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Ago07

Autógrafos - Andrée Crabbé Rocha

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Andrée Crabbé Rocha (1917-2003), tradução e introdução de Poèmes (Bruxelles, Bélgica, 1951), de Miguel Torga.

 

 

Andrée Crabbé Rocha (1917-2003).

   Ensaísta e professora universitária de origem belga, Andrée Rocha interessou-se particularmente pela literatura portuguesa do século XVI, com destaque para Garcia de Resende (1470?-1536) e o seu Cancioneiro Geral, e pelo teatro de Almeida Garrett (1799-1854).

   Efectuou traduções para francês de textos de Miguel Torga, seu marido, nomeadamente esta colectânea de 1951 e Le Viatique (1959).

   Sobre sua esposa, anotou Torga no volume Diário (I):

 

   "S. Martinho de Anta, 21 de Setembro de 1940. Aqui estou. Vim mostrar a mulher aos velhos, à Senhora da Azinheira e ao negrilho. Gostaram todos."

 

 

   "S. Martinho de Anta, 2 de Outubro de 1940. Fui mostrar-lhe a Vila [Vila Real]. Mas fui mostrar-lha como os meus avós a mostraram às mulheres deles – a pé. Foram só seis léguas..."

 

   Da tradução de Poèmes, e mais uma vez excepcionalmente, transcreve-se o poema que se segue:

 

 

FRONTIÈRE

 

De la terre d'un coté, de l'autre, de la terre;

Des gens d'un coté, des gens del'autre;

Ces fils d'une même montagne, et ces versants,

Le même ciel les couvre et les consent.

 

Le même baiser ici, le même baiser là-bas;

Des hurlements pareils – chiens ou meutes sauvages.

Et la même lune lyrique qui vient

Blancheyer les échevaux de vieux lin.

 

Mais une force sans raison,

Qui n'a ni yeaux ni sens,

Passe et laisse réparti

Le coeur du moindre genêt endormi.

 

 

 

Miguel Torga

 

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01
Ago07

Autógrafos - Ernesto Rodrigues

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Ernesto Rodrigues (n. 1956), A Serpente de Bronze (1989).

 

 

Ernesto Rodrigues (n. 1956).

   Professor universitário, ensaísta, poeta e ficcionista, exerceu ainda a profissão de jornalista. Durante a década de 1980 leccionou na Hungria, onde em 1996 se publicou uma compilação bilingue da sua prosa e poesia, Sobre o Danúbio (A Duna Partján). 

   De A Serpente de Bronze transcrevem-se alguns parágrafos:

 

   "À espreita, os militares faziam horas contando anedotas picantes.

   Um sugeriu que o velhadas aparecesse na rádio e na televisão para tranquilizar os para cima de meia-idade, condição necessária ao bom sucesso do empreendimento. Derivaram um pouco na escolha dos termos: golpe, revolução, bernarda, etc. Nem sequer estavam seguros de vencer. O que dava mais tesão à coisa. Em suma, já então se via que não falavam da mesma maneira. Contudo, experimentando o seu ascendente e convicto de que, em certos períodos, ele podia vir ao de cima, eis o que lhe bastava para, mais tarde, renunciar, depois que se inscreveu de vez nos fundos individuais. E, afinal, resumia, o reino que em nós se inscreve não é nosso mas dos outros. Não merece a pena perseguir o que só outros oferecem.

   Foi muito fácil, claro. Tomaram-se os estúdios como dezenas de cafés. Entre música e comunicados, o país virava, ainda sem perigo de afundar. O Príncipe, vivo que nem lagartixa, estava em todas, antes de a televisão o consagrar. Lavou-se bem, como deve quem está para incutir confiança, cortaram-lhe os cabelos e a maquilhagem tirou-lhe meia vida. Pôs monóculo porque sim, tão teatral como em 1974 (agora reconhecia) ao defrontar-se com João Pinto Ribeiro, criado de duques e não de sangue. Que as pátrias distinguem-se no particular tipo de sangue e nem todas as uniões são convenientes.

   Com a primeira nesga de sol espreguiçou-se Vénus, que saiu dos lençóis para ligar o rádio e aquecer o leite. Música estranha acordou o parceiro. Ficou de cabeça à banda sem perceber o que por tanto lutara. Como se a realidade, incómoda, lhe acabasse com privilégios e o forçasse a democratizar-se, via-se o Outro num vagão que era todo o comboio e as maneiras decentes – Ne pas se pencher au dehors, etc. – desaparecendo para erigir-se a promiscuidade em norma e finalidade. Era possível, há menos de um mês, trocar as voltas à polícia política; e a esta inundação que vai mostrar o lodo todo?"

 

© Blog da Rua Nove

25
Jul07

Autógrafos - Lídia Jorge

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Lídia Jorge (n. 1946), Marido e Outros Contos (1997).

 

 

Lídia Jorge (n. 1946)

   Tendo começado a sua carreira literária com dois romances que globalmente contam já com  mais de uma dezena de edições, O Dia dos Prodígios (1980) e O Cais das Merendas (1982), Lídia Jorge teve a sua imagem de ficcionista inicialmente ligada às temáticas e questões relacionadas com a presença portuguesa em África, as quais de certo modo reflectem a sua estadia em Angola e Moçambique, nos anos 70.

   Diversificadas as suas temáticas na produção mais recente, que aborda a sociedade portuguesa pós-colonial e questões relacionadas com a condição feminina, tem a autora vindo a confirmar um percurso que a crítica apontava desde início como sendo dos mais promissores e importantes na literatura portuguesa contemporânea.

   O seu livro mais vendido, Notícia da Cidade Silvestre (1984), já ultrapassou a dezena de edições. A sua obra encontra-se traduzida em várias línguas, particularmente em Alemão e Francês.

   De Marido e Outros Contos transcrevem-se dois parágrafos do conto A Instrumentalina, originalmente publicado em 1992:

 

   "Nunca se sabe o que uma viagem pode trazer ao íntimo do coração. Como se o tempo de repente dum outro modo fluísse, ou mesmo a qualidade da sua hora mudasse, e uma coisa perdida aparecesse, uma dúvida se quebra, um amor acaba, e outro que nunca se tinha imaginado, de repente, nasce. Objectos que sempre tivemos por separados atam as pontas, imagens que bóiam nas nossas vidas sem ligação juntam-se e criam uma nova sequência com sentido. Outras vezes a clarividência da distância torna-se tão luminosa que se vê o fim do fim, e deseja-se regressar, ainda que não seja a lugar nenhum. Foi por altura duma deslocação que por acaso se havia transformado numa viagem. Então, subitamente, aquela cidade estendida e empinada à beira do Lago Ontário, para onde o destino de ocasião me havia levado, ainda tinha palhetas de gelo, e trouxe-me de volta, provinda de muito longe, a Instrumentalina." 

   (...)

    "O bar do Royal York Hotel, alimentado às sextas-feiras por bêbados distintos caindo sobre as mesas muito antes da meia-noite, revestido de papel escuro como musgo, lembrava o fundo dum tanque vazado e aquecido, mas não era suficientemente opaco para não deixar que a Instrumentalina deslizasse sobre a estrada dum outro território. Tinha-me sentado a uma das suas mesas. A porta de vidro permitia que dali, de onde me encontrava, pudesse ver quem saía e quem entrava, sobretudo quem deixava o chapéu e a gabardina no bengaleiro. A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho do seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia. Havia sido quando? O meu tio tinha-me feito adeus, e depois o comboio antigo, como um canhão de Austerlitz, atroara na madrugada e levara-o cada vez mais de perfil, de braço levantado, para trás das árvores, por entre as quais a fila de carruagens se sumia."

 

© Blog da Rua Nove

18
Jul07

Autógrafos - José Viale Moutinho

blogdaruanove

 

José Viale Moutinho (n. 1945), Correm Turvas as Águas deste Rio (1982).

 

 

José Viale Moutinho (n. 1945)

   Jornalista, poeta e ficcionista, Viale Moutinho tem sido um cultor do absurdo em vários dos seus contos, numa linha que apresenta alguns pontos de contacto com a produção de Mário Henriqe Leiria (1923-1980). A sua prática ficcional do absurdo e do fantástico não o afasta, contudo, da contestação e da crítica político-social que, curiosamente, exerce muitas vezes na sua poesia. Mesmo elaborada há décadas atrás, essa contestação mantém muitas vezes a sua actualidade, como se pode constatar no poema apresentado, o qual foi publicado há vinte e cinco anos.

   Embora Viale Moutinho surja como um autor habitualmente esquecido pela crítica e afastado dos lobbies literários, tem uma produção vasta e constante que gera consenso quanto à sua qualidade e se encontra traduzida em várias línguas. 

   De Correm Turvas as Águas deste Rio, transcreve-se o poema da página 49:

 

"DE QUEM SÃO

 

à Raquel e ao Antunes Ferreira

 

de quem são todas estas mãos

dentro dos meus bolsos vasculhando

o cotão à procura da última moeda

perguntava para consigo aquele

que fingia desconhecer quem governava

 

pobre companheiro de jornada teus olhos

nesse musgo enredado que cega

mereciam o grande prémio do apoio

a quem em ti se apoia sem pudor

na terra roubada e no muito suor

 

silêncio é então o que respondes

receoso de que tenham instituído

de novo aquela polícia tão secreta

e que se metia em toda a parte e ouvia

o bater do teu coração como prova de culpa

 

levanta-te meu caro e prepara-te

o pontapé é agora já todos sabemos

que tem de ser agora: afia a bota que

de todos esses monstros de rapina

nem um deve ficar de amostra ou pista"

 

© Blog da Rua Nove

11
Jul07

Autógrafos - Egito Gonçalves

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Egito Gonçalves (1920-2001), Os Pássaros Mudam no Outono (1981)

Capa de Armando Alves (n. 1935)

 

 

Egito Gonçalves (1920-2001)

   Poeta e tradutor, Egito Gonçalves seguiu uma tradição de vivência escandinava anteriormente experimentada pelo escritor José Gomes Ferreira (1900-1985, com estadia na Noruega) e pelo pintor e ensaísta Lima de Freitas (1927-1998, com estadia na Dinamarca), entre outros. 

   Essa vivência que, no seu caso, decorreu na Finlândia, reflecte-se de algum modo na sua obra poética, a qual conjuga uma preocupação social com uma profunda introspecção e depuração das imagens do mundo exterior. A esta característica junta-se uma pontual visão irónica da realidade,  a qual por vezes se aproxima paradoxalmente quer do sarcasmo quer do desalento.

   A sua actividade estendeu-se também à área editorial e à promoção do associativismo cultural, particularmente na zona do Porto, onde residia.

   Do livro Os Pássaros Mudam no Outono, transcreve-se o quinto poema de As Zonas Quentes do Inverno: 

  

"Há coisas que se quedam para sempre, coisas

em que o poema se alicerça: esse

rectângulo vermelho no alto da montanha;

ritual de pinheiros

num chão de xisto e urze onde buscávamos

a pureza

ou o sentimento dela: desafio

e comunhão na renda vegetal. Escolhemos

essa manta entre o céu e a água, manhã

e crepúsculo, onde só pássaros

chegavam

pelo silêncio do abraço,

equador de terras no ventre do sol. Agora

procuro na palavra a imitação do gesto,

a tradução da carícia: como dizer

um tal momento sem escolha? O breve minuto

em que a vida lança o vestido pela cabeça

e o esquece nas pedras. Tão pobre

afirmar que a eira vermelha parecia suspensa,

a colheita fazia-se

entre dobras de luz, rápidos zumbidos..."

 

© Blog da Rua Nove

04
Jul07

Autógrafos - Reis Ventura

blogdaruanove

 

Reis Ventura (1910-1988), A Grei (1941)

Capa de Rui Vieira da Costa (datas desconhecidas)

 

 

Reis Ventura (1910-1988).

   Reis Ventura esteve involuntariamente envolvido em 1934 numa célebre polémica sobre galardões literários, quando o seu livro A Romaria (que assinou como Vasco Reis) obteve o prémio Antero de Quental do SPN. Inicialmente, a obra de um outro escritor tinha sido preterida e, aparentemente, só a intervenção pessoal do director do SPN, António Ferro (1895-1956), apaziguou o clima de contestação que se gerou – através da sua intervenção, nesse ano foram concedidos, excepcionalmente, dois galardões ex-aequo. O livro preterido tinha sido Mensagem, de Fernando Pessoa (1888-1935).

   Tendo abandonado a vocação sacerdotal na década de 1930, Reis Ventura fixou-se em Luanda, Angola, onde veio a publicar o seu segundo livro, A Grei (cuja edição refundida receberia em 1964 o título Soldado que Vais à Guerra). Embora nas suas obras iniciais tenha evidenciado preferência pela poesia e pela realidade portuguesa da então metrópole, Reis Ventura notabilizou-se pela escrita em prosa que retratou a realidade angolana da época, nomeadamente através da colectânea de narrativas Sangue no Capim (1962 e 1963), da colectânea de contos Cidade e Muceque (1970), e dos romances Quatro Contos por Mês (1955), Fazenda Abandonada (1965), Caminhos (1965) e Engrenagens Malditas (1965), entre outros. Publicou também um romance de ficção científica, Um Homem de Outro Mundo (1968), em que o protagonista, Thull, um ser do planeta Mil, efectua um périplo pela Terra depois de aterrar nos arredores de Luanda.

   Escritor cuja produção foi sempre conotada com a defesa do Estado Novo e do regime colonial, Reis Ventura é actualmente um autor marginalizado e esquecido, tanto em Angola como em Portugal. De A Grei, uma elegia ao povo, como o título deixa transparecer, transcrevem-se as três primeiras estrofes:

 

   "Primeira Parte – Friso de Almas

 

    O Ti-Zé

 

    Os seus olhos são olhos portugueses,

    duma clara viveza e formosura;

    olhar firme e leal, de tam afeito

    a olhar sempre a direito

    a vida

    tantas vezes

    batida

    pelas vagas da amargura...

 

    Olhos de português – olhos de artista,

    de terem sempre à vista

    essa beleza

    da Virgem-Natureza,

    suave, e doce, e meiga como a lua;

    essa carne da terra

    que, no seu ventre, encerra,

    a vida forte e  bela, verdadeira e nua;

    e, em frémitos de amor,

    é bondade que alegra

    a face duma pedra

    e o cálix perfumado duma flor...

 

    – Olhos de português... as mãos bem calejadas,

    feridas ao contacto das enxadas,

    são as mais dignas, preciosas, mãos

    de todos nós, irmãos

    pela alma imortal, dentro do ser

    da nossa humanidade;

    são as mãos do trabalho, as virgens da bondade,

    as mais puras e dignas de viver..."

 

Capa de Neves de Sousa [sic; provavelmente, Albano Neves e Sousa, 1921-1995]

 

© Blog da Rua Nove

27
Jun07

Autógrafos - João Alves da Costa

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João Alves da Costa (n. 1948), Sadomasoquismo, S. F. F. (1985)

 

 

João Alves da Costa (n.1948)

   João Alves da Costa celebrizou-se enquanto autor de textos que ele próprio classificou como "novo jornalismo ou literatura de não ficção", tais como Droga e Prostituição em Lisboa (1977), Bruxas à Portuguesa (1984) e este Sadomasoquismo, S.F.F. Inicialmente jornalista do extinto Diário Popular, produziu os dois últimos livros quando já era jornalista desportivo de A Bola. Entretanto, havia já publicado um outro texto dentro da mesma corrente, América em Carne Viva (1974), onde relata a sua experiência nos E.U.A., e uma obra de ficção menos conhecida, As Diabruras do Menino Hamlet (1975), classificada pelo autor como "novela fragmentária".

   De Masoquismo, S.F.F., transcrevem-se dois parágrafos:

   "Não se riam à frente dele. O Perdiz no seu tempo de Lisboa manteve uma ocupação num escritório de contabilidade. Guardava o Plano Oficial de Contas na gaveta da secretária como um... fardo de palha (a imagem era dos colegas maldosos). Passou lá dois meses a prazo, a um ritmo fraco de laboração, os fornos exteriores da empresa ribatejana que o admitiu espalhavam o ingrediente a sete ventos numa fumarada nauseabunda que vestia as árvores de prata escura. Causava tosse e bronquite no aquecimento de um líquido caldoso que mais lembrava creme pastoso de cogumelos. O Perdiz indagava: para que serviria o produto, eles chamavam-lhe essência... O Perdiz deu voltas sobre voltas. Seria detergente para secagem instantânea de roupa de cor? Seria chumbo para armamento de guerra destinado a Braço de Prata e dali para a guerrilha na América do Sul? Ou não, apenas cera para dar brilho à corticite, cera cheirosa que dava um ar de incenso e outro de tungsténio? Claro que havia quem, ao ouvido, falasse na hipotética recuperação do volfrâmio para vender aos alemães em caso de terceira Guerra Mundial?

   O Perdiz contava pelos dedos as existências em armazém, pastosamente conferia as ausências de funcionários em véspera de folgas ou "pontes" prolongadas, ele estava atento a quem fracturava três vezes o mesmo pé durante os feriados de Junho, aconteceram lesões súbitas, inacreditáveis, mas todas elas comprovadas pelo papel selado: desde as mordeduras de peixe-aranha (em Moura, no Alentejo!), aos picos de urzes nos Santos Populares (na Baixa lisboeta!), até casos de gangrena (numa casa de sumos, em Cascais), o ficheiro das unhas encravadas (na praia do Alvor), da febre de Malta (na marina de Vilamoura), das dores de menstruação (até em homens, pois claro!) à amputação do membro vital (no túnel de Santa Apolónia). Mais tarde, devidamente cobertos pelo seguro, reabilitar-se-iam, mas nunca antes do Magusto e a verdade é que em ocasiões especiais (Páscoa na Serra Nevada) entraram pedidos de dispensa para deslocações a Marrocos, onde chefes de repartição alegaram ir mudar de sexo. E, inclusive, no México, uma chusma de dactilógrafas obteve um divórcio colectivo. Tudo casos de força maior. E no cabelo nunca pululou tanto a sarna, nas zonas pilosas delicadas era o reino das escábeas, nos dentes surgiu o escorbuto, nos órgãos genitais o herpes esteve no "top-ten" das dispensas."

 

© Blog da Rua Nove

20
Jun07

Autógrafos - Fernando Campos

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Fernando Campos (n. 1924), A Casa do Pó (1986; 7.ª edição, 1991)

 

 

   Fernando Campos (n. 1924)

   O primeiro romance de Fernando Campos apenas foi publicado em 1986, precisamente A Casa do Pó, mas revelou-se um sucesso de vendas imediato. Desde então, o autor tem o seu nome associado à ficção de fundo histórico, área na qual se tem revelado um dos mais importantes e  interessantes autores portugueses.

   Professor do ensino secundário em Lisboa, abandonou a vida a tempo inteiro na cidade depois da sua aposentação, tendo optado por viver numa pequena aldeia da Estremadura. Aí tem continuado a produzir romances de índole histórica, como A Esmeralda Partida (1995) e O Prisioneiro da Torre Velha (2003), sendo O Cavaleiro da Águia (2005) a sua publicação mais recente. 

   De A Casa do Pó, se transcreve o primeiro parágrafo do primeiro capítulo:

 

   "Alonga o caminheiro atrás os olhos, a avaliar a distância percorrida. Vão-se-lhe esbatendo e esfumando os contornos e as cores da paisagem, até por fim não poderem ser fixados na retina... Também no percurso da vida com o avançar da idade se vai esmaecendo e esvaindo, na retina da memória, a notícia das coisas passadas. Procuro ir ao fundo do tempo, vasculhando nas minhas recordações, numa tentativa de isolar na infância o primeiro momento, a primeira circunstância em que tive consciência de mim, de que era um ser vivo com personalidade própria, isto é, com uma vontade e um pensamento que não era o dos outros, consciência de que tinha a minha sombra. Esta expressão especialmente me intriga. Ando à volta dela, buscando localizá-la no tempo e no espaço sem o conseguir. Tenho todavia a sensação de que alguém, uns olhos sábios e penetrantes, algures, em certa altura, ma imprimiu na alma e me impressionou para sempre. É como uma voz que vem de longe e que eu não sei identificar: quem não fazia sombra não era ninguém; visse como até a mais pequenina das formigas arrastava colada ao corpo a sua sombra..."

 

© Blog da Rua Nove

13
Jun07

Autógrafos - Alice Ogando

blogdaruanove

 

Alice Ogando (1900-1981), Marias da Minha Terra (1934)

Capa de Luís Dourdil (1914-1989)

 

 

Alice Ogando (1900-1981)

   Tradutora e autora de inúmeros originais e adaptações de teatro que marcaram a rádio portuguesa até ao início da década de 1970. Embora tenha publicado alguma poesia, foi de facto na produção de dramaturgia radiofónica que Alice Ogando se salientou durante décadas. Esteve casada com André Brun (1881-1926).

   Do seu volume Marias da Minha Terra (1934) transcrevem-se duas poesias, que evidenciam claramente a proximidade da autora face à política nacionalista do Secretariado de Propaganda Nacional, fundado um ano antes:

 

Maria da Conceição 

 

Maria da Conceição,                              Teu corpo, só bem se ageita

Vi-te ontem na procissão                        Á larga saia bem feita

E duvidei do que via,                              Que ás formas te dá esbelteza,

Pois quando por ti passei,                       E na cabeça formosa,

Olho em volta e... – reparei                  Em vez d'um chapeu de rosa,

Que toda a gente se ria                           A chita bem portuguesa.

 

De ti. Sim, de ti, cachopa,                       Desce dos saltos, donzela

Seja embora a tua boca                          E calça atua chinela

Vermelha como a romã,                         Que tanto te alinda o pé.

Embora a face trigueira                           A gente deve, na vida,

Tenha um rosado á maneira                    Não andar nunca iludida,

De saborosa maçã,                                 E ser apenas quem é.

 

Embora o corpo delgado                        Maria da Conceição,

Lembre um lírio delicado                        Sai-me já da procissão,

E tenhas um lindo olhar,                          Pois até nosso Senhor

Eu juro que foi de ti,                               Se te vê d'essa maneira,

Que todos riram e eu ri                           Sendo embora de madeira

Quando te vimos passar.                         Pode fugir do andor...

 

Maria da Conceição,                               Calça a chinelinha, calça.

Ou tu perdeste a razão,                            Põe o lenço de Alcobaça,

Ou então foi bruxaria!                              E a saia de flanela,

Um chapeu n'essa cabeça!                       Teu negro chal' de tricana

Mas tu queres que eu endoideça,           Pois tu és ribatejana!

Oh! minha pobre Maria                            Pois tu, Maria, és aquela

 

Da Conceição?! mas que horror...            Nascida nesta paisagem,

e dize cá, por favor                                  Creada com esta aragem

Quem te vestiu esse fato,                          Que faz a mulher formosa,

Que o corpo te escangalhou,                     E em paisagem bravia,

Que as ancas te deformou,                        Nunca pode ir bem, Maria,

dando-te um vago ar de pato                    Esse chapeu, essa rosa.

 

Marreco! Ai, não, Maria,                          Volta depois. Sem vaidade.

Decerto ninguém diria                                Eu amo a simplicidade,

Vendo-te na procissão,                             Gosto de ti sem mentira,

Que tu és certa pequena                            Sem pose, sem presunção,

De linda cara morena,                                Maria da Conceição

Maria da Conceição!                              De Vila Franca de Xira!

 

 

Marias da Minha Terra

 

Essas Marias tafues                                   E aquela que vindima                    

Que passeiam no Chiado                           Desde manhã ao sol pôr

Com seus vestidos azues                            A quem o trabalho anima

E pesito bem calçado,                                Por amor do seu amor

 

As unhas côr de tomate,                            Essa que lava cantando

Sobrancelhas a carvão,                             Cantigas ao desafio,

A linda bôca escarlate                               Suas máguas segredando

E vazio o coração,                                    Ás verdes águas do rio.

 

Não são como tu, Maria,                          Aquela de loira trança

– Marias da minha terra –                         Como uma espiga doirada,

da Senhora da Agonia                              Que sonha amor e esperança

E mais do Senhor da Serra,                       Em noite de desfolhada.

 

Do Penedo da Saudade,                            E tu, Maria da Graça,

Das eiras, da desfolhada,                           E tu, Maria do Ceu,

São Marias da Cidade,                              Que ninguem na aldeia calça

– Não são Marias nem nada.                     Sapatinho igual ao teu,

 

Tu sim, que passas airosa                           Marias todas verdade,

Minha linda moleirinha                                Marias só – coisa pouca –

Mais branca que a branca rosa                   Apenas simplicidade,

Tão branca como a farinha.                        Coração ao pé da boca.

 

E tu, que passas ligeira,                               Marias que passam vidas

De tamanquinha no pé,                                Inteirinhas a rezar

A Maria mais trigueira                                 Pelas alminhas perdidas

Da praia da Nazareth.                          Por sôbre as águas do mar.

 

Essa de saia rodada                                    Quiz cantar o vosso encanto,

Como uma rosa em botão,                          Toda a alegria que encerra

A quem já vejo brilhar                                 Este nome, que é um canto

Nos olhos, o coração.                                 Em louvor da nossa terra!

 

Alice Ogando, Bonecas e Pinguins (Teatro, 1931)

 

© Blog da Rua Nove

06
Jun07

Autógrafos - Amália Rodrigues

blogdaruanove

 

Manuel Luís Pombal (Manuel Luís de Carvalho Daün e Lorena,

1908-1971), A Nau Chatrineta (1967)

Capa de Paulo Guilherme (n. 1932)

 

 

   O que está a fazer o autógrafo de Amália da Piedade Rodrigues (1920-1999) neste livro? Ignoro. De quem são os outros autógrafos? Ignoro. O que é uma chatice... Aliás, o livro de Manuel Luís Pombal, jornalista moçambicano, trata disso mesmo – de chatos e de chatices. Transcrevem-se duas breves passagens da sua dissertação sobre o assunto:

 

   "A Mãe do Mundo vive em permanente estado de exaltação, espalhando benesses por todos os cantos, e arrasando os nervos dos que com ela contactam diàriamente. E se se trata de uma intelectual, então temos o caldo entornado para todo o sempre, pois vai buscar origens de natureza social, na visão de um menino que tem ramela nos olhos, ùnicamente porque a mãmã se esqueceu do lenço em casa. Para nós, seus amigos, acabaram as conversas simples, próprias de gente que se assoa, que anda de autocarro e que gosta de ouvir, em noite de grande inspiração, Amália Piedade Rodrigues ao som do pianinho da tristeza dizer, como mais ninguém, letras singelas dos poetas da rua.

   Vai-se a um restaurante, com fome. Nem nos sabem bem as lulas guisadas, porque a Mãe do Mundo, em ritmo de falas de "Pica-Pau", não desenrola o guardanapo, porque tem de indagar sobre o estado de espírito, naquele momento, do criado que nos serve, rubicundo e jovial filho da Galiza, se este se sentirá humilhado por receber uma gorgeta; se terá, lá em Verin, uma noiva à espera; se o patrão o tratará bem; e quantos dias de folga terá ele por semana..."

 

(...)

 

"RUY KNOPFLI

 

   É o antídoto anti-chato em pessoa, este rapaz trintão, e que, de minha conta e sem falar em nome do povo, para o que ninguém me passou procuração, considero dos melhores ensaistas portugueses do seu tempo. Não é maçável. Nem faz cerimónias. Encara o chato, ri-se-lhe na cara, diz-lhe que o acha chato, corta-lhe a inspiração, atordoa-o com remoques... enfim um rosário de predicados que, infortunadamente, não exornam a minha maneira de ser."

 

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