunca uma coisa destas tivera lugar. Ouviu-se novamente a gravação  e o resultado foi o mesmo. O gerente perguntou se não haveria nas proximidades da experiência alguma personagem, mesmo que estivesse escondida, porque sempre poderia, por muito estranho que isto surja aos nossos olhos experimentados, ter ficado gravado um conjunto de sons distantes trazido pelo vento ou por alguma corrente eléctrica do espaço, enfim uma coisa destas assim. Mas não. Naquele sítio do Cerro das Almas Vagantes apenas se encontravam Fonteségura e eu. Mais ninguém. O gerente aconselhou que se fizesse nova tentativa no dia seguinte e no mesmo local e, se possível, à mesma hora. Deu-lhe uma nova bobina, também selada, olhou-o ainda desconfiado, aquele Fonteségura era mesmo um tipo esquisito com a mania dos pássaros, Marília abriu-se num sorriso de tipo profissional pois seria incapaz de meter-se na cama com ele e desta forma regressámos ao nosso laboratório. Nessa tarde, como de costume, voltámos ao Cerro. Fonteségura assegurou-me que ninguém estava por aqueles lados, eu deitei igualmente uma olhadela mais adiante, apenas os pinheiros se perdiam de vista até às margens de sinuosidades do rio Lis, o céu estava límpido como sempre acontece no verão de Leiria, e tão pouco se conseguia vislumbrar ao longe algum milhafre solitário na sua faina de escutar os segredos dos homens. Os pássaros olharam-nos com o seu ancestral interesse (é preciso aqui dizer que os pássaros nos vêem como outros tipos de sinais e que fazem a nossa identificação pelo modo que andamos ou falamos ou vestimos, tudo isto obedecerá a uma padronagem típica que os cientistas destes assuntos, Fonteségura inclusive, tratam desde há longos anos. Se não fosse isso torna-se evidente que o planteio de espantalhos de braços abertos nada significaria para os nossos bichos. A bem dizer, uma experiência foi recentemente efectuada por um abstruso conhecedor dos hábitos dos pássaros, o qual pensou provar que é a posição e a indumentária do espantalho que informam os pássaros acerca do significado de alerta que se pretende obter em casos específicos, foi mesmo o caso em que ele se dispôs a ficar durante três dias e duas noites com os braços abertos e vestido à pedinte português num terreno semeado de centeio, tendo observado que os pássaros vinham ali espreitá-lo e depois se pisgavam em grande velocidade) e vigiaram naturalmente os gestos do meu companheiro, julgo que já conheciam muito bem aqueles aparelhos de coisas redondas a girar como os óculos de lentes fortes que Fonteségura usava em operações semelhantes e me intrigavam sempre um pouco enquanto não entendi que, se ele era na realidade um especialista do ouvido, os sons captados apenas se tornavam inteligíveis quando reconvertidos em imagens visuais, isto levou-me a pensar muitas vezes naquele velho ditado de Heidegger sobre a função da visão humana, afinal todos nós descobrimos o mundo com os olhos mesmo que sejamos cegos, (...)"

 

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