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Jul07

Autógrafos - José Viale Moutinho

blogdaruanove

 

José Viale Moutinho (n. 1945), Correm Turvas as Águas deste Rio (1982).

 

 

José Viale Moutinho (n. 1945)

   Jornalista, poeta e ficcionista, Viale Moutinho tem sido um cultor do absurdo em vários dos seus contos, numa linha que apresenta alguns pontos de contacto com a produção de Mário Henriqe Leiria (1923-1980). A sua prática ficcional do absurdo e do fantástico não o afasta, contudo, da contestação e da crítica político-social que, curiosamente, exerce muitas vezes na sua poesia. Mesmo elaborada há décadas atrás, essa contestação mantém muitas vezes a sua actualidade, como se pode constatar no poema apresentado, o qual foi publicado há vinte e cinco anos.

   Embora Viale Moutinho surja como um autor habitualmente esquecido pela crítica e afastado dos lobbies literários, tem uma produção vasta e constante que gera consenso quanto à sua qualidade e se encontra traduzida em várias línguas. 

   De Correm Turvas as Águas deste Rio, transcreve-se o poema da página 49:

 

"DE QUEM SÃO

 

à Raquel e ao Antunes Ferreira

 

de quem são todas estas mãos

dentro dos meus bolsos vasculhando

o cotão à procura da última moeda

perguntava para consigo aquele

que fingia desconhecer quem governava

 

pobre companheiro de jornada teus olhos

nesse musgo enredado que cega

mereciam o grande prémio do apoio

a quem em ti se apoia sem pudor

na terra roubada e no muito suor

 

silêncio é então o que respondes

receoso de que tenham instituído

de novo aquela polícia tão secreta

e que se metia em toda a parte e ouvia

o bater do teu coração como prova de culpa

 

levanta-te meu caro e prepara-te

o pontapé é agora já todos sabemos

que tem de ser agora: afia a bota que

de todos esses monstros de rapina

nem um deve ficar de amostra ou pista"

 

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