Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Blog da Rua Nove

Blog da Rua Nove

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2011
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2010
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2009
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2008
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2007
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
18
Jan08

Macau, 1936 (XXXI)

blogdaruanove


 

   Aquela agitação natalícia toda, mais interior e nostálgica do que exterior, uma agitação nunca experimentada no ambiente de Macau, levou-o novamente à loja de Veng Seng Long.

   Recordava as horas, infindáveis, que passara no sótão da casa dos avós, remexendo em antigos baús e peças de mobiliário, maravilhando-se com a mínima descoberta, por insignificante que fosse. Um vidro inútil, manchado e esquecido, uma ferramenta abandonada a um canto, um velho jornal com notícias do século passado.

   Certo dia encontrara um embrulho de papel amarelado, quase escondido junto ao forro inclinado do tecto. Ansioso, a tremer, desembrulhara-o, acabando por descobrir uma imagem, em madeira, de Cristo na cruz. Sem braços. Sem cruz. Tocara-lhe levemente com as mãos nuas, impuras da sujidade, sentindo um leve tremor quando passara os dedos pelos joelhos ensanguentados da imagem. O caminho do Calvário...

    Lembrava-se de ter pensado nisso, naquele momento. Perguntara-se se também viria a ter um calvário, como todos diziam. Todos nós haveríamos de ter um calvário, certamente. "Todos temos de carregar a nossa cruz...", diziam as velhas da sua meninice à porta da igreja, encolhendo vagarosamente os ombros sob os xailes negros. Acompanhavam o gesto com um leve inclinar de cabeça e um lento franzir de testa. Os suspiros conformados vinham depois, perdendo-se na aragem do fim da tarde.

   Quando começara a viajar sempre se interrogara, inquieto, sobre tal calvário, procurando adivinhar se aquele desterro voluntário significaria o início do seu calvário. Calvário... As pessoas nunca pensavam nisso, provavelmente, mas o calvário era a solidão. A solidão que Jesus sofrera na via sacra era o verdadeiro calvário. Abandonado por tudo e por todos. Até por Deus. Até por si próprio.

   E assim, para vencer o seu calvário, entrara naquele bazar de maravilhas que era a loja de Veng Seng Long. Teria a ilusão de estar acompanhado e a felicidade de se perder entre o cálido brilho dos metais, procurando iluminar a memória de um sótão condenado às trevas quase desde a infância.



Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove  

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2011
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2010
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2009
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2008
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2007
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D