Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustração para a capa de Filhos do Diabo (1954), de Manuela de Azevedo (n. 1911).

 

   "(...) Heróico Pavia!, companheiro de poetas, ilustrador de poetas, apaixonado leitor ideal de poetas que, à hora da morte, com a simplicidade de bem morrer sem bravatas, ainda pediu  a um poeta que lhe ensinasse a saída do labirinto, agarrado a um fio de poesia para não se enganar na porta escura.

   – Tantas vezes o ouvi citar esses versos! – observou o Carlos de Oliveira.

   São os do "Poema Final" de Camilo Pessanha que li agora mesmo, sem tropeços de lágrimas, os olhos bem secos (sim, bem secos e nítidos), para compreender bem, para apreender bem:

 

   Abortos que pendeis as frontes cor de cidra

   Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,

   E escutando o correr da água na clepsidra,

   Vagamente sorris, resignados e ateus,

   Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

   ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

   Adormecei. Não suspireis. Não respireis. "

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustração para a capa de O Pecado Invisível (1955), de Patrícia Joyce (pseudónimo; n. 1913).

 

   " (...) Subimos todos. Ciciar de antecâmara de moribundo. Grupinhos severos em que até os mais íntimos apertam as mãos com gravidade de cerimónia ante a morte eminente. Esvaíram-se as derradeiras probabilidades de salvação, parece. O Fernando Fonseca considera-o [a Pavia] perdido. Com uma pneumonia hipertóxica – segreda-me não sei quem.

   (Atear de pânico surdo de boca em boca. Mas então então os antibióticos nem ao menos curam uma pneumonia?)

   E enquanto alguém se põe a repetir com insipidez de lamentação pendular: " A doença apanhou-o débil de mais. Apanhou-o sem reservas", o bom do Mário Monteiro, com o seu sorriso doce de amargura, esclarece: "Não reagiu a nenhum antibiótico. Era como se ingerisse água fervida..."

   Entretanto, no quarto ao lado, em contraste com este sussurro de azáfama, continua a representação em voz alta de um simulacro qualquer de vida para aturdir de ilusão o homem que vai morrer.

   Volta e meia saem de lá de dentro mensageiros com notícias de desgraça na voz inquieta. Primeiro, o Armando Vieira Santos, que passou abnegadamente a noite em claro ao pé do amigo em perigo. Agora, o Manuel Vieira, escalonado para velar esta noite...

   – Então?

   – Delira, suponho... Há pouco, depois de falar do último poema da Clepsidra (vocês lembram-se do que diz esse poema?), exclamou: "É assim que deve morrer um racionalista!" (...)"

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977). 

 

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Quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Reprodução póstuma de dois desenhos nas capas da revista Vértice, números 420-421, de Maio/Junho de 1979 (acima), e número 186, de Março de 1959.

 

   "Naquele dia de terror...

 

   Ainda trago nos ouvidos a voz mortificada que me telefonou de manhã cedo:

   – O pobre Pavia...

   E foi como se toda a esperança amassada na noite anterior com tanto suor de espera ficasse apenas um peso frio  de âncora. (Mas os antibióticos? Então os antibióticos não curam tudo?) Meti-me num táxi e, daí a momentos, eu e o Carlos de Oliveira estávamos no portal da Rua de Bernardim Ribeiro a tentar vencer a covardia de trepar até ao 3.º esquerdo, onde o pobre artista agonizava num quarto de pensão.

   – E ele não estranhará ver tanta gente invadir-lhe a casa? – aventei por último, já a sentir a inviabilidade do desejo secreto de desaparecer, cavar, sumir-me... (com a consciência lípida de quem só queria poupar dor a um ser humanao, claro!).

   – Mas não. Pelo contrário – elucidou o Joel Serrão, que entretanto descera, lento, ao nosso encontro. – O médico recomendou que o não deixassem sozinho. E o próprio Pavia, quando o ruído amortece, é o primeiro a pedir: falem, falem, falem! (...)"

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977). 

 

 

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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustração para a capa de Porto Manso (2.ª edição, 1946), de Alves Redol (1911-1969).

 

   "A Morte jantou connosco. (Título

     de filme barato).

 

   O pintor Manuel Ribeiro de Pavia veio hoje jantar connosco. Um belo gaspacho à alentejana, preparado pela perícia de Rosalia.

   Em raras ocasiões o tenho visto tão exuberante, em delírio quase, como se só naquele instante tomasse consciência de quaquer libertação essencial.

   Falou pelos cotovelos, depois de engolir as costumadas vitaminas de que recheia sempre por prudência as algibeiras. "Para acumular reservas..." – explica. (Amostras grátis. Ofertas de médicos amigos.)

   – Sim senhor. Que admirável gaspacho!

   E ia levando a colher à boca com unção de satisfazer um gosto antigo preso à língua da infância.

   Em todo o caso não aderia com aplausos completos. A receita de gaspacho dele, Pavia, parecia-lhe melhor, muito melhor. Continha vários ingredientes gostosos, como lagartos, caracóis e pedaços de cobra. Além do que a fantasia pudesse arremessar lá para dentro!

   – Até botões de colarinho, não, Pavia? – exagerei.

   Mas ele, a rir muito, insistia com pertinácia no seu mirabolante gaspacho da meninice, com cobras.

   Reparei então, mais uma vez, nas mãos que despiram as aldeãs nas Líricas – e tanto impressionaram a  Maria Keil –, peludas, esguias, unhas longas... Mãos de bicho – onde não espanta que durmam estranhas forças secretas da natureza à espera do próximo princípio do mundo verdadeiro para nos maravilharem com criações instintivas.

   Por fim, à hora do café e do conhaque, o Pavia voltou a glosar, com convicção de seriedade maliciosa que toma nessas noites de convívio ardente, o plano monumental com que me molesta há meses. Nem mais nem menos do que a organização de um Comício Poético no Coliseu dedicado à minha poesia, com a sonhada colaboração de Maria Barroso e João Villaret.

   E eu, trémulo, a conspirar contra a ideia (Ah, comício nunca! nunca!):

   – Ó Pavia: um Comício Poético?... Mas como? Não teme que isso me cubra de ridículo?

   – Qual! Verá! Verá!

   (Não vi.)"

 

in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Autógrafos - César dos Santos

 

César dos Santos (1907-1974), Neblina (1956).

Ilustração para a capa de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

 

César dos Santos (1907-1974).

   Jornalista, ensaísta e ficcionista, César dos Santos escreveu várias crónicas e reportagens sobre Lisboa. A sua atenção recaíu também sobre o Oriente e o Japão, sendo autor de O Japão na História, na Literatura e na Lenda (1943), O Japão Através da sua Literatura (1945) e Viagens Maravilhosas às "Terrras do Céu" (1949).

   Durante a década de 1950, tal como acontece em Neblina, ainda anunciou a entrada no prelo de um conjunto de manuscritos intitulados Homens que Trocaram a Alma: I – Lafcadio Hearn; II – Venceslau de Morais (3 vols.), mas não existe registo da sua efectiva publicação.

   Do seu livro de contos Neblina, transcreve-se um parágrafo de 'Sol Escondido':

 

   "Era bem o farrapo de uma vida ao sabor do acaso, uma mulher que ainda não dobrara a curva para a vertente, mas em plena decadência. Flexível, quase aérea, de linhas correctas, formas delicadas, que teriam sido perfeitas antes de maceradas e poluídas pelos dominadores brutais, pelas sofreguidões e os sádicos apetites de embarcadiços exasperados na solidão errante, acirrados pela bebida, era de uma beleza triste, meiga e atraente, ao mesmo tempo submissa e perversa. Sob a aparência dolorida, de desconsolo, de lamentável abandono, de insensibilidade, o que quer que fosse de indizível e imperiosa atracção sexual, como o fremir da sensualidadae doentia, da languidez mórbida dos temperamentos voluptuários, ardentes, impulsivos, de excessiva temperamentalidade, transmitia uma forte e acaroçoadora sedução amorosa, apesar do estigma do vício, do grotesco do traje, do canalhismo adquirido no contacto com a fauna depravada e o meio degradante. Mas os olhos, insondáveis profundidades de mistério de onde poderia irromper o vulcão das paixões violentas e trágicas, tinham uma expressão de magoada doçura que enternecia; e na transparência desses oceanos de angústia e lágrimas represadas havia candura, delicadeza, o poético enlevo das almas femininas, emotivas, gentis e sonhadoras." 

 

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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustrações para Calenga (1945), de Castro Soromenho (1910-1968).

 

 

 

   "Tantos de tal de 1950. Estou

       tão farto do século XX!

  

   O pintor Manuel Ribeiro de Pavia procurou-me no escritório do Tivoli com aquela solenidade de sorriso grave com que se reveste em certas ocasiões, talvez para parecer mais alto.

   – Preciso de falar consigo... – disse.

   Peguei na gabardina e saímos.

   E então, durante o pausado arrastar das sombras pelo claustro das árvores da Avenida, o Pavia assustou-me com o relatório orgulhoso da sua miséria.

   – Veja o meu fato, Zé Gomes. Está no fio. (E estava mesmo. Não era literatura.) Olhe para esta camisa rota... (bem a via.) Devo dois anos de aluguer do quarto...

   E com ferocidade inquietante:

   – Se não arranjar dinheiro, só me resta uma solução: matar-me!

   A ameaça não soava a teatro vão. Senti que ardia uma pequenina chama de terror em qualquer parte.

   Expôs-me a seguir o plano concebido:

   – Penso publicar três álbuns de desenhos, intitulados Líricas, Dramáticas e Trágicas... Posso contar consigo?... Queria que me escrevesse o texto para as Líricas... Aceita?

   Ainda mastiguei a modéstia de recusar:

   – Pouco ou nada percebo de artes plásticas... Porque não pede a colaboração de outro escritor com mais nome?

   Mas ele insistiu, impôs o seu direito de amigo e eu convenci-me, pronto para a tarefa.

   – Estou às suas ordens. Traga-me os desenhos.

   Abanou a cabeça:

   – Ainda não os fiz... Mas vou deitar mãos à obra.

   E com a barriga vazia, nas noites sem amor, pôs-se a inventar mulheres nuas no papel...

   Decorrido algum tempo (hoje dia tantos de tal) reapareceu, sombrio e alegre:

   – Já acabei os bonecos. Quer ir vê-los?

   Fui.

   – Maravilhosos! – pronunciei-me.

   – Alguns talvez devessem ser mais trabalhados... – apressou-se a criticar com argúcia, mal reparou que os meus olhos tropeçavam nos dois ou três desenhos últimos.

   – Estes dois, não?...

   – Sim. Estes dois.

   Mas de fato no fio e camisa rota (sem literatura) concluiu, suave de amargura ríspida:

   – Não. Não posso mais!

   Calei-me com vergonha triste de saciado."

 

 in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Literatura Colonial Portuguesa

Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

Castro Soromenho (1910-1968), Calenga (1945).

   Um dos maiores prosadores da literatura colonial portuguesa, Castro Soromenho legou-nos uma obra sui generis, porque centrada quase exclusivamente nas temáticas e nas narrativas perspectivadas segundo as tradições e a cultura dos povos nativos de África.

   Numa época em que no nosso país ressurgia e se consolidava politicamente o conceito de império colonial e os escritores se extasiavam perante a grandeza de África e todas as potencialidades que esta apresentava para a colonização, Castro Soromenho extasiou-se perante as tradições de sociedades que lhe pareciam estar ameaçadas pela cultura ocidental e perante a sabedoria dos povos dessas sociedades, como os "lundas, êsses poetas da planície". 

   Castro Soromenho ousou ainda levantar uma voz dissonante da voz do regime. "Ama, 'mãe negra', é essa saüdade, velha de mais de trinta anos, que invoca a tua memória ao findar êste livro dos homens da tua raça infeliz.", afirma o autor no seu preâmbulo a este livro. Pagou essa sua opção consciente e sentida de homenagem aos povos negros de África com o silêncio oficial sobre a sua obra. E com a proibição ou censura da maioria dos seus trabalhos. Terra Morta, um romance da década de 1940, surge referenciado na lista bibliográfica de Calenga com a seguinte nota – "Não pode entrar no mercado", verificando-se a sua publicação apenas posteriormente, já na década de 1960. Esta obra, em particular, teve várias reedições nas últimas três décadas.

   Duas novelas integram o livro Calenga, 'Calenga e a lenda dos rios do amor e morte' e 'Lueji e Ilunga na terra da amizade'. A primeira narra a história de Calenga, o menino que cresceu para ser soba dos calambas,  e o seu encontro com os cassongos. A segunda apresenta-nos a história da criação do país dos lundas, "como êles a contaram a Henrique de Carvalho [1843-1909], o grande explorador da Lunda, e eu a ouvi nos seus sertões", conforme diz o autor.

   Dois textos cujas narrativas fluem naturalmente, mostrando que uma aparente simplicidade discursiva pode ser sinónimo de excelente literatura.

 

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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Capa para Cerromaior (1943), de Manuel da Fonseca (1911-1993).

 

   "Um salto para o passado,

    2 de Novembro de 1943.

 

   Café Portugal. Manuel da Fonseca a semear palavras de invenção poética...

   Acompanhou-me a casa e ouvi-lhe histórias pasmosas, narradas na sua voz de ironia fosca que, de vez em quando, tanto enegrece as palavras de agressividade doce-amarga... O suicídio do senhor da Torre Vã, que se atirou para o chão coberto de cacos de garrafas, depois de obrigar a mulher a dançar nua com uma candeia acesa no umbigo... O Cação, que curou o unheiro do pé com o malho do ofício... O André Algarvio, que saiu para a rua a gritar que era cabrão... Sei lá! Um mundo medonho de malteses bárbaros e inteiros...

   Depois, a conversa ensilvou-se e soube que Cerromaior, o primeiro romance do Manuel, sofreu cortes vários. Supressão de palavras tidas por indesejáveis.

   Uma tristeza de transformar as pedras em caveiras. Com dentes moles."

 

   in José Gomes Ferreira (1900-1985), Imitação dos Dias (1966; 3.ª edição, 1977).

 

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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Ilustração para a capa de Contos do Dia e da Noite (1952), de Domingos Monteiro (1903-1980).

 

 

Capa de Coisas do Céu e da Terra (1944), de Rachel Bastos (1903-1984).

 

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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Manuel Ribeiro de Pavia

 

Capa para Avieiros (1942), de Alves Redol (1911-1969).

 

 

Capa para Anúncio (1945), de Alves Redol (1911-1969).

 

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