Velhos Tempos (III)

Photo © maximillian millipede
Era vê-lo naqueles movimentos vagarosos, mais calmos e cuidadosos que os de gado a pastar no prado, e cismar nas ideias que o homem teria. Coisas esquisitas, concerteza, mas que calava, cioso de estranhos, e escondia com os resmungos e perseguições que nos fazia, quando lhe aparecíamos pela frente para tentar chamar a atenção e descobrir as histórias estranhas que guardava.
Todos os nossos encontros continuaram neste jogo de escondidas, até que um dia, após uma chuvada que assentou raízes às sementeiras, o Ti Manel desapareceu, deixando as terras de poulo e a porta do casebre escancarada, como se fizesse um convite à descoberta de toda aquela vida passada a sós. O povo não se preocupou muito com o seu desaparecimento e nós, catraios que já não éramos, descobrimos um certo sentido naquele isolamento e abandono a que o velho se deitara, pois deixáramos de ter tempo para a nossa vida de zaragatas e folguedos desde que os outros homens lá da aldeia nos começaram a dar lugar entre eles, e a separar-nos, com aquela vida de interesses e necessidades em comum... Foi como se um cisco nos tivesse entrado para a vista e nos obrigasse a esfregar os olhos para podermos ver. Mas a cada esfregadela, mais nos doíam os olhos e menos víamos... Até nos perdermos um do outro. E hoje, inesperado como o vento, aqui estava ele de novo!
– Ora se lembro, homem! Venha daí um abraço...
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