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Jan08

Autógrafos - Helena Marques

blogdaruanove

 

Helena Marques (n. 1935), A Deusa Sentada (1994; presente edição, 3.ª, 1998).

 

 

   Tendo efectuado uma carreira de jornalista durante mais de três décadas, Helena Marques publicou o seu primeiro romance em 1992, O Último Cais, obra que mereceu vários galardões, entre os quais o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Seguiram-se-lhe este volume, Terceiras Pessoas (1998) e Os Íbis Vermelhos da Guiana (2002).

   De A Deusa Sentada, obra que relata uma viagem a Malta em busca do passado e das memórias de algumas personagens, transcrevem-se três parágrafos:

 

   "Desceram Merchants Street em silêncio, os olhos errando no pedaço de mar azul-cobalto pintado no fundo da rua, um azul demasiado forte, demasiado teatral para ser verdadeiro. Mas era verdadeiro e surgia assim, desmesuradamente azul, exageradamente azul, como uma fantasia ou uma incongruência, no limite das ruas de valletta que desembocam, invariavelmente, num dos três lados da alta península de Sceberras, entre o porto de Marsamxett e o Grand Harbour.

   O silêncio de Matilde tinha a força natural dos velhos hábitos, o conforto de uma capa com que defendia a vulnerabilidade das emoções, a serenidade de quem desaprendeu o prazer de exteriorizar e possui a sabedoria de resolver dentro de si própria as alegrias e as feridas. Em Laura, pelo contrário, o silêncio nascia apenas da impossibilidade de exprimir a sua enorme e comovida perturbação, se Lourenço ali estivesse ter-se-ia apoiado nele, encostado ao seu ombro, partilhado esse silêncio fecundo e eloquente, balbuciado todas as exclamações, naquele momento pensava justamente nas palavras que seria necessário descobrir, reinventar, para explicar a Lourenço a extraordinária descoberta da Catedral de S. João, o turbilhão de sentimentos perante a inesperada dádiva da perfeição.

   Por fora o edifício era de grande simplicidade arquitectónica e nada as preparava para o deslumbramento do interior. Ofuscadas pela luz intensa da manhã mediterrânica, haviam levado uns segundos a ajustar-se à penumbra da igreja – até que, na passagem infinita de um momento de sombras para um momento de revelação, foram emergindo volumes e formas, cores densas, ouros velhos, mármores sumptuosos, talhas e pinturas, tudo foi emergindo lentamente, quase magicamente, peça a peça, passo a passo, como se cada elemento lhes saísse ao encontro e se lhes apresentasse na sua inconfundível, inexcedível beleza individual, para regressar depois ao seu lugar singular e eterno na perfeita harmonia do conjunto." 

 

© Blog da Rua Nove  

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