Macau, 1937 (I)
"Logo à entrada ouve-se o canto do grilo...". Confúcio. Ocorreram-lhe estas palavras de uma canção de ano novo quando caminhava entre a multidão. Nan-ning!, Nan-ning!, diziam as pessoas, alvoroçadamente, nas ruas. Nan-ning!, Nan-ning!, diriam, certamente, centenas, milhares, milhões de pessoas, em Macau e na China, à chegada do novo ano.
Uma miríade de pequenos papéis, ondulando na brisa da manhã, transformava os desenhos dos búfalos num filme de Walt Disney, anunciando o novo ano. Manadas de búfalos, isolados e silenciosos, moviam-se desordenadamente entre as pontas retorcidas dos quadradinhos de papel, que mostravam o outro lado sempre que a aragem soprava com mais força. Desenhos esbatidos de búfalos, páginas onde os traços mal se viam, páginas quase em branco. Um memorando para as subtilezas e adversidades que poderiam surgir ao longo do ano.
Aquele dia surpreendia-o. Sabia de antemão que era o mais sagrado dos dias para os chineses, mas nunca esperara assistir a tamanha mudança, em Macau. As portas das lojas, que pareciam eternamente abertas, encontravam-se agora todas encerradas. As pessoas, que já se acotovelavam frequentemente durante os outros dias, pareciam agora constituir um vasto campo de arroz, de hastes unas e flexíveis, ondulando ao vento. Não parecia haver espaço entre elas, ocupando as principais ruas da cidade velha. Todos os rostos sorriam, como se nunca tivessem tido outras expressões.
Entre a cortina ondulante de rostos e sorrisos, entre a multidão, vislumbrou um rosto mais sorridente que os outros. Lembrava uma lua cheia de Janeiro, brilhando mais que a mais brilhante das estrelas. Uma lua cheia adornada de sedosas faixas de um negro inacreditável. Uma lua aromática, de cheiros inebriantes. Uma combinação quase impossível. Sândalo, jasmim, laranjeira. O seu luar perfumado encurtava distâncias, sobrepondo-se a todos os outros aromas, fazendo-o esquecer tudo o resto.
Era Liang, que caminhava de rosto levantado, olhando para ele e sorrindo. Sorrindo sempre.
Brinco de Leão (Seng Si ou Mou Si). Macau, cerca de 1937.
(Continua em http://ilusoesurbanas.blogs.sapo.pt/9136.html)
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