Miguel Torga (VIII)

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Miguel Torga. De entre as múltiplas análises e ensaios, refiram-se duas obras da autoria de sua filha, Clara Crabbé Rocha (n. 1955), O Espaço Autobiográfico em Miguel Torga (1977) e Miguel Torga: Fotobiografia (2000); um antigo ensaio de Eduardo Lourenço (n. 1923), O Desespero Humanista de Miguel Torga e o das Novas Gerações (1955); um outro ensaio de Teresa Rita Lopes (n. 1937), Miguel Torga: Ofícios a "Um Deus de Terra" (1993), e uma obra de Fernão de Magalhães Gonçalves (1943-1988), Ser e Ler Torga (1986).


A propósito de sua filha e de seu pai, anotou Torga no seu Diário (VIII):
"S. Martinho de Anta, 25 de Março de 1956 – Apresentação da neta ao avô. O melhor viático que eu podia trazer ao velho para a viagem do além, que está prestes a fazer. Pus-lhe nos braços secos a vergôntea de vida tenra, e a paz que a minha própria existência nunca lhe deu nimbou-o como um resplendor."

Sobre o inesperado falecimento de Fernão de Magalhães Gonçalves e a relação entre os dois autores, escreveu Torga no seu Diário (XV):
"Coimbra, 13 de Junho de 1988 – O telefone tocou, e mal eu imaginava que era um dobre a finados. Que nenhuma memória preencheria no futuro o vazio que me ia ser anunciado. De olhos marejados, contemplo agora o Letes de silêncio que nos separa. Ele ainda a dar os primeiros passos literários, mas já dono de uma personalidade poderosamente marcada pelo selo da autenticidade, aproximou-nos o seu dom de se dar sem reservas. E nenhum laço aperta tanto almas irmãs como a evidência da sinceridade. Os deuses é que não cuidam de acasos felizes. E levaram-no na flor dos anos, ou para confirmarem o aforismo de Plauto, porque o amavam, ou cruelmente para desmerecerem as leis do afecto e tornarem mais absurdo o absurdo."
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